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Review 2017: #02 – The Eyes of My Mother

Os olhos de Nicolas Pesce acompanham o brutal, mas poético, nascimento de uma psicopata


A terceira Lei de Newton diz que toda a ação tem uma reação igual ou contrária. Existem certos acontecimentos na vida de cada um que podem mudá-la para sempre, e de um simples segundo para o outro, uma ação, sua ou de terceiros, pode defini-lo para o resto da existência. Uma vez que a arte imita a vida, é exatamente sobre as devastadoras consequências de um acontecido que se trata The Eyes of My Mother, o surpreendente longa de debute do diretor Nicolas Pesce.

O conto P&B sulista gótico mezzo americano, mezzo português é um perturbado drama sobre família e morte, suas relações doentias e as mazelas psicológicas devastadoras oriundas da perda, desenvolvido como um hermético e minimalista poema, que figura como bizarro e lindo ao mesmo tempo.

A tal da causa e consequência que citei no primeiro parágrafo é o que vai nortear a tour de force da personagem principal, Francisca, de quem somos testemunhas oculares da brutal ruptura da inocência infantil de uma vida bucólica numa fazenda no interior dos EUA, onde mora com seu pai e sua mãe, uma antiga cirurgiã portuguesa, para a ascensão, apogeu e queda de uma psicopata nascida de uma experiência traumática.

É friboi?

É friboi?

Nos primeiros minutos do filme vemos a ligação íntima da pequena, interpretada aqui por Olivia Bond e sua mãe, vivida por Diana Agostino, rompida quando um estranho aparece na fazenda e pede para usar o banheiro. Logo de cara já descobrimos a intenção nada bondosa do sujeito psicótico, que as ameaça e acaba por matar violentamente a mãe – ato que vemos apenas em um lampejo ao atacá-la na banheira, quando o pai finalmente chega em casa, tarde demais, apenas para acompanhar atônito o flagrante.

O que surpreende é que ao invés do assassino ser morto ou entregue às autoridades, ele é capturado e preso no enorme celeiro, enquanto o pai e Francisca enterram o corpo da falecida. Surpreende ainda mais enquanto ele é mantido em cativeiro, quando a pequena mocinha então resolve torturá-lo, cirurgicamente removendo seus olhos e cortando suas cordas vocais e mantendo-o acorrentado e sendo alimentado de animais mortos. Isso até a chegada da sua vida adulta, quando o pai morre, e ao melhor estilo Norman Bates (uma vez que a influência Hitchockiana é inegável), seu cadáver é mantido em casa por uma agora belíssima mulher, papel de Kika Magalhães – ótima por sinal – para quem dança o fado de Amália Rodrigues tocado na vitrola da sala. Não dá para falar absolutamente mais nada sobre o desenrolar do filme sem entrar no campo dos SPOILERS.

Além de Psicose, outra inspiração clara de Pesce é no cinema da Nouvelle Vague francesa e o expressionismo alemão, destacados pelos lindíssimos planos e contraplanos da fotografia preta e branca de Zach Kuperstein, que consegue com seu jogo de luz e sombra, misturar a beleza daquela erma zona rural com o clima denso que permeia a atmosfera do longa.

Que tal nós dois numa banheira de espuma

Que tal nós dois numa banheira de espuma

Um sentimento de desolação, e por incrível que pareça, pena de Francisca (e por diabos, até do sujeito que matou sua mãe em certo momento) vai se construindo ao acompanharmos o drama da garota tentando se localizar num mundo o qual não compreende as regras e moralismos. Essa sensação vai sendo sobrepujada ao pavor de sua barbárie e psicose, típico produto de seu meio, em um tema indigesto e espinhoso, que além de envolver assassinato e tortura, tem lá suas doses de canibalismo e violência gráfica.

Sua curta duração, apenas 76 minutos, ao mesmo tempo que favorece sua dinâmica arrastada e aspecto de filme artsy – que definitivamente é uma espécie de “afasta público médio” – atrapalha por conta de seu final apressado e um tiquinho de desenvolvimento raso do terceiro ato, com uma conclusão muito acelerada, fazendo com que a experiência até então inebriante termine muito cedo e de forma óbvia. Além de sérios problemas de continuidade em relação a passagem de tempo para os personagens, tanto para Francisca quanto para seus cativos (sim, no plural).

O olhar frio e duro, mas ao mesmo tempo, complacente de Pesce é o que mantém o dúbio espectador hipnoticamente ligado a The Eyes of My Mother até seu final, que como na tristeza de um bom fado, conduz seu processo de criação de uma serial killer (mais ou menos na mesma linha do excelente The Boy, de Craig William McNeill) nascida de forma bestial com a fragilidade arrancada a fórceps e substituída pela violência que reproduz e aprendera a gostar.  Sem trocadilhos, é bom ficar de olho em Pesce.

4 olhos de boi para The Eyes of My Mother

Tudo sobre minha mãe

Tudo sobre minha mãe

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. Willian Bitencourt disse:

    Olá!
    Acabei de ver o filme e gostei do que vi.
    Só uma dúvida: o pai da Francisca também tinha traços de psicopatia? Pois a cena em que ele prende o psicopata, ao invés de chamar a polícia, deixou essa dúvida no ar.

  2. Lisi disse:

    Um dos melhores filmes do ano. Estética perfeita, um conceito simples bem explorado, ótimas atuações. Uma atmosfera muito envolvente! Amei.

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