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Review 2017: #05 – À Sombra do Medo

Os horrores da guerra, de um regime teocrático, do totalitarismo e da maternidade


A Revolução Iraniana, ocorrida em 1979, transformou o Irã de uma ditadura monárquica governado pelos xás e seu estreito relacionamento com a política e cultura ocidental, em um regime republicano teocrático islâmico, sob o comando dos aiatolás. A insurreição se iniciou com a aliança de grupos de esquerda, liberais e religiosos para depor o Xá Mohammad Reza, insatisfeitos com suas decisões políticas, sociais, econômicas e principalmente religiosas, resultando na instauração da revolução islâmica. O legado desse período de transição foi uma completa transformação cultural no país com o estabelecimento de um governo totalitário fundamentalista e a perda de liberdades civis decorrentes ao processo.

Logo após a Revolução, deu-se início à Guerra Irã-Iraque, que durou de 1980 a 1988, que até então foi o conflito mais longevo do Século XX. No fim da década de 80, o Iraque, comandado pelo ditador Saddam Hussein, lançou uma série de bombardeios estratégicos nas principais cidades iranianas, inclusive sua capital, Teerã. Toda essa explicação do contexto histórico para localizar os acontecimentos da estreia do diretor Babak Anvari na direção com o ótimo À Sombra do Medo, que acabara de chegar a grade do Netflix, e sem sombra de dúvidas (desculpe o trocadilho) é um dos melhores filmes de 2016, figurando em nosso TOPE NOVE.

Pejorativamente chamado de “Babadook Iraniano”, À Sombra do Medo é centrado na relação entre mãe e filha, Shideh (Narges Rashidi) e Dorsa (Avin Manshadi), que vivem na capital iraniana durante esse período. Shideh outrora fora uma mulher independente, aluna da faculdade de medicina que seguia o sonho de sua mãe em se transformar médica, enraizada na cultura ocidental (como assistir as aulas de ginástica de Jane Fonda em seu aparelho de videocassete), que viu seu futuro e sonhos estraçalhados com a Revolução, a qual combateu e protestou durante o período universitário.

Rebobine antes de devolver

Rebobine antes de devolver

Sendo mulher dentro de um Estado muçulmano, ela teve seus direitos cerceados, sendo impedida de terminar seus estudos, obrigada a cobrir o cabelo com um shayla ao andar nas ruas, inferiorizada por uma rígida sociedade patriarcal e relegada à dona de casa, onde está confinada cuidando da filha pequena, enquanto seu marido, Iraj (Arash Marandi) completou os estudos e tornou-se um médico do exército. Como se não bastasse todas as dores de uma mudança brusca de vida, a família vive o constante medo do conflito, sempre alertas aos ataques iraquianos, correndo para um abrigo subterrâneo ao tocar o alerta de bombardeio ou tendo que vedar as janelas com fita para se proteger de estilhaços, atentos aos boletins de rádio e murmurinhos boca a boca.

Não poderia haver um horror maior que isso, certo? Pois bem, é aí que Iraj é enviado para um novo posto de trabalho no meio do campo de batalha, e Shideh decide permanecer sozinha com sua filha não acatando a ordem sugestão do marido de partir com a filha para a casa de seus sogros, uma vez que nunca foi bem quista por lá, mantendo firme o mínimo de sua independência e liberdade roubada pelo regime do Aiatolá Kohmeini. Nesse ínterim, muda-se para o prédio um garoto, sobrinho do senhorio, que se aproxima de Dorsa, que começa a lhe contar sobre a lenda dos Djinn, ou gênio, que em nossa cultura ocidental foi suavizada por conta do Aladdin da Disney ou da série Jeannie é um Gênio, mas na mitologia árabe pré-islâmica trata-se de uma entidade sobrenatural maligna feita a partir dos quatro elementos que pode assumir qualquer forma (inclusive de um edredom!). Detalhe é que o moleque é mudo e não diz uma palavra desde a morte dos pais, mas fica cochichando essas coisas no ouvida de Dorsa!

O comportamento da garotinha passa a se tornar errático, além de deterioração de saúde, ficando insone e febril, com sensação de cansaço e falta de ânimo, quando sua boneca de pano desaparece misteriosamente. Reza a lenda que quando os Djinn roubam um objeto pessoal de uma pessoa, ela fica amaldiçoada e sob influência da entidade, que nesse caso é um gênio do ar (exatamente aquele que pode ser aprisionado em garrafas) e se movimenta pelo vento. Ainda há elementos mesclados das demais espécies das criaturas segundo a mitologia, uma vez que ele também influencia negativamente no aspecto emocional de mãe e filha, possui capacidade de possessão e desperta sentimento de ódio e inveja, características dos djinn de água e fogo.

Desafio do manequim

Desafio do manequim

Vale um adendo que o Djinn já foi explorado em algumas outras produções de terror no decorrer dos últimos anos, sendo a mais famosa, a figura de Nathaniel Demerest, criatura central da franquia O Mestre dos Desejos, cujo original fora produzido por Wes Craven e dirigido por Robert Kurtzman, o K da empresa de efeitos especiais KNB EFX. Até Tobe Hooper já se aproveitou da lenda do monstro árabe no recente Djinn, de 2013.

A relação íntima entre as duas começa a se tornar cada vez mais tensa, áspera e cansativa e é aqui que ele lembra bastante a dinâmica mãe e filho do filme australiano de Jennifer Kent, provando mais uma vez que a maternidade por si só pode ser um filme de terror! Ao mesmo momento em que as relações familiares são colocadas à prova, temos aí um elemento sobrenatural como pano de fundo, que vem como todo seu aparato gótico básico, que também coloca a figura de Babak como uma espécie de James Waan persa, inclusive pelas escolhas na construção narrativa de um drama familiar e esporádicas aparições até a chegada do terceiro ato, quando o longa começa a se aproximar mais dos elementos tradicionais do gênero com um toque ocidentalizado: manifestações físicas do ser sobrenatural, uso de CGI, jump scare e as costumeiras resoluções mundanas para se combater o mal.

Babak consegue manipular o espectador naquele ambiente fechado (o filme quase que por inteiro se passa dentro do apartamento) aumentando exponencialmente o sentimento de clausura, medo e impotência, colocando-nos junto da família e dos demais moradores do local, apreensivos a cada estouro de bomba, queda de energia ou soar da sirene, além de nos submergir na dor das escolhas de Shideh, sua amargura, ressentimento e privação de direitos políticos, sociais e culturais por conta da intolerância religiosa oriunda da instituição de um novo regime, o machismo brutal da sociedade muçulmana e vários outras questões que vem sendo amplamente discutidas de forma aberta ou velada no cinema de terror dessa nova metade do século, conforme o aumento das pautas sobre extrema direita, fundamentalismo religioso, regimes intolerantes, feminismo, maternidade e xenofobia dentro do gênero enquanto reflexo social.

A alegoria de uma presença maligna é pura e simplesmente metafórica dentro de À Sombra do Medo, quando há maiores e piores horrores à nossa volta.

 

4 djinn para À Sombra do Medo

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Emília persa


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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