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Review 2017: #03 – Dominação

Possessão demoníaca disfarçada na mais nova picaretagem da Blumhouse


Dominação foi um dos últimos filmes de horror a entrar em cartaz nos Estados Unidos no ano passado e o primeiro a estrear no Brasil em 2017, pela PlayArte Pictures. Sem dúvidas um final de ano prá lá de ruim e um começo igualmente péssimo. E o pior? Nem chega a ser uma surpresa.

Façamos uma pausa para observar a filmografia do diretor Brad Peyton: Terremoto: A Falha de San Andreas, Como Cães e Gatos 2: A Vingança de Kitty Galore e Viagem 2: A Ilha Misteriosa. Se isso não for suficiente para desacreditar essa pérola, lembre-se que este é um novo lançamento da Blumhouse, a produtora NÚMERO UM em manutenção e propagação de clichês no gênero.

Em Dominação, Aaron Eckhart interpreta um homem com o poder de mergulhar no inconsciente alheio. Tal habilidade serve para um único propósito:expurgar entidades parasíticas que se apossam de pessoas comuns. Sabe quando histórias de zumbi chamam os mortos-vivos de coisas aleatórias tipo “mordedores” ou “walkers”? É a mesma coisa aqui, já que esses parasitas são meros demônios, daqueles da ralé e seu método de infecção é a mais tradicional das possessões, faltando só o vômito verde.

Os exorcismos do Dr. Ember (Eckhart) parecem mais uma forma de vingança contra esses seres das trevas que um desejo genuíno de ajudar os possuídos. Tudo isso por conta de uma tragédia que ele sofreu nas mãos de uma diaba em particular, conhecido como Maggie, que provocou um acidente que lhe custou a vida de esposa e filho, além do movimento das próprias pernas. O rancoroso e paraplégico doutor é convocado por uma agente do Vaticano para lidar com um garoto possuído que tem apenas três dias de vida (um número estranhamente específico e baseado em absolutamente nada…) e, ao que tudo indica, esse demônio é a tal Maggie. O molequinho possuído é interpretado por David Mazouz, que já havia sido possuído um pouco antes em 2016 na bomba A Escuridão.

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Se você morrer no sonho, você morre na vida real

Exorcismos e possessões demoníacas já foram quase exauridos cinematograficamente devido a repetição constante de recursos comuns ao subgênero. Em Dominação, existe uma aparente pretensão de mascarar a temática sob um viés mais científico, porém fracassa nessa tentativa de disfarce, ao insistir nesses mesmos recursos já esgotados: corpos que levitam, olhos coloridos, vozes retumbantes,idiomas estranhos e tudo mais.

Se, por um lado evoca O Exorcista, também segue um caminho deveras diferente ao buscar plágio inspiração em A Origem. O método de livrar pessoas de seus encostos consiste em utilizar um maquinário tecnológico ficcional para adentrar a mente do indivíduo e convencê-lo de que está em um sonho do qual precisa acordar, removendo assim o poder que o parasita dos infernos possui. A inspiração não para por aí, já que, do mesmo modo, optou por copiar alguns dos problemas da película de Christopher Nolan.

Constantemente os personagens recorrem a explicações detalhadas que buscam situar o espectador, considerando-o incapaz de fazer associações por conta própria. O didatismo se manifesta no diálogo, bem como na edição, que parece mastigar a experiência, apontando exatamente para onde a atenção deve ser direcionada. Se o personagem olha para o relógio no pulso, temos um corte que mostrará o relógio em close. Se o personagem olha para uma tela de computador, temos um novo corte para essa tela em close. Esse é um exemplo banal que resume o trabalho do editor nessa belezura.

Outra questão que se assemelha ao longa de Nolan, negativamente falando, é na incapacidade que ambos compartilham em compreender o inconsciente e o sonho como um espaço abstrato. Qualquer pessoa que já se recordou de algum sonho sabe que estes são abstratos, marcados por uma constante condensação de espaços e imagens. Porém, nos dois casos, o subconsciente opera como um espaço concreto e ordenado, indiferenciado da realidade, até que alguém faça algo para manipulá-lo. É possível pensar que tal representação seja intencional e mostre que aquela dimensão imaginária é uma criação das trevas. No entanto isso abriria um precedente para um questionamento óbvio: se quem controla esse mundo onírico é o demônio, por qual motivo, causa, razão ou circunstância ele permitiria a entrada de um forasteiro ali? Ainda mais alguém que poderia derrotá-lo?

O roteiro de Ronnie Christensen, de Passageiros e Maré Negra, é tão falho, que cada tentativa de teorizar sobre esse pressuposto científico que embasa as possessões gera um precedente para dúvidas e questionamentos, de forma que o longa é incapaz de sustentar as próprias regras. No primeiro contato do Dr. Ember com a mãe do garotinho possuído, interpretada por Carice van Houten (a Melisandre de Game of Thrones), ele explica que o parasita tentará saltar para um novo hospedeiro, caso o anterior consiga se libertar. É de se esperar que exista alguma salvaguarda para esse problema, o que não acontece em momento algum. Do começo ao fim, essa informação é totalmente relevada pelo próprio doutor, que não só toma zero precauções como ainda permite a presença de várias pessoas no local. Resumidamente, o que temos aqui é um buraco meteórico no roteiro que tem um impacto gigantesco no final, que diga-se de passagem, é uma atrocidade. A montagem da sequência que encerra o longa parece ter sido feito pela mesma turma que montou Esquadrão Suicida, de tão abismal.

Dominação é nada mais que outra obra descartável lançada pela Blumhouse, que até passa como entretenimento barato graças ao esforço de Aaron Eckhart, mas que cairá no mais obscuro esquecimento em breve.

1.5 parasitas espirituais para Dominação

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Será que esse filme inteiro foi um pesadelo?


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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