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Bibliofobia #20 – Evangelho de Sangue

Menos, Barker, bem menos…


A criação de uma mitologia muitas vezes não é algo proposital. Grandes lendas são derivadas de acontecimentos reais que por não terem sido devidamente registradas, talvez em decorrência da época em que aconteceram, acabam incorporando elementos fantásticos que ultrapassam nossa realidade ordinária. Entretanto, em outros momentos, mitologias inteiras surgem a partir da capacidade que determinados ícones tem de capturar o espírito de sua época – o Zeitgeist. Esses ícones acabam se transformando em arquétipos devido ao poder de incorporarem em si aspectos dominantes ou não da cultura onde estão inseridos. Arquétipos maiores, segundo alguns estudiosos do ramo, são capazes de incorporarem aspectos da natureza humana.

Não é novidade que esses elementos sirvam de inspiração para a criação das artes e o terror não poderia escapar disso. Vampiros, lobisomens e zumbis são alguns dos arquétipos que o terror se apropriou para desenvolver suas narrativas, utilizando-os de veículo para propagar a sua mensagem. Mas, como em toda a arte, às vezes a originalidade se expande para fora dos lugares comuns do gênero e vai além, criando novos ícones e mitologias. Um desses casos é a criatura Pinhead. Originalmente sugerida na obra literária Hellraiser, a mitologia por detrás desse cenobita marcou todo o horror  até o ponto em que dificilmente você encontrará algum assíduo do gênero que desconhece a marcante face repleta de pregos criada por Clive Barker na adaptação cinematográfica do livro. Aliás, até mesmo quem não tem o hábito de assistir filmes ou ler livros de terror já viu o rosto dessa personagem em algum lugar.

Pinhead criou inúmeros entusiastas de sua mitologia (inclusive esse que vos fala)  e passou a compor o panteão maior dos monstros cinematográficos do gênero. Sendo assim, aumenta a demanda por obras com essa criatura Quando isso ocorre, quase nunca conseguimos colher bons frutos. Continuações mal elaboradas do filme que deu origem ao mito e pobres adaptações nos quadrinhos foram feitas, deixando mais fãs da série decepcionados. Entretanto, eu, enquanto fã de Barker e do Cabeça de Espinhos, sempre tive a esperança de ver um desenvolvimento minuciosamente trabalhado. Tanto potencial não podia passar despercebido e tinha de ser aproveitado.

Com essa esperança adormecida dentro do peito, recebi extremamente surpreso o anúncio da DarkSide Books pelo livro que prometia ser a continuação da obra que deu origem a tudo isso. E mais! Essa continuação seria escrita por ninguém menos que o próprio Clive Barker! Um sorriso brotou dos meus lábios e meu coração acelerou em descompasso com expectativa de ter aquela nova oportunidade de desenvolvimento de todo um Universo que foi destratado no decorrer dos anos. Bom, como todos sabem, a expectativa sempre foi e sempre será a maior inimiga da leitura idônea de QUALQUER mídia. E com uma certa tristeza que me proponho aqui a resenhar a obra que tanto me alegrou em seu anúncio e primeiras páginas, mas foi me entristecendo a medida em que eu ia avançando em sua leitura. Hoje, falaremos sobre Evangelho de Sangue.

O livro, em seu BRILHANTE prólogo, nos coloca em uma tumba que está sendo palco do ritual de necromancia. Um grupo de magos se reúne para trazer de volta a vida um antigo conhecido deles para ajudá-los com um sério problema: alguém está matando os maiores magos do mundo e roubando de suas bibliotecas obras raríssimas com conhecimentos poderosos e quase esquecidos. Joseph Ragowski, o homem ressuscitado através dos ritos, informa seus companheiros que um ser vem juntando o conhecimento acumulado que a humanidade já desenvolveu sobre magia e matando todos aqueles que sabiam demais sobre esse mesmo tema. Enquanto ele discorre sobre , sons começam a ser ouvidos do lado de fora da câmara mortuária onde eles se encontram.

Um sino fúnebre soa  e o morto começa a rir dizendo que a criatura os encontrou. O ser é ninguém menos que o Sacerdote do Inferno ou Pinhead, para aqueles que se dispõe a irritá-lo com esse nome indigno. Ele chega até os magos e um massacre se instala. Esse início do livro, dotado de pouco mais que 20 páginas, é repleto de uma escatologia visceral que apenas Barker consegue executar com primazia. Os corpos daqueles que atravessaram o caminho do Sacerdote são destruídos com requintes de crueldade tão bem descritos que é como se fossemos capazes de ver os acontecimentos diante de nós.

Não há pontos negativos nesse início e aqueles que já acompanham Barker há algum tempo serão elevados a níveis extremos de expectativa. Uma sugestão: não o façam. Tudo que é bom, dura pouco e a história prossegue.

No capítulo seguinte somos apresentados a Harry D’Amour, um detetive que tem se relacionado há anos com as forças do sobrenatural e combatendo-as arduamente quando suas nuances malignas insistem em se manifestar na realidade. D’Amour, em seus embates com as forças que se encontram fora do nosso mundo, encontra auxílio da sensitiva Norma, uma senhora cega que é capaz de ver e dialogar com os espíritos. Norma é contatada pelo espírito de um homem que pede a sua ajuda. Ele, em vida, possuía uma residência onde praticava magias e sodomias diversas, sem que sua família soubesse.

