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Além do fundo do poço: As inspirações de O Chamado

Lendas e Casos reais foram a fonte de Kôji Suzkiki na criação de Sadako


Samara voltou e O Chamado 3 está aí nos cinemas, quer você se revolte e brade a sete ventos, ou não. Uma vez que nada se cria e tudo se copia decidimos investigar quais teriam sido as inspirações utilizadas para a criação da série O Chamado e ficamos surpreendidos com os resultados da pesquisa que mostraram existir muito mais por debaixo dessa história do que o fundo do poço.

Os casos reais

Algo pouco sabido pelos fãs de O Chamado é que a série é, na verdade, baseada não só em lendas como também em um acontecimento real! Ring – O Chamado, a versão japonesa que deu origem a agora trilogia americana, teve sua história retirada de um livro homônimo escrito por Kôji Suzuki, conhecido por aquelas bandas como o “Stephen King nipônico”. Na criação da personagem Shizuko Taumemama, Suzuki buscou inspiração no caso real de Mifudi Chizuki.

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Nascida em Kumamoto Prefecture, Mifune alegava ter desenvolvido poderes paranormais aos 24 anos por meio de exercícios de respiração e meditação. Seu caso ficou famoso e chegou aos ouvidos do Dr. Tomokichi Fukurai. Fukurai era professor assistente de psicologia na Universidade de Tóquio. Apesar de ser duramente criticado por seus colegas de profissão, Fukurai era um notório pesquisador da parapsicologia e estava convencido de que Mifune era de fato dotada de poderes paranormais. Entretanto, após alguns testes, foi revelado que tudo não passava de puro charlatanismo da mulher. Um ano após o acontecimento, Mifune entrou em profunda depressão e cometeu suicídio aos 25 anos.

Um ano antes de sua morte, também existiu o caso de Takahashi Sadako, uma mulher que supostamente possuía poderes de marcar rolos de filmes ou a mente das pessoas com as imagens que ela desejasse. Essa habilidade também é chamada de Nensha. Esse tipo de atividade foi documentada pela primeira vez em 1896 no livro The New Photography de Arthur Brunel Chatwood. Nessa obra, Chatwood descreve experiências onde “imagens de objetos na retina humana poderiam afetá-la de tal forma que fotografia poderia ser produzida através de uma superfície sensível”.

Caractere chinês supostamente queimado em filme pela mente de Takahashi

Caractere chinês supostamente queimado em filme pela mente de Takahashi

As lendas

Além dos assustadores casos citados acima, O Chamado também conta com a gigantesca influência da mitologia e religião japonesa, especificamente das lendas que tratam das yuurei. Esses seres espirituais são análogos aos fantasmas da cultura ocidental. Entre as características que acompanham essas criaturas temos os longos cabelos negros e roupas brancas, que fazem referências aos quimonos utilizados pelos mortos no dia de seus funerais. Parece familiar?  Mas, mais do que qualquer outra, a lenda de “Banchō Sarayashiki, Okiku e os Pratos” surge como aquela que salta aos olhos quando falamos de semelhanças com a história de Sadako e sua contraparte yankee, Samara… Mas deixemos as especulações de lado e vamos a lenda em si:

Banchō Sarayashiki, Okiku e os Pratos

Houvera uma vez, há muito tempo, uma linda garota chamada Okiku. Okiku trabalhava como serva no castelo Himeji e na casa de um samurai. Seu lorde era um homem de temperamento difícil e propenso a ações violentas.Ele também era profundamente apaixonado pela menina. Frequentemente, ele avançava de modo lascivo em direção a Okiku, embora ela nunca retornasse suas investidas. De tempos em tempos, ela declinava as propostas feitas pelo homem, recusando-se a se casar ou a se deitar com ele. E assim foi, até que o lorde criou um plano que forçaria Okiku a aceitar suas ofertas.

Okiku fora incumbida de cuidar de dez preciosos pratos. Cada um deles era um tesouro de valor inestimável, tendo que ser cuidado com a maior das atenções. Era obrigação de Okiku contar e embrulhar cada prato cuidadosamente, guardando-os um por um em caixas lacradas, que seriam transportadas de volta para um local seguro. Após terminar esse serviço, Okiku voltou para a casa principal, onde prosseguiu com suas outras obrigações.Foi quando o lorde adentrou a sala onde as caixas repousavam, abrindo uma delas e retirando um, fechando e lacrando com cuidado para que não houvesse nenhuma suspeita. Em posse do prato, ele o levou para o seu quarto e lá o escondeu. Vários dias se passaram até que fossem novamente retirados das caixas. Foi então que a ausência de um deles foi percebida. Okiku, que havia sido a última serva a manuseá-los, foi logo chamada. A responsável pelas criadas explicou para ela o que estava acontecendo: um dos pratos havia desaparecido.

