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Review 2017: #11 – Sadako vs Kayako

Os fantasmas se envergonham


O final dos anos 90 até meados dos anos 2000 foram, com certeza, os mais prolíficos para o cinema asiático. Ótimos filmes eram lançados, desde thrillers até voodoos, mas os que se destacaram com toda a certeza foram os j-horrors com a temática de espíritos, maldições e lendas urbanas.

Neste cenário eu poderia escrever durante muito tempo e citar ótimos filmes, porém, aqueles que com certeza fizeram você se borrar todo durante a noite e mexeram com o imaginário mundial foram os ótimos Ring – O Chamado e Ju-On – O Grito. Os dois se tornaram clássicos instantâneos e ganharam inevitáveis remakes americanos até de qualidade acima do normal, mas criar um clima que só os nipônicos conseguem é quase impossível, tendo em vista que o folclore e as religiões do Japão sempre exploraram muito bem esta questão espírita.

Após O Chamado ter rendido outros cinco filmes – entre sequências e prequelas – e O Grito os numerosos sete filmes subsequentes, isso sem contar os remakes de ambos, e apesar das histórias não ter nada a ver uma com a outra, o inimaginável, o inconcebível, o inacreditável e o insólito se tornou realidade: as moças cabeludas protagonistas fantasmagóricas de suas franquias ganharam um crossover chamado Sadako vs Kayako.

Que medo desse filme!

Que medo desse filme!

Quando li a respeito, sem nem ao menos ver seu trailer, pensei logo em Freddy vs Jason e se o embate entre ambas as cabeludas seria igual, ao melhor estilo escrachado e trash. Você até consegue imaginar os personas clássicos dos slashers americanos numa luta de garras e faca, mas como fazer dar certo uma luta entre dois espíritos enfurecidos e que não possuem nada em comum, tirando seu cabelo escorrido negro sobre o rosto?

A resposta é que, realmente, não dá certo! A começar pelo plot: após uma assistente social ter encontrado o corpo de uma senhora em sua casa e ficar evidente que ela assistiu a derradeira fita de Sadako, seus pertences são postos à venda num sebo. Eis que uma dupla de amigas (Mizuki Yamamoto e Aimi Satsukawa) compram um videocassete para que passem uma fita antiga de casamento para um DVD e dentro do aparelho está a danada da filmagem amaldiçoada. Você imagina que elas irão ver a parada e começam uma corrida contra o tempo para salvarem suas vidas pois, agora, o espírito vingador só te dá dois dias de vida (esse imediatismo do mundo de hoje, sabe como é?). Aí você me pergunta:, onde está a Kayako?

Esse foi o questionamento que me fiz por durante uma hora de filme. A não ser pela pífia ligação de que uma moça aleatória se muda para uma casa ao lado de onde ocorreu o brutal assassinato e desencadeou a ira do gato, Toshio e cia, o filme segue uma linha de raciocínio toda ilógica e acelerada onde, em seus últimos 30 minutos, começam a explorar melhor o espírito de Kayako e, aí sim, tentar te preparar para o embate final entre ambas as fantasmas.

Corta só as pontas, por favor

Corta só as pontas, por favor

O longa de Kôji Shiraishi (Noroi, Grotesque) beira o ridículo quando você conhece o professor Morishige (Masahiro Komoto), aficionado pela lenda da fita e que deseja de todo o seu âmago ver Sadako. Na melhor cena do filme, o que não é muito, o professor acompanhado das duas moças que lhe pedem pinico pra se livrarem da maldição, vão ao encontro de uma curandeira aka exorcista para tentar tirar o encosto, mas tudo acaba bem mal. É aí que o negócio descamba pro ridículo: você é apresentado a Keizo (Masanobu Ando), um adolescente, e Tamao (Mai Kikuchi), uma menininha cega e sensitiva, que ao melhor estilo detetives do além, são tachados como especialistas e chamados para tentar reverter o mal imposto às miguxas. Se você quer mais, espere para ver as habilidades de Keizo com seus laços imaginários para tirar o mau olhado das pessoas, ou tacando uma pedra invisível para espantar Toshio dentro da casa amaldiçoada. Como em Chapolin, talvez só os espertos podem ver, né…

Falar em como as fantasmas se encontram seria dar um spoiler tão grande que é melhor nem comentar sobre, porém te digo que é a partir de uma idéia bem cafajeste e estúpida que a “dupla dinâmica especialista em eventos paranormais” têm para acabar com ambas as ameaças. Bem sem o menor sentido esse pretexto de fazer as cabeludas saírem no tapa.

Era lógico que Sadako vs Kayako não daria certo, tanto pelas histórias que não possuem nenhuma ligação ou característica para que justificasse o crossover ou pelo simples fato de que uma luta entre as moças mortas enfurecidas seria no mínimo inusitado. A proposta do filme em tentar ser sério com pequenas doses de humor sem graça vai por água abaixo por dois principais motivos: pelo roteiro muito mal elaborado em ter deixado uma das personagens-título praticamente de fora do longa por mais da metade do filme e por não se decidir em ser efetivamente um escracho que pudesse no mínimo te divertir.

Dica para quem gosta de J-Horror: fique com os filmes originais e passe longe de Sadako vs Kayako que não tem nada a te oferecer, a não ser o seu desprezo pelo mesmo.

1,5 fio de cabelo para Sadako vs Kayako

Deixa eu descer logo pra ver essa bomba!

Deixa eu descer logo pra ver essa bomba!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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