Então, com medo de ser descoberto e ter a reputação de seus familiares destruída, esse espírito pede para que Norma atue na destruição dessa casa, que, por sua vez, pede para que D’Amour o faça. Atendendo ao pedido da amiga, o detetive vai até o local e descobre uma pequena biblioteca escondida, cheia de livros antigos e raros. Junto desses fascículos , ele também encontra o item que desencadeia toda a série de acontecimentos que virão: O Artefato de Lemarchand ou a Caixa das Lamentações. E aqui, os problemas começam a surgir.

D’Amour é um velho conhecido de Barker. O detetive participou de vários outros livros do autor, como Livros de Sangue Vol. 6, The Great and Secret Show e Everville. Isso nada afetará a leitura de Evangelhos de Sangue. O autor conta e reconta a história de seu personagem, acrescentando detalhes em sua construção, à medida que os capítulos avançam de uma forma que parece ser a primeira vez que o detetive aparece.

evangelho-de-sangue-darksidebooks-clive-barker-hellraiser-capa-3dSeguindo nossa resenha, um velho clichê do universo do terror é retomado na caracterização dessa personagem: um detetive que perde a sua família e encontra na figura de sua nova parceira de combate contra as forças do mal algo que se aproxima de novo alicerce familiar. Até aí, não existe o menor problema. Clichês estão aí para serem usados da melhor forma possível em prol de um desenvolvimento pleno da narrativa onde eles acontecem. Nesse aspecto, Barker é sempre impecável. A caracterização de seus personagens, por mais que enquadradas em esquemas já consagrados, sempre serve de modo pleno na forma como a narrativa pretende ser contada.

Além disso, Barker acaricia os seus fãs com o surgimento dos Cenobitas que habitaram as telas da versão cinematográfica. Aqueles que viram ao filme, reconhecem de imediato os três torturadores do Inferno que acompanharam o apoteótico nascimento de Pinhead. Esse, por sua vez, também recebe um excepcional aprofundamento enquanto personagem. Ganha ambições e propósitos que permitem a história um prosseguimento pleno.

Lúcifer também está presente na história. O Caído mostra a sua arrogância e poder através de suas realizações. Não basta para ele ter se posto contra Deus. É preciso manifestar o escárnio contra o Ceriador através de suas próprias criações e, em um supremo ato de confronto, criou o Inferno em toda a grandiloquência que apenas uma mente megalomaníaca repleta de ódio e vaidade conseguiria fazer. E é aqui que reside o problema do livro.

Depois de D’Amour adentrar o Inferno, começam inúmeras descrições de como é o local. A complexidade com que Barker trabalhou a estrutura infernal atravessa vários níveis. Desde a arquitetura do lugar até as condições sociais. Os incontáveis detalhamentos feitos para falar do modo em que os azulejos infernais estão dispostos dentro das câmaras de tortura cinzentas ou os modos com que os corpos das criaturas que habitam aquela leitura do submundo começam a supurar após um feitiço ser lançado nas ruas do Inferno enchem os olhos de uma tal forma que não sabemos onde devemos nos concentrar. Uma constante de esquizofrenia atravessa todo a construção da ambientação e do pano de fundo que perpassa o livro.

Espíritos desgarrados procurando paz, demônios usurpadores, estruturas sociais fantásticas, ocultismo, condições em que o Inferno foi criado, crise existencial de VÁRIAS personagens. É MUITA COISA! Simplesmente não é possível degustar das situações vivenciadas com a leitura, porque, no momento seguinte, uma outra vai se sobrepor de modo igualmente intenso e nos tirar a oportunidade de entendermos o que se passou. Vez ou outra brota um conceito interessante no meio dessa orgia, como a ideia de a magia ser um modo da humanidade se aproximar e afrontar Deus, mas essas situações são raras e não fazem com que questões negativas em relação ao enredo sejam minimizadas.

Talvez o grande erro de Clive Barker nesse livro foi tentar fazer com que a narrativa girasse em torno do Inferno ou de seu criador, tornando-a confusa e desnecessariamente complexa. Talvez seja necessária uma segunda leitura da obra para que eu consiga compreender o que de fato Barker estava tentando fazer com esse texto. Talvez ele estivesse tentando criar um espaço para uma nova série literária. Ou talvez EU tenha ido com muitas expectativas ao livro, coisa que, como já disse, sempre acaba sendo frustrante.

Em meus últimos dizeres sobre a obra, afirmo que nem a escatologia inicial nem a destruição visceral de corpos, que tanto foram apontadas por outras resenhas como sendo o ponto forte da obra, nem o excelente desenvolvimento das personagens conseguiram salvar Evangelho de Sangue de ser apenas um livro mediano que não consegue nem chegar perto daquilo que foi seu focado antecessor literário, Hellraiser. Primeira grande decepção deste ano. Esperamos que melhore.

Ficha técnica:

Clive Barker – Evangelho de Sangue

Tradução: Alexandre Callari

Lançamento no Brasil: 2016

Editora DarkSide Books


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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