2546ht

HQRROR #25 – Nailbiter


Imagino que no passado, quando psicólogos, psiquiatras, investigadores e peritos começaram a catalogar e definir as características do chamado serial killer, nenhum deles imaginou que tais figuras escabrosas poderiam tornar-se objeto de desejo em diversas camadas da cultura pop. Mortes ritualísticas, padrões doentios e um rastros de sangue exerceram tamanho fascínio sobre o homem que os assassinos em série tornaram-se uma espécie de mito moderno para assustar os jovens: “Se você for um menino malcriado, John Wayne Gacy irá te pegar!”.

Frequentemente, figuras que extrapolam o limite da fantasia se manifestam declarando amor incondicional por figurões da pior estirpe, como aconteceu com Ted Bundy e suas várias fãs. Parte desse deslumbramento foi construído pela representação dos mesmos na televisão, no cinema e na literatura. É difícil imaginar o quão populares essas figuras seriam se não fosse por Hitchcock ou Tobe Hopper e seus Psicose e O Massacre da Serra Elétrica.

A verdade é que, já há algum tempo, certas obras se destacam nesse universo, fazendo com que de época em época apareça um novo marco, capaz de redefinir e reconstruir formas de se representar esses assassinos. Não é preciso ir muito longe no tempo para encontrar alguns desses exemplos:

O Silêncio dos Inocentes, em 1991

Seven: Os Sete Crimes Capitais, em 1995

Psicopata Americano, em 2000

Monster: Desejo Assassino e Memórias de um Assassino, em 2003

Criminal Minds, em 2005 –

Dexter, entre 2006 e 2013

Zodíaco, em 2007

Eu Vi o Diabo, em 2010

Hannibal, entre 2013 – 2015

É com imensa satisfação que acredito ter encontrado um marco ainda mais recente, nas páginas da revista em quadrinhos Nailbiter, que em tradução livre seria algo como o roedor de unhas, lançada pela Image Comics de 2014 e ainda em produção. O serial killer que dá nome a HQ parece fortemente influenciado por Dexter, em seu humor satírico e postura despretensiosa, porém sem nenhum código moral. Nesse mundo fictício, Edward Charles Warren é um dos mais prolíficos matadores da história de seu país, com uma lista de mais de quarenta crimes. A única característica em comum entre as vítimas é o costume de roer as unhas, hábito que o próprio Warren nutre, de forma um pouco mais doentia. Seu apelido foi criado pelo seu modus operandi, que consistia em roer os dedos de sua vítima, com elas ainda vivas.

22

As primeiras páginas da edição número #1 já mostram Warren sendo preso pelo FBI, o que deixa claro que o foco da revista não será a perseguição ou investigação de seus crimes, mas sim sua origem. O Nailbiter é oriundo de uma cidade chamada Buckaroo, no estado do Oregon, mas para a infelicidade seus habitantes, ele não é o único serial killer produzido por lá. Essa cidadezinha interiorana é o lar de nada mais nada menos que outros quinze assassinos em série, conhecidos como os Açougueiros de Buckaroo, cada um com seu próprio método e história, sem nenhum envolvimento aparente entre eles mesmos.

A existência dos Açougueiros é um enigma que leva várias pessoas a obsessão, incluindo aí, por exemplo, o agente Carroll, do FBI. O federal se embrenha tão fundo nesse mistério, que acaba desaparecendo logo depois de pedir ajuda para seu amigo Finch, um especialista em extração de informação. Finch então parte para Buckaroo, onde conhece a xerife Shannon e o assassino mais famoso do país. que foi solto pela polícia e vive isolado nos arredores da cidadezinha. Esse encontro entre os três parece ser o ponta pé inicial para um verdadeiro banho de sangue e uma série de revelações macabras e grotescas sobre a história local.

Nailbiter está em sua vigésima sétima edição, tendo acumulado cinco volumes, uma edição especial e um crossover divertidíssimo com Cassandra Hack, a matadora de slashers de Hack/Slash. Apesar do compartilhamento de universos indicar que o universo de Buckaroo possui elementos sobrenaturais (Cassandra Hack já enfrentou o boneco Chucky!!!), a HQ tem os pés no chão e dedica mais atenção a teorias de conspiração e mortes perpetradas por mãos humanas.

A arte fica por conta de Mike Henderson, que tem um traço bem particular e marcante.  A violência é retratada sem pudores e em todo seu exagero, mas o que chama mais atenção são alguns painéis que parecem saídos diretamente de filmes giallo, por meio de uma perspectiva em primeira pessoa raramente vista em quadrinhos e que, geralmente, simula confrontamentos e perseguições do ponto de vista do(s) assassino(s).  

O texto é colaborativo entre o próprio desenhista e Joshua Williamson, e não fica nem um pouco para trás. O ritmo de desenvolvimento narrativo é constante, de forma que a página seguinte sempre guarda algo interessante. Os personagens são um dos pontos mais fortes, principalmente por suas peculiaridades e personalidades desviantes. A ideia de bem e mal passa longe da composição dos mesmos, incluindo a do temido roedor de unhas Charles Edward Warren, com seu charme interminável.

O que torna essa HQ especial é o universo dos serial killers de Buckaroo. Ao longo das edições, os outros assassinos são introduzidos gradativamente e cada um possui uma forma de matar relativa a algum traço de personalidade. “A Loira”, por exemplo, era conhecida por mutilar homens que fizessem qualquer tipo cantada para ela nas ruas. “O Assobiador”, por sua vez, gostava de assobiar enquanto passava a faca em suas vítimas. Essa mecânica de múltiplos assassinos em série lembra um pouco o que aconteceu em séries de TV como Criminal Minds, Dexter e Hannibal, mas a conexão entre eles é um elemento completamente sui generis e um dos vários motivos pelos quais acredito que Nailbiter é um marco sobre o tema na cultura pop. É provável que ele ganhe notoriedade caso a HQ se torne uma série popular, o que é bem capaz de acontecer, já que os quadrinhos têm se tornado uma fonte cada vez mais comum para seriados.  

Resta agora torcer para que uma possível adaptação consiga manter o nível de qualidade da revista. Nailbiter ainda não foi lançado no Brasil, mas pode ser encontrada em edições bem legais na Amazon americana, por exemplo.

p28_0-copy


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *