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Bibliofobia #23 – Cujo

De longe, uma das histórias mais aflitivas contadas por King


Muitos livros do escritor americano Stephen King se encontram esgotados nas prateleiras brasileiras há muitos anos. Essas obras, em sua maioria publicadas na década de oitenta, só eram encontradas a venda em poucos sebos ou em coleções particulares. Em janeiro do ano passado, essa situação mudou um pouco de figura quando a Suma de Letras, editora responsável por publicar as obras do ganhador do Troféu Golden do Hall da Fama, anunciou que havia adquirido os direitos de publicação de alguns desses títulos mais raros. O projeto, batizado de Biblioteca Stephen King, já chegou com os dois pés na porta: logo de cara, o primeiro título lançado foi Cujo.

Stephen King escreveu Cujo loucão de drogas e, segundo ele mesmo conta no livro Sobre A Escrita, foi um dos períodos mais nebulosos de sua, hã, extensa carreira. Ele mal se lembra de tê-la escrito, pra você ter uma ideia. Aqui no Brasil foi lançado como Cão Raivoso (NE: MAS QUE TÍTULO SENSACIONAL!!!) pela Editora Record e só teve uma única edição, o que fez com que os livros fossem esgotados e esses poucos exemplares disponíveis fossem comercializados por valores absurdos. Item de colecionador mesmo.

Pra não desapontar os fãs, acap Suma de Letras considerou dois pontos importantes nessa edição: a primeira foi a decisão de manter o título original (já que Cão Raivoso faziam muitos fãs torcerem o nariz, pra mim, particularmente, era indiferente) e a segunda foi a qualidade do material impresso, com sua capa dura e ilustração em baixo relevo. O livro também conta com uma entrevista muito bacana com o autor para a revista “The Paris Review” em 2006, onde conta um pouco sobre suas obras e detalhes do período nebuloso que viveu naquela época.

A história não deixa a desejar e é, de longe, uma das mais aflitivas contadas por King. Vic e Donna Trenton estão passando por uma turbulência no casamento, que envolvem não só uma traição (por parte de Donna) como também um escândalo no trabalho que pode resultar numa crise financeira familiar (por parte de Vic). Além disso, o filho do casal, Tadder, de quatro anos, é constantemente assombrado por um monstro que vive em seu closet, á espreita. Seus pais acreditam que boa parte desses supostos pesadelos de Tad são ocasionados pela recente aparição de um serial killer na pequena cidade de Castle Rock, que virou manchete nos jornais e assunto nos arredores por fazer muitas vítimas antes de se suicidar (quem leu o livro Zona Morta, ou viu a adaptação do diretor David Cronenberg vai sacar a referência).

Paralelo a isso, temos o ponto de vista da estrela do livro. Sim, vemos como é o dia a dia de Cujo, um simpático e dócil são bernardo antes de ser mordido por um morcego e infectado com o vírus da raiva. Vemos aquele que outrora era o mascote de uma família simples, vivendo num sítio afastado da cidade, se transformar numa máquina de morte irracional sedenta por sangue, e o pior: alguns trechos da história são narrados pelo próprio POV de Cujo. É desolador notar que o próprio bicho sente essa transformação mas não entende o porquê. Ele só sente dor, desconforto e uma vontade incontrolável de atacar quem quer que seja, até mesmo sua família (chamados por Cujo de o HOMEM, a MULHER e o MENINO) a quem ele sempre teve total lealdade e devoção.

Resumidamente, Stephen King coloca Donna e o pequeno Tad dentro de um carro quebrado, isolados, com fome, sede e calor, tendo que confrontar diretamente um animal de noventa quilos de pura fúria, que está apenas esperando uma brecha para atacá-los, sempre atento a qualquer movimentação dentro do carro, personificando o monstro imaginário do garotinho numa situação completamente plausível, que pode acontecer com qualquer um, em trechos de tirar o fôlego tamanha a tensão. Quem já assistiu a sua versão cinematográfica dirigida por Lewis Teague sabe do que estou falando.

Não vou contar muito sobre a história para não estragar a experiência que Cujo nos proporciona, porque até mesmo se você já viu a adaptação para os cinemas vai se surpreender e muito com o o desfecho. É como uma mordida de um cachorro raivoso: dói bastante na hora, e ainda vai te deixar com um gosto amargo na boca por vários dias.

Ficha técnica:

Stephen King – Cujo – 1981

Tradução: Michel Teixeira

Lançamento no Brasil – 2016

Editora Objetiva – Suma de Letras

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Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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