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Review 2017: #06 – Always Shine

A confiança posta à prova num thriller que te prende pela empatia com as situações cotidianas


Ah, a amizade… Esta palavra pode significar tantas coisas hoje em dia que chega até ser difícil dissertar sobre. Pode durar anos ou minutos, pode ser física ou somente virtual, mas o que se leva consigo é sempre um ensinamento do que dizer ou agir. Sempre!

O discernimento que cada pessoa possui para considerar uma amizade verdadeira varia entre a boa e má índole, sendo que inevitavelmente pensamos em nós mesmos antes de qualquer outra pessoa. É a natureza humana. Claro, como poderia, em sã consciência, confiar em alguém que mal conhece? O ruim deste ser conhecido como humano é que SIM, isto pode acontecer e não são casos esporádicos. Quantas vezes já se decepcionou com alguém e disse que o considerava um amigo e, ao virar as costas, o sujeito lhe trai a confiança? Flutuando sobre esta analogia de nosso sentimento encontramos Always Shine e sua capacidade de questionar sobre sua própria vida.

Anna (Mackenzie Davis) e Beth (Caitlin FitzGerald), ambas atrizes, são duas amigas que viajam para uma casa nas montanhas de Big Sur a fim de se reconectar depois de tanto tempo sem contato. Uma vez sozinhas, os segredos de cada uma são revelados e a verdade vem à tona sobre o que uma pensa da outra em uma relação tal qual as irmãs Hudson, interpretadas por Bette Davis e Joan Crawford no clássico pshyco-biddy O Que Terá Acontecido com Baby Jane?. A sinceridade é válida em todos os casos, mas será que ela pode ser mortal?

Hã? Como assim?!

Hã? Como assim?!

Inveja, raiva, angústia, medo, soberba, falsidade e tantos outros sentimentos maléficos à qualquer amizade aqui são muito bem explorados pela estreante Sophia Takai e o suspense, taxado por parte da crítica americana como “o thriller do ano (passado)” , pouco a pouco ganha forma, despertando no espectador, inevitavelmente, duas emoções contrárias: empatia e revolta. Como lidar?

Há o contraste das belas tomadas e paisagens com o clima pesado e paranóico, ora vindo de Anna ora de Beth. Ambas as atrizes estão muito bem em seus papeis e a direção de Takai é firme e tem seu propósito: instigar a reflexão. Esta viagem que deveria ser de paz e aproximação começa a caminhar uma linha cada vez mais tênue entre a lógica e o impulso, entre o certo e errado, entre a amizade e a decepção.

Apesar do filme lhe trazer à tona várias interpelações sobre si próprio, a tensão é crescente e você prevê que algo dará ruim , mas que você releva e até ignora por estar imerso na experiência e como a as situações ali apresentadas são levadas para o pessoal. É um duelo desconfortável e te leva a cada frame para a tragédia. O sentimento do pior a acontecer ronda por toda a película.

A crescente atmosfera transmite um falso poder de controle sobre o filme, até você se descobrir vulnerável a partir do momento que, inelutavelmente, toma partido por uma das protagonistas. Este sim é um exercício de autoconhecimento pois você se transporta para a obra e cria uma empatia pela situação ali instaurada, abrindo o leque de opções em como si próprio trabalharia para talvez uma resolução diplomática, educada ou estúpida.

Se tem coragem fala na cara!

Se tem coragem fala na cara!

Pare e pense por um minuto: quantas amizades de infância você cultiva? Quantas pessoas surgiram em sua vida por um simples ‘bom dia’ e permanecem até hoje? E as decepções com o companheiro por não ser correspondido? As brigas, as caras feias, os arrependimentos… Entende-se que a vida, de qualquer maneira, segue seu rumo natural com um mar de sentimentos muitas vezes avessos ao nosso desejo, mas será que amanhã ou depois você olharia para trás e pensaria no que fez errado?

O distanciamento das pessoas – ainda mais em tempo de relacionamentos efêmeros e redes sociais – é cada vez mais nítido, cada vez mais natural, porém, certo males vêm para o bem e se determinada pessoa não faz mais parte de sua vida, enfim, é porque ela não se adequa mais à sua concepção de certo e errado. A certeza de que a vida continua é algo muito mais pertinente.

Always Shine é um filme que te estimula a fazer indagações sobre si próprio de um modo inconsciente e sutil, expondo uma realidade que muitas vezes não queremos enxergar: a falsidade que nos rodeia.

 

5 sorrisos amarelos para Always Shine

Refletindo sobre a vida

Refletindo sobre a vida


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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