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Review 2016: #57 – Morgan

Um filme confuso que não consegue se decidir entre sci-fi, ação, drama ou terror


Em um ano em que cineastas estreantes marcaram presença de forma brilhante no horror, Luke Scott decepciona e parece ser uma exceção. Filho de Ridley Scott, lançou-se no mundo do cinema com o longa Morgan, ficção científica com elementos de horror. Ao contrário de seu pai, que tem entre seus primeiros longas, Alien: O Oitavo Passageiro e Blade Runner, o Scottinho não mostra a que veio e entrega um filme sem personalidade e pouco memorável.

O título do filme refere-se a uma garota criada em laboratório, através de manipulação genética avançada. Interpretada por Anna Taylor Joy, mesma atriz que fez Thomasin em A Bruxa, Morgan é um dos pontos centrais do filme, mas engana-se quem pensa que ela é a personagem central do filme. Kate Mara, no papel de uma consultora de controle de riscos, opera como uma espécie de antagonista à Morgan.

As tramóias científicas experimentais de Morgan se dão em um complexo de laboratórios totalmente isolado, em uma floresta típica da fronteira entre EUA e Canadá. Lá, todos os funcionários vivem em uma espécie de micro-comunidade que existe em torno da pesquisa central lá desenvolvida: criação de seres humanos artificiais por motivos escusos e obscuros. Mais especificamente, tal ser humano já foi criado – Morgan, uma garota pálida, de cabelos e sobrancelhas platinados, com um tom de pele meio azulado, quase uma white walker de Game of Thrones.

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Sabe nada…

Seguindo uma das grandes tendências do cinema atual, que é a utilização de câmeras “amadoras” como forma de registro e construção narrativa, somos introduzidos a Morgan por meio de imagens de uma câmera de vigilância, na qual ela salta sobre uma mulher e lhe aplica múltiplas facadas no olho. Tão específico que é de se imaginar que haja algum simbolismo por detrás da ação. Só imaginação…

Em decorrência de tal incidente, a hiper metódica Lee Weathers (Mara) é convocada para prestar uma consultoria, na qual deveria analisar os riscos que o projeto Morgan apresenta. O risco acaba se revelando muito maior que o esperado, conforme Thomasin …Morgan se transforma em uma máquina de matar, ao melhor estilo Soldado Universal.

A temática abordada por Scottinho é bem semelhante ao que seu pai fez nas histórias de Ripley e Deckard. Inteligências artificiais vivendo entre os humanos, personagens femininas fortes e combatentes, questionamentos modernos e interessantes. A diferença é que em Morgan, esses elementos são da profundidade de um prato de sopa. Apesar da boa atuação de Anna Taylor Joy, tudo a seu respeito fica relegado ao campo do óbvio e do que é dito por outros personagens. As próprias interações com os cientistas do laboratório só é perceptível porque nos é apontada logo no começo, por alguns deles. Há muita exposição e explicação sobre aquelas relações, mas há pouca exibição de afetos.

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O silêncio do lago

Um dos maiores exemplos disso é a Dra. Amy, interpretada por Rose Leslie (Você não sabe de nada, Jon Snow). Ao longo do filme, a relação entre ela e Morgan é frequentemente comentada por todos e até exposta em alguns flashbacks. Mas a própria Amy não tem desenvolvimento algum! Do começo ao fim, continuo não a conhecendo e não me interessando por seu destino. No último ato, quando Morgan entra em um ritmo frenético estilo slasher movie, a morte dos personagens não alcança o impacto desejado, porque ninguém se importa.

Essa transformação, ainda que esperada, demonstra uma certa falta de objetivo do diretor, que parece não saber que tipo de filme gostaria de fazer. Apesar de esteticamente consistente, o tom do filme e o foco parecem alterar constantemente, com a mesma instabilidade emocional de sua personagem principal.

No fim das contas, não é um bom sci-fi, não é um bom drama e nem um bom terror. Visualmente ele até impressiona, graças às belíssimas imagens resultantes de um cenário magnífico e equipamentos de primeira qualidade, mas algumas tomadas, principalmente em uma rápida perseguição de carro, parecem comerciais de televisão, tão desprovidas de personalidade e objetividade.

Tudo indica que o sobrenome Scott pesou na produção do filme. Imagino se outros diretores mais promissores tivessem acesso aos mesmos recursos…

2.5 organismos artificiais para Morgan

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Não alimente as criaturas artificiais


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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