Resident-Evil

ESPECIAL RE: O universo de Paul W.S. Anderson e seus zumbis pop

Como adaptações de um survival horror, os Resident Evil são ótimas pancadarias…


O ano de 1996 foi realmente importante para aqueles que hoje estão entre os 25 aos 30 anos. Era uma época muito diferente da vivida hoje em dia, e com certeza menos preocupante. Os famosos consoles de 32 bits se popularizavam e o vindouro PlayStation, lançado dois anos antes no Japão mas que bombou em terras nacionais somente em 96, se tornou febre e a alegria da molecada que começava a trocar os brinquedos pela tecnologia.

Jogos famosíssimos foram alcançando seu lugar no panteão de preferidos da galerinha: Driver, GTA (sim, aquele com a vista de cima e tosco demais), Syphon Filter, Final Fantasy e outros. Porém, um tomou de assalto e se tornou rapidamente o terror da juventude: Resident Evil.

Como nunca visto antes, o primeiro game em modo survival horror inovou em seu prólogo live action e sua tensão logo de cara, sem que você nem sequer tivesse apertado um botão. Puzzles a serem resolvidos, escolhas a serem feitas, correria, tiros pra todos os lados, desespero e muito mais faziam parte deste clássico absoluto do PSX. Além de ter feito você tremer na base, ele abriu alas para outros clássicos como Silent Hill, Dino Crisis, Parasite Eve, Clock Tower e por aí vai. Após ter imortalizado aquela famosa cena do primeiro encontro com um zumbi feio pra chuchu e feito você dar um dos gritos mais espontâneos de sua vida, o mundo dos games nunca mais foi o mesmo. Uma adaptação cinematográfica, mesmo que longínqua, era inevitável, não?

Até 2002 nos deparamos com tantas adaptações execráveis que fica difícil escolher qual a menos pior: Super Mario Bros., Double Dragon, Street Fighter, a dobradinha Mortal Kombat e Lara Croft: Tomb Raider era o que tínhamos e, cá entre nós, nenhuma foi bem recebida pelos fãs. No novo milênio e seis anos após o lançamento de Resident Evil e mais cinco continuações, já era hora para que o casarão sombrio e as criaturas residentes ganhassem uma adaptação digna dos jogos, correto? Errado.

Pronta pra arrebentar!

Pronta pra arrebentar!

Após George A. Romero quase ter conseguido dirigir o filme e com certeza ter-nos dado uma imensa alegria, o hoje chamado rei das adaptações – se você pensou em Uwe Boll, tente de novo – Paul W.S. Anderson, após ter ficado trancafiado em seu flat em Hollywood por três semanas e jogado de trás pra frente os três primeiros Resident Evil, eis que o fruto de sua idolatria e vício deu resultado e sua versão cinematográfica ganhou as telas no dia 15 de março de 2002. Pena que sua visão era levemente baseada no game…

Resident Evil: O Hóspede Maldito (um dia ainda entenderei esse subtítulo que deram aqui no Brasil) contém de tudo: pancadaria, tiro, zumbis, inteligência artificial, agentes badass e tudo o que um filme comercial deve ter MAS Anderson esqueceu o principal: o filme não possui NENHUMA SIMILARIDADE com o jogo. Apenas isso.

Sabe quando Jill, Chris, Wesker e Barry se salvam do ataque de cachorros enfurecidos a pouco e conseguem entrar num casarão, no meio do mato, e a partir daí o jogo começa a tomar rumo com sua revelações pouco a pouco sendo descobertas por você? Pois é, o filme não possui nada disso.

Alice (Milla Jovovich) acorda estirada no chão do banheiro, após uma aparente queda repentina, sem memória e, depois de ser sequestrada por um grupo de agentes especiais da Umbrella para dentro de uma base que está escondida embaixo de sua casa, a ação desenfreada começa e um show de clichês começam a ser despejados em sua cara. Com vários furos de roteiro, um CGI fraco, alguns rostinhos bonitos no elenco – Michelle Rodriguez que acabara de sair de Velozes e Furiosos, por exemplo – e o gore praticamente inexistente (que se fazia necessário para um filme de zumbis, ora bolas!), Paul W.S. Anderson começa um legado que criou e faz nascer os dois extremos da moeda: os fãs automaticamente conquistados com seu filme pela fórmula fácil de entretenimento e os que detestaram sua “livre adaptação do game”, por justamente não ter nada a ver com o telejogo!

Faz o urro!

Faz o urro!

