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Review 2016: #60 – Invasão Zumbi

Obrigado, Coreia do Sul, por nos dar o melhor filme de zumbis da década!


Houve um dia em que gostar de zumbis não era tão comum e nem tão cool. Antes da era The Walking Dead transformar de vez os mortos-vivos em um produto a ser consumido, esses cadáveres ambulantes ocupavam um lugar de crítica e sátira que lhes renderam filmes que são discutidos até hoje, sempre que alguém busca fazer um paralelo entre cinema, terror e sociedade.

Todos já ouviram e muitos já disseram algo na linha de: “Eu gosto de The Walking Dead porque não é sobre os zumbis e sim sobre as relações humanas”. Minha primeira reação é sempre pensar: “Quê? ”. Filmes de zumbi – pré e pós Romero – sempre tiveram o elemento humano como destaque! A trilogia dos mortos original de George Romero talvez seja a obra mais seminal do terror enquanto metáfora para as relações humanas em diversos níveis, seja racismo, consumismo, luta de classes e relações interpessoais. Nos últimos anos, o zumbi tornou-se a figura mais banal do cinema de gênero, não só pelo modismo, mas também pela facilidade extrema de ser reproduzido em qualquer mídia ou na vida real, por meio de maquiagens.

Pois bem, o motivo desse mini desabafo hipster de quem gostava de zumbis antes deles serem legais ficará claro ao longo dessa crítica de Invasão Zumbi.

A tradução literal do título coreano seria Trem Para Busan. Para quem não está familiarizado com a geografia da Coreia do Sul tão bem quanto eu, Busan é uma cidade… na qual existem linhas de trem… e coreanos… e que, provavelmente, fica perto de Gangnam (na verdade não, mas tudo bem). No filme, um pai que tenta se redimir com a própria família decide levar a filha para visitar a mãe da menina, de quem se divorciou pouco antes, que vive na cidade de Busan. Para o azar deles, em concomitância com essa viagem de trem bem-intencionada está acontecendo o apocalipse zumbi e um passageiro infectado conseguiu embarcar.

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Coreanão da porra!

Dentre os mais diversos tipos de zumbi existentes, o filme retrata o tipo morto-vivo-corredor-infectado. A contaminação é através da mordida e a mortalidade se dá, aparentemente, de acordo com a proximidade com a cabeça.  Um personagem que for mordido na mão, demora mais para se transformar que alguém mordido no pescoço ou na orelha. Os mortos-vivos são contorcionistas e seus ossos parecem sair e voltar do lugar conforme se movem, grotescamente. Eles andam em imensos rebanhos e, quando provocados, locomovem-se com tamanha velocidade que criam uma massa humana, na qual se atropelam e se pisoteiam furiosamente, no melhor estilo Guerra Mundial Z. Os zumbis em questão são deveras próximos do fraquíssimo filme estrelado por Brad Pitt, mas não tão furiosos e nem capazes de criar construtos monstruosos com seus corpos. Também não há qualquer tipo de solução como infectar-se com vírus (perdão pelo spoiler de Guerra Mundial Z).

O ritmo frenético dos zumbis pode não ser tão intenso, mas o ritmo do filme em si é bem mais acelerado em Invasão Zumbi, que alguns até já chamaram de Mad Max de zumbis. Ambientando em boa parte dentro do trem, há um constante vai-e-vem humano entre os vagões e estações, na tentativa de se livrar dos mordedores. Esse ritmo faz com que as quase duas horas de filme passem igual um trem-bala (HA)!

Em contraponto ao frenesi morto-vivo, existe uma atenção imensa ao desenvolvimento de personagens, como é tradicional ao cinema Sul-coreano. Existem ao menos seis “núcleos” de personagens dentro do filme – pai e filha; marido e mulher grávida; casal de namorados; irmãs; morador de rua; político e suas influências. Todos eles recebem, apesar de forma difusa, uma atenção louvável, que torna suas personalidades marcantes, largamente diferenciadas entre si. A ideia de se conectar ou se importar com um personagem parece ser regra no cinema coreano. O diretor-roteirista tem tamanha facilidade de lidar com estes, que mesmo aqueles com pouco tempo de tela possuem um arco dramático bem delineado, com começo, meio e fim.

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Dupla sertaneja

No início do filme, quando o subplot do personagem principal começa a ser introduzido, são perceptíveis algumas pistas sobre o envolvimento do mesmo em uma série de problemas ambientais, o que é citado novamente no decorrer do longa como possível causa para a infecção. Considerando que a premissa de Invasão Zumbi é exatamente aquilo que seu título deixa a entender, os porquês não têm qualquer valor. O filme em si parece entender isso e lida com essa questão de forma bem sutil, aparentemente intencionando provocar ou denunciar os males da verdade e do amor da degradação ambiental, tema que já é recorrente entre os zumbis brasileiríssimos de Rodrigo Aragão.

Os zumbis atléticos tendem a causar um certo incômodo entre alguns fãs do subgênero, acostumados com os corpos lerdos de Romero. Já faz algum tempo que tenho pensado nessa subcategoria de mortos-vivos de forma diferente, no entanto. Além da própria apreensão provocada pela velocidade das criaturas, que os torna consideravelmente mais ameaçadores, essa mesma característica pode ser entendida como reflexo cultural contemporâneo. Se em O Despertar dos Mortos Romero retrata os zumbis como uma massa alienada pelo consumismo, os zumbis corredores do século XXI – de Extermínio à Invasão Zumbi – também parecem refletir os tempos em que vivemos, marcado por uma corrida tecnológica constante, na qual nós, consumidores, precisamos manter o passo rápido para não nos tornarmos obsoletos.

Ainda é possível entender que os mortos-vivos que se atropelam nos corredores do trem, que ora são atraídos pela imagem, ora pelo som, são um retrato de um mundo cada vez mais marcado pelo déficit de atenção e hiperatividade, cheio de sujeitos que tentam fazer tudo, mas não conseguem fazer nada. Esse é um tema que demandaria um ensaio próprio, mas que ainda precisa ser muito pensado e discutido, especialmente entre nós, fãs.

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Cada coisa que se vê no transporte público…

Nem tudo são flores, no entanto, e cabe apontar um defeito do filme que terá pesos diferentes para diferentes espectadores. A censura aqui parece ter sido bem baixa, o que se reflete na falta de sangue e gore. Considerando que o filme tem como “vilão” mortos-vivos que tiveram partes de seu corpo devoradas, a mutilação e a violência deveriam ser muito maiores, como costuma acontecer dentro do gênero, famoso por ser repulsivo. A ausência de gore dá uma aparência similar à de Guerra Mundial Z, onde há uma espécie de artificialidade dos corpos.

Nas cenas em que os mortos se tornam massas de corpos, a presença dos efeitos digitais acentua ainda mais esse aspecto artificial. Ainda que seja estranho ver um zumbi ficar agarrado no pescoço de uma vítima por dez minutos e a mesma levantar logo depois, zumbificada e com o pescoço no lugar, essa falta de violência não chega a afetar tanto o resultado excitante e intenso alcançado pelo longa. Curiosamente, a falta de violência extrema torna o filme viável e de fácil digestão para quem não é fã do gênero!

Aplausos para o cinema coreano que nos deu essa pérola e O Lamento, dois dos melhores filmes de terror do ano, que não poderiam ser mais diferentes entre si. Invasão Zumbi é divertido, tenso, empolgante e emocionante, um dos melhores filmes do subgênero no século!

4,5 zumbis contorcionistas para Invasão Zumbi

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Estação Busan: desembarque do lado esquerdo do trem


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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