Perder ou quebrar um tesouro desses não era algo trivial. Se fosse responsabilizada, Okiku deveria pagar com a vida. Em histeria, a menina avançou em disparada até onde as caixas que continham os pratos estavam. Ela abriu cada uma das caixas, correndo seus dedos em desespero por todos pratos.“Um…dois…três…quatro…cinco…seis…sete…oito…nove… NOVE! Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove… não pode ser!” falou Okuki desacreditada enquanto contava os pratos mais e mais vezes. Apenas nove pratos haviam sido encontrados. Okiku não tinha escolha além de ir até o seu lorde. Ainda chorando, quase incapaz de se aguentar em pé, ela confessou ao lorde que um dos pratos estava sumido e que ela era culpada, uma vez que foi a última a manusear aquele tesouro.

O lorde explicou para a menina o quão grave era a situação. A punição era a morte. Okiku vacilante, consentiu em um silêncio desesperador. Foi quando ele veio falar com a menina, tentando tranquiliza-la. Ele poderia fazer com que toda aquela terrível situação se fosse, sem que ninguém o questionasse. Bastava Okiku aceitar se tornar a sua amante. Ainda que em choque, Okiku buscava manter o máximo de sua calma. E, mais uma vez, ela recusou a proposta. O lorde, explodindo em ódio, pegou a sua espada e matou Okiku, atirando o corpo sem vida da menina para dentro de um poço após o assassinato.

Naquele momento, algo estranho começou a acontecer no fundo do poço. Enquanto o lorde limpava o sangue de sua espada, ele começou a escutar algo bizarro. Um gotejamento que se movia gentilmente para longe era ouvido, ecoando em conjunto com uma voz suave, mas repleta de malícia, que vinha das profundezas.

“Um…”

“Dois…”

“Três…”

“Quatro…”

“Cinco…”

“Seis…”

“Sete…”

“Oito…”

“Nove…”

Houve uma pausa e silêncio! O som vinha do fundo do poço? Aquele barulho atravessava as entranhas do lorde, saltando ao redor de sua cabeça, ressoando por todo o seu corpo. Um grito desesperador surgiu no lugar do “Dez”. Não havia dez, apenas o grito. Ele se virou e viu. Surgindo de dentro do poço uma monstruosidade espiritual, uma onryõ. Sim, era o espírito da menina! Em vida, passiva e indefesa, na morte, violenta e implacável, aos moldes que estamos acostumados dos espíritos rancorosos do j-horror. Ela havia se tornado um espectro em busca de vingança. Okiku se ergueu da escuridão do poço, olhando diretamente para os olhos do lorde, que estavam repletos de medo.

“Um…dois…três…quatro…cinco…seis…sete…oito…nove…”

Bom, dá pra sacar o que aconteceu com o sujeito. Especula-se também que a lenda de Oiwa também teria influenciado a estética da antagonista da série, tendo herdado dela características de seu visual. Mas o que fica é que, de fato, Ringu tem por detrás de si um enorme trabalho cultural que agrega a ela um peso significativo em termos artísticos, para aqueles que ainda tem preconceito a respeito dos filmes de terror e o julgam um gênero pobre e marginalizado.

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Fontes:

Sadako’s Secrets: Explaing “Ringu” at the Asian Art Museon – http://www.jetaanc.org/ringu/

Chizuke Mifune – https://en.wikipedia.org/wiki/Chizuko_Mifune

Yurei – https://en.wikipedia.org/wiki/Y%C5%ABrei

Bancho Sarayashiki – https://en.wikipedia.org/wiki/Banch%C5%8D_Sarayashiki

Thoughtography- https://en.wikipedia.org/wiki/Thoughtography

Japonese Legend, Bancho Sarayashiki Okiku and the Plates – http://indo-engstories.blogspot.com.br/2013/04/japanese-legend-bancho-sarayashiki.html


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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