RE é tão impactante justamente pela forma inovadora que te prendia a atenção logo no começo; digo, aquela intro live action da chegada do esquadrão no famigerado casarão e o ataque dos cachorros raivosos fez com que o desespero instaurado ali fosse transmitido para você na lata. Quer algo mais apavorante do que você ser assustado por um jogo e ficar com medo de continuar? Sem saber o que te espera atrás da porta, sem saber quais inimigos aguardam ansiosamente para acabar com sua vida? Pois este é o problema de sua adaptação: a essência do jogo não está presente no filme.

Não há problema nenhum em realizar uma livre adaptação de qualquer mídia que seja, de games a HQs e livros, mas o mínimo que se pede é entender o sentimento que ele transmite e exporta-lo de maneira igual/parecida para seu público. Os fãs da franquia de jogos queixam-se disso até hoje, porém, Anderson foi bem sucedido comercialmente e isso significaria que continuações eram inevitáveis.

Resident Evil 2: Apocalypse chegou aos cinemas dois anos depois, com roteiro de Anderson mas, como já estava comprometido com o Alien vs Predador, deu lugar para a cadeira de diretor para o estreante Alexander Witt. Este filme possui os mesmos defeitos de seu antecessor e que se repetem em todos os outros da série, porém este é dotado de uma infeliz particularidade: os personagens da série de jogos começam a ser inseridos de forma corrida e sem nexo apenas para tentar satisfazer os fãs clássicos e fiéis dos games. Aqui somos apresentados a Jill Valentine (Sienna Guillory), Carlos Oliveira (Oded Fehr), Nicholai Ginovaef (Zack Ward) e o monstrengo Nêmesis (Matthew G. Taylor). Neste também vemos Alice mais badass do que nunca, ao melhor estilo Chuck Norris fazendo tudo o que pode para acabar com os zumbis, incluindo uma moto pular, sair no soco com os monstros, dar umas piruetas de duplo twist carpado no ar e assim vai… O longa começa exatamente de onde o primeiro termina e é baseado no segundo e terceiro jogo, porém, novamente nada se vê a não ser as fórmulas repetidas com exaustão e até um frame tentar repetir a terceira parte dos jogos – quando o zumbi anda em direção a um capacete no chão -. Digo tentar, pois essa cena ficou, como todas as outras envolvendo CGI, bem artificial e sem motivo de estar lá. Apesar de ter como vilão o monstro repetidor caçador de S.T.A.R.S. Nêmesis armado com sua bazuca – ponto positivo para a maquiagem e caracterização idêntica ao do game -, o nome não teve seu subtítulo por há pouco ter saído Star Trek: Nêmesis e os engravatados, inteligentemente, não queriam ligar uma franquia à outra.

Resident Evil 3: A Extinção já nos mostra um mundo pós apocalíptico onde a morte tomou conta de tudo e é o primeiro e único a ser dirigido por um cara experiente no horror: Russel Mulcalhy, o mesmo de Razorback – As Garras do Terror e do cinema de ação e fantástico também, afinal, dirigiu Highlander – O Guerreiro Imortal. Com um visual e cinematografia abertamente influenciada por Mad Max 2 – A Caçada Continua e seus conterrâneos australianos George Miller e Mel Gibson, este aparentemente tem um certo quê de filme mais adulto e liberdade criativa para que o diretor pudesse tentar salvar algo.

Tentou, mas não conseguiu muito, pois mesmo que sua intenção fosse boa, a gigante Sony o segurou um pouco para que continuasse abrangendo um público adolescente. Com um look idealizado pela própria Milla para seu personagem (ela também é designer de moda e tem até uma marca própria), este longa destaca o “nascimento e desenvolvimento” dos poderes mutantes de Alice, mais precisamente a telecinese. A partir do momento em que se vê algo deste tipo numa franquia em que se esforça para ser séria, a casa cai!

Quer dizer, desde a cena presente no primeiro filme em que ela dá uma bica no cachorro, no ar, ao melhor estilo Van Damme e seu roundhouse kick, já não se leva a sério mais nada, mas este aqui realmente consegue superar o nível da criatividade do roteiro e produção. Ah, e ia esquecendo que outra personagem clássica, a Claire Redfield (interpretada pela bela Ali Larter) é incluída na história do nada, como já o fizeram com outros personagens no longa anterior.

Atiro com gosto!

Atiro com gosto!

