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Bibliofobia: #19 – Macabra Mente

Malditos pensamentos


Uma ideia é como uma semente que cresce mediante o modo como ela é regada na mente daquele que a possui. Quanto mais regadas forem as ideias, maiores serão as raízes. Nutridas e bem desenvolvidas, dão para a mente a necessidade de pô-las em prática. Entretanto, nem todos as raízes são boas e algumas podem, inclusive, causar muito mal para si mesmo e ao seu redor. O novo e bem construído livro de Vitor Abdala, Macabra Mente, trata sobre essas raízes malditas em seus oito contos.

Em O Barulho na Casa de Máquinas, o síndico de um prédio precisa lidar com uma situação pouco usual durante a madrugada devido uma inquilina detestável. Um som desagradável não para de reverberar pelo apartamento da queixosa vindo de um local que deveria estar completamente vazio. Ciente de suas obrigações nada aprazíveis, o síndico irá ao lugar tentar resolver a situação. Chegando lá, ele se depara com aquilo que pode ser o final de sua própria vida. O final inesperado desse conto, que remete ao início do próprio, cria uma narrativa assustadoramente bem estruturada e apavorante quando refletimos sobre as possibilidades que ela cria dentro do universo de seus personagens.

Com Zé do Peixe Quer o Seu Voto somos levados a um conhecido cenário de nosso país: um político que desaparece durante todo o período em que esteve eleito, vai em busca de votos durante os meses que precedem as eleições. Ele segue visitando as residências de seus eleitores mais humildes, aqueles que ele sabe que pode engambelar facilmente com mais promessas vazias. Entre eles está um homem que o recepciona em sua casa com um sorriso malicioso e perguntas sobre anjos. O político, capaz de fazer qualquer coisa para garantir mais um voto, responde de modo automático às questões, dando ao seu querido eleitor a deixa que ele precisava para seus propósitos superiores. O leitor, enquanto membro de uma sociedade regida pela corrupção, tem nesse conto seus desejos mais obscuros saciados, desvelando para o mesmo sua natureza mórbida e vingativa muitas vezes ignorada devido as durezas do dia-a-dia que o impede de refletir.

Auto de Resistência segue na mesma toada que seu antecessor e expõe outro aspecto cruel de nossa realidade. Dois policiais precisam encontrar uma forma de encobrir o assassinato acidental de um jovem morador de favela. A falta de treinamento de um deles e o conhecimento das formas de burlar a perícia do outro contrastam brutalmente, trazendo aos olhos verdades inconvenientes e muitas vezes ignoradas. Ao final, os esforços dos policiais são frustrados com o inesperado, com o inexplicável. Aqui, assim como o conto anterior, a faceta jornalística do autor toma conta e constrói uma história que mescla ficção e realidade com primor. Não há como não se sentir vingando, de uma forma bárbara e primal, pelo desfecho.

O conto Disco de Vinil contará a infelicidade de um homem que possui uma vida pacata, ainda que bem estruturada. Seus dias são repletos da monotonia do trabalho e suas noites preenchidas pela música de seus discos de vinil. Um dia, enquanto garimpava mais artigos para a sua coleção, por mero acaso (ou será que não?) encontra um estranho vinil que contém apenas uma música. Sem entender bem o motivo, ele leva o disco para casa e se permite ouvir a bizarra melodia. O som macabro passa a abarrotar seus pensamentos e empurrar sua sanidade até os limites. Esse conto me remeteu à lenda urbana que assombra a canção “Glommy Sunday” , também conhecida como “a canção húngara do suicídio”. Aqueles pouco familiarizados com a história por detrás dessa lenda, sugiro que a pesquisem e criem suas próprias conexões.

Na inventiva trama de Beta, um rapaz tem seu destino selado no momento em que decide comprar um peixe-beta. Embora esse tenha sido o conto que menos agradou dentro do livro, ele é de longe o mais original. As circunstâncias em que o terror se instala na narrativa surgem de modo gradual, mostrando como os dias do protagonista vão se tornando mais e mais repletos de desespero. O ponto que me deixou desgostoso talvez tenha sido o objeto escolhido pelo autor para disparar o gatilho do medo. Entretanto, acredito que essa escolha tenha sido feita de modo admirável, tornando amedrontador algo que antes era visto como inofensivo.

Vemos em Túmulo de Aço o desespero de um tripulante de uma estação petrolífera ao ser acordado aos gritos por outro membro de sua equipe. Em meio às desnorteadas declarações de morte de todos os demais que estavam na estação, os dois engenheiros começam a ouvir batidas constantes contra a porta de metal que os separam do exterior da plataforma de extração. O medo se instala e tudo piora quando se torna evidente que tudo está prestes a afundar. Esse conto, com seu desenvolvimento rápido e atmosfera claustrofóbica, invoca elementos lovecrafitanos de modo magistral. Isso ocorre não só no desfecho, mas também no modo como as personagens estão lidando com a situação que lhes é apresentada. A sanidade delas vai se esvaindo no mesmo ritmo que a conclusão arrematadora da trama se torna inevitável. De longe, o meu conto preferido do livro.

Em Ilhas das Focas, o conforto que muitas religiões trazem aos seus crentes é arrancado de modo amargo. Um homem descrente de vida após a morte sofre um acidente que termina com a sua existência. Pelo menos, com a existência como ele a concebia. Novamente, a inventividade do autor nos chama a atenção. O tema reencarnação na maioria das vezes é utilizado na literatura como algo que acalenta as personagens. Ela justifica ódios, processos de vingança e aspectos da personalidade. Nesse caso não. Aqui o trabalho do autor torna a perspectiva de vivermos novamente após essa vida algo incerto, terrível e muito provavelmente sem qualquer propósito. A ausência de sentido em estar vivo se manifesta até mesmo ao final de nossas histórias.

Concluindo o livro, Despachos contará a infelicidade de um jovem que, em meio a sua saudável rotina de atividades físicas, acaba violando a santidade de uma oferenda feita para uma entidade e agora deverá pagar o preço por isso. Essa é uma história perfeitamente executada que traz elementos sobrenaturais da cultura brasileira e uma finalização tragicômica excelente.

No início dessa resenha, falei sobre o efeito que ideias com raízes profundas possuem. Esses efeitos podem ser vistos na ambiguidade que cada um dos contos carrega. As histórias são tão bem construídas que não somos capazes de afirmar que os acontecimentos que elas narram de fato ocorreram. Leituras alternativas de cada conto podem ser feitas e todas elas, em algum momento, deverão passar pela ideia de que suas personagens enlouqueceram. Isso não é algo simples de ser feito e mostra a fantástica capacidade literária que a escrita de Vitor Abdala possui.

Com uma escrita tão sintética e clara quanto o seu antecessor Tânatos – Contos Sobre a Morte E O Oculto, Macabra Mente é um livro curto, divertido e aterrorizante que propicia muito mais em cada uma de suas páginas do que uma única leitura é capaz de captar.

Ficha Técnica:

Macabra Mente
Vitor Abdala
2016
Editora do Autor


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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