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Review 2016: #58 – Beyond the Gates

Em meio à tantas referências, filme se destaca pelo verdadeiro significado do saudosismo


Este ano de 2016 foi repleto de throwbacks em diversos nichos de mercado, dos quadrinhos e games até séries e filmes, seguindo uma tendência que já vem se consolidando há algum tempo, pelo menos no gênero. Falando especificamente no audiovisual, talvez o boom que desencadeou isso a um público mais amplo e menos nichado foi a elogiadíssima série Stranger Things, capaz de despertar vários sentimentos e você, gostando ou não, procurou e captou as referências aqui ou acolá, principalmente dos anos 70 e 80.

A maioria do público apreciador de gênero, mais especificamente o sci-fi e horror, viveu nos clássicos anos 80 talvez a época mais divertida do fantástico, onde obras despretensiosas eram lançadas e faziam (muito por conta da ascensão do home-video) com que o espectador saísse com um sentimento ótimo do cinema ou das já extintas reuniões em casa para fazer aquela sessão pipoca em VHS. Sem tecnologia, Whatsapp e Facebook, estes encontros, além do divertimento quase que certo, eram a chance de se encontrar com amigos, conversar, dar risadas e, enfim, viver de fato! É neste contexto onde exatamente se encaixa o longa Beyond the Gates, que consegue transmitir todo o verdadeiro significado do saudosismo à tona.

Dirigido pelo estreante Jackson Stewart e estrelado por Graham Skipper (Almost Human, The Mind’s Eye), Chase Williamson (SiREN, John Morre no Final) e a veterana Barbara Crampton (Re-Animator – A Hora dos Mortos Vivos, Do Além, Ainda Estamos Aqui), que também assina a produção, somos apresentados a dois irmãos que mal se falavam e, por conta do misterioso desaparecimento de seu pai, são obrigados a retornar para sua antiga casa e fecharem o ‘museu’ da locadora de VHS onde, pouco antes de sumir, seu pai ocupava todo seu tempo.

Que filme é esse passando na TV?!

Que filme é esse passando na TV?!

Eis que, em meio à discussões de caráter e ego dos irmãos, descobrem um antigo jogo de tabuleiro VCR – jogo com auxílio de vídeo – chamado Beyond the Gates onde, numa bela noite após o jantar, John (Williamson), Gordon (Skipper) e sua namorada Margot (Brea Grant) resolvem relembrar os velhos tempos brincando com o estranho jogo. Quando abrem o tabuleiro e colocam a fita para rodar, a bela Evelyn (Crampton), com seus grandes olhos penetrantes, apresenta-os ao jogo e lhes dá duas dicas: “Consequências mortais podem acontecer caso não terminem o jogo” e “Encontrem as quatro chaves, passem através dos portões e somente assim encontrarão seu pai”. O mote está dado.

Tenho a certeza de que lendo o parágrafo acima você com certeza lembrou dos grandes jogos que reunia toda a turma em sua casa: War, Banco Imobiliário, Jogo da Vida… Tempos bons, não?! Não precisava de muito – quase nada, na verdade – para que este tempo se tornasse precioso onde a descontração tomava conta do ambiente e a empatia e amizade se formavam para, talvez, durarem a vida inteira (menos no caso de War, que semeava a discórdia e acabava até com relacionamentos, mas beleza…). É neste sentido que Beyond the Gates acerta em cheio,: trazendo de volta este sentimento perdido e até revigorando-o.

Em meio à tantas obras lançadas este ano com a mesma temática dos throwbacks, nenhuma me apeteceu tanto quanto este filme pois, logo quando o filme acabou fiquei com aquela sensação nostálgica dos raros encontros com a turma da escola para comentar os filmes assistidos, jogar um Master System ou PlayStation – caso seja das épocas mais recentes como eu -, conversar e só dar risadas.

A cenografia da locadora, por exemplo, com a clássica TV 14 polegadas embutida do vídeo cassete e seus corredores separados por gêneros e prateleiras lotadas de VHS é simplesmente perfeita! Vendo as cenas rodadas lá com certeza lhe trará lembrará de si mesmo debruçando-se no balcão para pedir sugestões de filme ao atendente ou apenas comentá-los na devolução das fitas locadas.

Bem vindos ao Jumanji ao jogo!

Bem vindos ao Jumanji ao jogo!

Conforme seu andamento próprio e a relação dos irmãos entra numa crescente, assim como a atmosfera do longa , detectamos a conhecida trilha com sintetizadores de John Carpenter, o jogo de cores de Mario Bava e Dario Argento, o gore exagerado de Lucio Fulci, os mortos-vivos de George A. Romero num mix com os de Stuart Gordon… Mais do que referências, são homenagens aos grandes diretores que proporcionaram a nós toda a alegria de poder se deliciar com um cinema crítico e criativo, sem nenhum medo de ser divertido, tal qual este aqui.

Hoje todos nós crescemos e ocupamos nosso tempo com o trabalho, contas a serem pagas, afazeres domésticos e família. Num mundo onde decresce a empatia e aumenta a individualidade, relembrar que já tivemos bons momentos despretensiosos com uma turma que não se preocupava com mais nada a não ser se divertir, talvez nos faça repensar se a vida é somente este automático que seguimos ou se podemos viver um pouco mais, tirando o pé do acelerador.

Reúna seus amigos e familiares apreciadores do gênero numa noite de sábado, faça um balde de pipoca, coloque esta fita pra rodar sem nenhuma expectativa e com certeza terminará com um sorriso no rosto. Mas não se esqueça de rebobiná-la antes de devolver, hein!

4 chaves de trevo para Beyond the Gates

Galera, vamos jogar até o sol raiar (ou até alguém morrer)

Galera, vamos jogar até o sol raiar (ou até alguém morrer)


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. André Diaz disse:

    Caramba! Marejou-me os olhos legal! Faz tempo que um texto na internet não me causa tamanha emoção!

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