O escracho chega a seu ápice em Resident Evil 4: Recomeço, onde Paul W.S. Anderson retorna ao posto de diretor, porém, inova na produção. Influenciado por James Cameron em rodar o novo filme em 3D usando a tecnologia Fusion Camera System, criada pelo próprio e usada um ano antes em Avatar, agora os fãs poderiam ver machados, balas, sangue, Alice e todo o resto bem na sua face. Mesmo no ano de 2010 e após o sucesso de Avatar, este peca no CGI e em alguns momentos ficam nítidos os pontos superficiais dos cenários. Apesar de não ser bom, Anderson sabe como agradar os fãs e usa e abusa das fórmulas dos filmes de ação, fazendo aquelas belíssimas poses do mocinho quando finalmente derrota seu oponente. Talvez em 3D e com a premissa de que é um filme divertido, você possa se entreter com ele, muito por conta da mão de Anderson saber montar cenas de ação contínuas.

O último lançado, Resident Evil 5: Retribuição, é talvez o mais sério de todos. Digo isso por estabelecer uma relação sci-fi e ação entre o enredo: como sempre, Alice acorda no meio do nada e começa a ser torturada por Jill (papel reprisado por Sienna Guillory), por sua vez controlada pela Umbrella, mas auxiliada por Ada Wong (Li Bingbing), Leon S. Kennedy (Johann Urb) e Wesker (novamente vivido por Shawn Roberts) tenta sua fuga da base de experimentos da empresa do guarda-chuva e, por fim, salvar o que resta da humanidade.

É legal ver os cenários ali montados, uma vez que a Umbrella poderia reproduzir qualquer cidade ou condição climática auxiliada pela tecnologia. Além dos personagens introduzidos, também conhecemos Barry (Kevin Durand) e a volta de Michelle Rodriguez e Oded Fehr como tenente Rain e Carlos, respectivamente. Paul W.S. Anderson queria trazê-los de volta à franquia, mais como uma homenagem, e achou um meio certo de o fazê-lo: clones, claro! Filmado de trás pra frente em conjunto com o RE 4: A Extinção, Anderson resolveu focar primeiro no filme antecessor e logo em seguida em Retribuição, deixando-o com um final aberto (sempre) para que o capítulo final (será?!) finalize, que estreia nesta semana, uma das sagas mais lucrativas do cinema.

(l to r) Ali Larter, Wentworth Miller and Milla Jovovich star in Screen Gems' action horror RESIDENT EVIL: AFTERLIFE.

Pose pra foto: xiiiis!

Anderson criou um mundo próprio com seus filmes e foi muito bem sucedido pois deu ao que o público o que está habituado a ver: pancadaria, tiros, ação desenfreada e alguns zumbis aqui ou acolá. Esta criação vai desde a personagem Alice, que foi baseada no personagem título de Alice no País das Maravilhas e que nunca nem sequer figurou algum papel nos games, até a inclusão de todos os personagens clássicos inseridos às pressas apenas pela pressão dos fãs mais assíduos dos games, no intuito de tentar melhorar a qualidade da cinessérie.

Pense que os cachorros, os lickers, Leon, Jill, Ada, Barry e outros estão ali apenas porque os fãs pediram! Em certa entrevista Anderson disse que “imploravam” para colocá-los e, com o intuito de agradá-los , ele colocava. Ponto mais que positivo também para o diretor que conheceu Milla Jovovich nas filmagens e mais tarde se casaram, união esta que poderia nunca ter acontecido caso Gwyneth Paltrow aceitasse o papel principal.

Ponto positivo também é para a trilha sonora característica do primeiro filme e que se renova a cada incursão cinematográfica , dando mais clima de ação do que terror (trilha sonora esta também presente no nosso ESPECIAL RE e que pode conhecer mais aqui).

Resultado da errática franquia: a série entrou para o Guinness Book com o maior número filmes live action baseado em games, bem como a mais rentável somando quase 1 bilhão de dólares ao redor do mundo, isso sem contar as duas animações longa metragens (Resident Evil: Degeneração e Resident Evil: Condenação), com produções japonesas, e que os fãs (e eu também!) julgam muito melhores do que o universo fantasioso de Anderson. Fazer o quê…

Para todos os fãs do horror, essa cinessérie não possui a essência de que o game de 1996 tinha. O calafrio que você sentiu ao jogá-lo e desvendar todos os segredos para descobrir a falcatrua da Umbrella definitivamente não está presente em nenhum dos filmes que mais parecem de guerra humanos X zumbis do que qualquer outra coisa surgida num universo do cinema de ação pós-Matrix. Porém a Capcom afirma que “a essência criada nos jogos está efetivamente presente na franquia toda”. Vai entender…

Corre que o zumbi vem aí!

Corre que o zumbi vem aí!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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