Christopher Lloyd as Bill Crowley and Max Records as John Cleaver in 'I Am Not a Serial Killer'

Review 2017: #04 – I Am Not a Serial Killer

O lugar onde adolescência, assassinos em série e o sobrenatural se cruzam


Dirigido pelo irlandês Billy O’Brien, que comandou os pouco conhecidos Quarentena (não, não é o remake de REC, pode ficar sussa) e Scintilla, I Am Not a Serial Killer é uma adaptação do primeiro de uma série de livros escritos por Dan Wells, conhecida como John Wayne Cleaver Trilogy (a série já está em uma segunda trilogia), coleção considerada como YA Horror (horror para jovens adultos), centrada em um adolescente com tendências psicopáticas que, entre lutas diárias contra pulsões violentas que emanam dentro de si, precisa enfrentar assassinos em série que brotam em sua cidade.

Fortemente influenciado por assassinos reais e fictícios, como O Filho de of Sam, John Wayne Gacy e Dexter Morgan, a obra oscila entre uma perspectiva mais comum aos thrillers e o horror sobrenatural-fantástico, o que lhe confere um aspecto bem particular e que talvez não agrade tanto aos que estiverem mais interessados em algo pé no chão, com embasamento na realidade. Apesar de não ter lido nenhum dos títulos, é possível fazer algumas observações relativas a questão da adaptação entre diferentes mídias.

John Wayne Cleaver, interpretado por Max Records, é um colegial de poucos amigos que preenche o tempo livre trabalhando como agente funerário, ajudando sua mãe e tia no funesto negócio familiar. Obcecado por histórias de assassinos seriais, considera a si próprio como um em potencial, teoria essa corroborada por seu terapeuta, que o diagnosticou como sociopata. Seu nome por si só já é motivo de curiosidade: os dois primeiros nomes, John Wayne são os mesmos do infame palhaço homicida John Wayne Gacy, enquanto o sobrenome Cleaver é a palavra inglesa para cutelo. Além disso, possuir três nomes é uma ocorrência bem comum entre os assassinos em séries mais prolíficos nos Estados Unidos, lógica parecida com a que foi usada para escolher o nome original de Chucky, Charles Lee Ray (uma amálgama entre Charles Manson + Lee Harvey Oswald e James Earl Ray).

Apesar da forte referência que seu nome de batismo carrega, ele não é um serial killer, como o próprio título diz. Enquanto pendula entre o desejo de matar e o bem-estar social, no melhor estilo Dexter, a curiosidade mórbida do rapaz faz com que ele mergulhe de cabeça em uma série de crimes horrendos que andam abalando os moradores de sua cidadezinha natal no meio-oeste americano, Clayton  Por coincidência (ou não), I Am Not A Serial Killer dialoga com os dois primeiros textos de 2017 aqui no 101 Horror Movies: o longa The Autopsy de Jane Doe e a HQ Nailbiter.  

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Eu sou um psicopata. Não, sério, sou mesmo. Muito psicopata, tipo, muito. Pode perguntar pra qualquer um.

Logo no quadro inicial, o elemento estético mais marcante do filme já salta aos nossos olhos: a imagem granulada e de aspecto antigo é oriunda do Super-16, câmera que utiliza película ao invés da tecnologia digital. Lançado no princípio dos anos 70, esse formato é profundamente associado à sua época, passando assim a impressão de estarmos diante de alguma velharia cinematográfica recém-descoberta, o que é corroborado por escolhas de enquadramento e montagem e pela própria temática de assassinos em série que vivia um período áureo naqueles anos. Considerando que a literatura utiliza palavra e imaginação, um recurso estético como esse se mostra puramente cinemático. Graças a isso, podemos considerá-lo dentro dos throwback, ou filmes que voltam ao passado, explorando suas próprias influências na criação de algo novo em um processo “filmofágico”.

Se por um lado a produção de O’Brien se beneficia de ferramentas que sua contraparte não dispõe para conseguir alcançar uma atmosfera específica, há uma situação contrária, na qual o primeiro tentou utilizar um elemento particular da narrativa literária com um resultado negativo. Cleaver é, ou dizer ser, um psicopata, diagnóstico embasado por uma série de regras e preceitos aparentemente universais, relativos ao comportamento e ao pensamento desses famosos lobos em pele de cordeiro.

No decorrer da trama, o comportamento esquizóide e por vezes ameaçador do adolescente aponta para algum distúrbio que é mais do campo da rebeldia que da psicopatia propriamente dita.  O discurso do protagonista, em geral, remete àqueles jovens incompreendidos e revoltados com o mundo. Não obstante, do começo ao fim, ocorrem vários diálogos e monólogos expositivos que tentam reforçar e reafirmar o tempo inteiro que ele é um psicopata.

Essa parte falada parece ter sido transposta sem alterações diretamente das páginas do livro, mas não funciona tão bem, já que o cinema é, antes de mais nada, uma mídia visual. Sabe aquela história de que uma imagem vale mais que mil palavras? Pois é. A título de comparação, The Boy (2015), que também é advém da literatura, fez um trabalho infinitamente superior no que tange a criação de um personagem com tendências psicopáticas, utilizando pouquíssimos diálogos.

Christopher Lloyd

Fui descoberto, preciso voltar no tempo e… filme errado!

Para a alegria geral da nação, essa é a única questão que tem um impacto negativo considerável. O desenrolar do enredo é lento, mas nunca maçante e o antagonismo estabelecido entre Cleaver e Crowley (alcunha sugestiva, né?) interpretado pelo eterno Doutor Brown, Christopher Lloyd é um dos pontos altos aqui. O personagem de Lloyd é profundamente enigmático, revolto em um véu fino de ocultismo e trevas, que se desvela de forma brilhante no último ato, em um dos momentos mais marcantes que o cinema de gênero viu em 2016.

Semelhante ao que acontece em The Autopsy of Jane Doe, existe todo um investimento no corpo humano, que é repetidamente colocado em cena como um objeto manipulável e vazio. A família do protagonista obtém sustento através do ofício funerário, ao passo que seu algoz obtém um outro tipo de sustento de suas vítimas. Ainda é possível perceber uma crítica de cunho sócio-econômico, pontuada com muita sutileza. Um dos personagens da funerária aponta, jocosamente, como a presença do serial killer parece ter garantido o emprego dos mesmos que, segundo ele, estavam as vias de ir para o olho da rua. Esse apontamento sobre o desemprego entra em ressonância com alguns planos que mostram a cidade como um espaço vivo, porém fraco e ofegante, o que me fez pensar imediatamente em filmes como Corrente do Mal e O Homem Nas Trevas, que também retratam uma realidade urbana decadente longe da prosperidade e grandiosidade dos grandes centros urbanos Norte-Americanos.

Disponível na Netflix (surgido como uma surpresa na programação no final do ano que se acabou) e muito pouco comentado, I Am Not a Serial Killer é uma peça única, uma pequena joia que ainda  não foi descoberta. Ainda não há qualquer sinal de que a sequência, Mr. Monster, venha a ser adaptada para os cinemas, mas caso isso ocorra, terá um lugar garantido entre os mais antecipados do ano. Este segundo exemplar, de acordo com a sinopse, aparenta ser algo bem parecido com Dexter e seu passageiro sombrio, mostrando um conflito do adolescente com um eu interior que deseja matar.  

4 órgãos internos para I Am Not a Serial Killer

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O que foi visto, nunca será desvisto


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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