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Bibliofobia: #18 – O Mythos: O Fim do Mundo é Logo Ali

Para o mundo acabar, basta pensar


“Nunca no mundo uma bala matou uma ideia”. Quando Monteiro Lobato escreveu essas palavras ele talvez nunca imaginaria o peso que elas possuem. Ideias transpassam o tempo, o espaço e adquirem vida própria uma vez que foram lançadas no mundo. Sabendo disso, M. R. Terci olhou para a mitologia infantil do próprio Lobato e viu nela algo guardado. Algo antigo e negligenciado, que passou despercebido por nossos olhos todos esses anos. Uma ideia grotesca e, devido ao realismo da própria, assustadora. Essa ancestralidade monstruosa, que antes jazia adormecida, é revelada no seu mais alto grau de insanidade através das páginas de O Mythos: O fim do Mundo é logo ali, prometendo pesadelos terríveis àqueles que se aventurarem por elas.

Quarenta e quatro crianças desaparecem em uma manhã de segunda-feira enquanto faziam uma excursão no museu Monteiro Lobato, em Taubaté. Vassilissa Pushkin, filha adolescente de um embaixador russo, também some sem deixar vestígio além de uma caixa repleta de palha. Casos, aparentemente, sem ligação alguma, estão conectados de um modo macabro a um antigo livro esquecido pelo tempo e pelos vivos. Caberá a Pastor, um ex-militar flagelado pela morte da mulher e da filha, tentar resolver o mistério que os conectam. Portas para outros planos devem ser abertas sem jamais conseguirem ser fechadas novamente. O fim do mundo é logo ali e ele nos aguarda.

Existem vários personagens na trama que mereceriam detalhada leitura e um delicado destrinchar ao serem expostos. Entretanto, nenhum deles consegue alcançar a profundidade e a importância que Pastor tem. Além de ser o protagonista da história, ele também se incube de narrar os percursos que seguiremos, através das páginas que lemos.

O humor negro de quem não tem mais nada a perder nesta vida, dado em cada fala, em cada pensamento, em cada ação que Pastor toma, nos aproxima do personagem. Ele olha para o mundo como alguém que espera a morte em cada esquina. É quase como se ele a desejasse. Isso, para a construção do personagem, foi essencial, pois o tom fatalista dos pensamentos que ele possui ganha um outro peso. As observações que Pastor faz a respeito do mundo, que poderiam ser vistas apenas como terríveis visões de um futuro sem esperança, ganham uma ironia incisiva. Não há como passar incólume pelos comentários afiados de Pastor. Algo será sentido, seja desprezo ou simpatia.

A inteligência do personagem, refletida nos seus devaneios, nos afoga no oceano negro que é a realidade. O niilismo é uma constante nesse novo mundo. O que anuncia os dizeres do nosso anti-herói é a incapacidade da humanidade em face a criaturas tão antigas quanto o tempo. A ironia fatalista que Terci se utiliza para caracterizar Pastor ressoa com precisão nos dizeres lobatianos que nos recepcionaram à leitura. As ideias são eternas, uma vez criadas elas se tornam impassíveis de serem feridas ou dissolvidas com o tempo.

Os monstros de O Mythos se comportam como ideias e a luta contra as mesmas se anuncia logo em seu início como fugaz. Como exemplo disso, temos Boitatá. Em certo ponto da narrativa, Pastor e o grupo que com ele se encontra não tem outra opção senão a de “se esconderem” da criatura. Segundo o livro maldito que desgraçou o destino do protagonista, a única forma de se fazer isso é fechando os olhos e prendendo a respiração, causando uma dispersão do pensar. A concentração no corpo move a mente para longe do enfrentamento com a monstruosidade que os persegue e passa a residir no presente físico, fazendo desaparecer a “ideia” de Boitatá. Aqueles que não conseguem fazer isso, perecem em chamas.

Os cacoverpítulos funcionam como engrenagens perfeitamente alinhadas que dão vida a um compasso frenético. Não há como chegar ao final de qualquer uma das partes que compõe o livro sem se sentir agarrado no pescoço pela necessidade de avançar a leitura. O tempo escasso que nosso ex-militar tem para poder resolver toda a urgência que se apresenta para ele, dá uma grande velocidade ao andamento das ações.

Cada tiroteio, cada explosão, cada busca desesperada contida na trama traz consigo um aumento dos batimentos cardíacos ao leitor. Lufadas de ar, vindas da respiração acelerada, só não são mais velozes que o desejo dos olhos em encontrar o fechamento de todas as situações clímax finamente elaboradas por Terci, e isso ocorre também em cenas que parecem banais, como a entrada das personagens em um bar ou em um beco. TUDO no livro é repleto de um sentimento de urgência muito expressivo.

A movimentação de Terci nesta obra talvez seja a mais intensa dos livros do autor que li. Os saltos entre o presente e o passado da narrativa muitas vezes acontecem de súbito e isso acaba exigindo muito mais a atenção do leitor. O complexo quebra-cabeça que é a cronologia da trama vai tomando forma aos poucos. Os dados da história nos são dados lentamente para que possamos montar lentamente o bizarro mosaico. Essa característica incorpora na história uma cinematografia muito evidente. Obviamente, isso decorre por estarmos falando de uma obra que se transformará em uma série televisiva, dirigida por Janderson Geison.

Outra grande culpada do rápido arremate que O Mythos causa no leitor é a construção dos cenários. A Cidade Baixa, local onde maior parte da trama se passa, surge cinzenta, nebulosa e vívida, podendo, inclusive, ser considerada uma personagem. A aclimatação é primorosa em todos os cenários. Quase podemos sentir uma névoa tomando conta do ambiente onde sentamos para ler o livro, tornando tudo mais denso e lúgubre.

A comparação mais gritante que surge é com Lovecraft. O modo distorcido com que a mitologia brasileira e lobatiana se relacionam causam um terror muito similar ao cosmicismo lovecraftiano. O ser humano tem um lugar tão insignificante no universo que está fadado ao enlouquecimento quando se depara com aquilo que sua limitada mente não é capaz de entender.

O Mythos: O Fim do Mundo é logo ali é a apoteose dos escritos do criador de Tebraria. Sendo um livro digno de aplausos, ele também se destaca pela linguagem menos rebuscada e mais direta, sendo capaz de passar sua mensagem não a tornando hermética. É obrigação de todo leitor mais exigente se sentar diante desta obra e degustar deste que, na minha opinião, é o melhor livro de Terci.

 

Ficha Técnica:

O Mythos: O Fim do Mundo é logo ali
M.R. Terci
2016


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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