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Bibliofobia #22 – Ultra Carnem

Sangue do meu sangue, carne da minha carne


Vivemos tempos turbulentos. Cada vez mais, acontecimentos na esfera política nacional tem nos deixado cabisbaixos e com poucos motivos para celebrar nossa “brasilidade”. Entretanto, vez ou outra, algo surge algo para nos deixar orgulhoso de ter em nossas veias esse sangue duro e inventivo. Hoje falarei sobre um desses orgulhos: Ultra Carnem do autor brasileiro César Bravo.

A primeira parte do livro nos contará sobre aquele que se tornará o pivô de todos os acontecimentos malditos que irão percorrer a narrativa: Dom Giordano, padre responsável pelo orfanato de Três Rios, uma pequena cidade do interior, confrontado por uma cigana que deseja deixar em suas mãos a responsabilidade por uma criança que ela diz ser maldita. Um embate interno faz com que ele se questione até o último segundo se deve ou não aceitar aquela proposta, mas a resolução é iminente, uma vez que a cigana que trouxe o menino lhe mostra lustrosas moedas de ouro para comprar sua cooperação.

Giordano aceita abrigar aquela pobre alma que atende pelo nome de Wladimir Lester, que em pouco tempo no orfanato se mostra um exímio pintor. Sua arte, por mais que seja um tanto macabra em algumas obras, também tem potencial gigantesco para mostrar a sacralidade que as palavras do Senhor devem conter e Giordano não pode deixar que dom tão belo seja desperdiçado. Entretanto, os meios pelos quais Lester obteve sua notória habilidade com as tintas será o motivo de grande arrependimento para o padre e a desgraça de todo o orfanato.

Na parte seguinte, as lendas a respeito de antigas obras pintadas por um tal de Wladimir Lester assombram os sonhos de um jovem artista chamado Nôa. Encontrar as obras malditas do tal pintor se torna a obsessão do rapaz e tudo piora assim que ele acha um diário que pertenceu a uma mulher diretamente ligada ao menino-cigano. Por meio deste artefato, Nôa começa a juntar pistas que o leva mais próximo as singulares obras de Lester e a tinta que ele usava para pintá-las. A medida que vai se aproximando de seu objetivo, também vai deixando sua antiga vida para trás e um desconhecido que cruza seu caminho, de modo supostamente acidental, sela o seu destino.

Com a terceira parte, Bravo nos mergulha na mediocridade existencial que é a vida de Marcos Cantão. Técnico de informática em uma cidade minúscula, Cantão divide o seu tempo em fugas diárias das investidas sexuais da esposa obesa e lidar com clientes que pouco podem pagar pelos seus serviços. Mas tudo isso vale a pena, uma vez que assim pode continuar sustentando seu filho,  Randy, um menino portador de deficiência cognitiva. Os dias passam lentos e seus problemas tomam proporções as quais não sabe mais como lidar. Até ter de atender uma chamada em uma misteriosa loja de raridades. Após o conserto do computador defeituoso que lá estava, a dona do estabelecimento diz que não pode pagar o valor que lhe fora cobrado, mas que algo muito melhor será oferecido: um pedido. Um único pedido! Descrente da situação em que foi se enfiar, percebe que não tem mais nada a perder e decide aceitar o que foi proposto. Mal sabia ele que tudo mudaria em sua vida após tal pedido.

cesar-bravo-muito-alem-da-carne-ultra-carnem-darksidebooks-terror-nacional-coverPor fim, a quarta parte termina de costurar o excelente enredo que se compunha aos poucos nas histórias que a precede. Aqui, a garçonete Lucrécia tem a oportunidade de cuspir de volta na cara da vida todo o mal que a torturou constantemente durante sua existência. Em um dia aparentemente comum no restaurante desprezível onde trabalha, dois clientes costumeiros se reúnem mais uma vez para tratar de assuntos escusos. Lucrécia, tomada por uma curiosidade absurda, acaba encontrando meios para escutar tudo o que está sendo discutido entre aqueles estranhos familiares. Uma revolução seguirá e toda a sua história mudará a partir daquele momento. Ela escolherá um lado em uma disputa mais antiga que o próprio homem.

Como um prego que vai sendo lentamente enterrado dentro de uma chaga pútrida, somos levados por uma crescente que, em seu início, já se anuncia sangrenta de formas pouco óbvias. Na medida em que vamos atingindo a proximidade do final, os limites daquilo que Bravo nos permite ver se alargam, ao ponto em que o escatológico e o visceral se tornam parte permanente do cenário da história. Mesmo assim, esses elementos constantes de forte apelo não nos acomoda na leitura da narrativa, uma vez que a inventividade do autor em destruir os corpos de suas personagens se supera a cada virar de página.

Pelas palavras de César, avistamos o Inferno e o seu governante, Lúcifer. O que parece ser uma exposição dos campos infernais, criações auspiciosas da engenhosidade luciferiana, na verdade são um meticuloso mapeamento da condição vivente dos macacos favoritos da criação: detalhistas, brilhantes, ambiciosos e desesperados. Assim é cada inferno já criado por nossas mitologias e assim é nossa natureza. Uma salva de aplausos à César por tornar isso tão claro.

Situações aparentemente caóticas compõe o final da obra de modo organizado e significativo. Mais que isso, demonstra o próprio funcionamento da mente de Lúcifer. Diante de uma situação que fugiu de seu controle, O Caído se vê incapaz e recruta meios para fazer com que sua vontade seja superior à de seu antagonista mor. Ora, essa não é a maior das qualidades humanas? Se sobressair diante das adversidades que a Providência coloca? Lúcifer, como caracterizado em Ultra Carnem, é mais próximo do homem do que qualquer santo jamais será. Suas reações são intrinsecamente mortais.

Sendo um livro que precipita uma investida para dentro da alma humana, Ultra Carnem surpreende pela qualidade de sua escrita e pelo modo excepcional com que as histórias que o compõem estão bem amarradas umas nas outras. A leitura dessa obra vai além da necessidade de se incentivar autores nacionais. Ela deve ser feita para que o próprio gênero cresça como um todo.

Recomendo fortemente.

 

Ficha técnica:

Ultra Carnem

César Bravo

2016

Editora DarkSide Books


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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