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Review 2017: #12 – A Cura

Espetáculo visual impressionante de Gore Verbinski é um desbunde, mas tem lá seus (muitos) poréns


Vai por mim: esqueça quase tudo que você viu por aí nos trailers e materiais promocionais de A Cura, a volta ao terror de Gore Verbinski, o diretor de O Chamado, depois de suas aventuras em mega produções com Johnny Depp dos últimos anos. Principalmente a forma com que ele vem sendo vendido.

Ao ir aos cinemas ver a estreia dessa semana (e você TEM QUE VÊ-LO em uma tela grande, a maior e com melhor qualidade de imagem e som que você conseguir), tenha em mente que você vai assistir a um espetáculo audiovisual e técnico dos mais impressionantes, de tirar o fôlego, direção impecável com toda uma excelente construção de atmosfera, uma fotografia belíssima de Bojan Bazelli (que também é o mesmo de O Chamado), edição de som incrível e design de produção ímpar. Tudo em prol de um suspense intrigante que prende a atenção do espectador, mesclado com uma série de imagens oníricas bizarras e perturbadoras.

UAU, FILMAÇO, certo? Bom, maomeno…

Não quero criar falsas expectativas, então é bom dar letra que a metragem é MUITO longa (são 2h26 de filme), que começa fluída, vai toda trabalhada num processo de slow burning mas que acaba se arrastando demais, o roteiro é cheio de poréns e furos, sendo que alguns elementos parecem jogados ali apenas para cumprir algum protocolo, e um terceiro ato canhestro, didático e previsível, que destoa completamente do resto, que, bem, parece ter lá dedo podre do estúdio e pode te deixar frustrado pacas.

Dane DeHaan (que está muito bem, diga-se de passagem) é Lockhart, um ambicioso e inescrupuloso jovem executivo de uma empresa de finanças de Wall Street que se vê em uma delicada posição quando a mesa diretora descobre algumas falcatruas no fechamento de um contrato que trouxe um importante cliente e pavimentou sua ascensão meteórica dentro da firma. Em troca de não entregá-lo para o LEÃO, ele é enviado para um spa lindíssimo nos Alpes suíços para encontrar e trazer de volta o CEO da companhia que foi para lá tirar umas férias idílicas e relaxantes de duas semanas, mas nunca mais voltou. O sujeito mandou uma carta toda enigmática dizendo que estava doente e lá encontrou a cura, abdicando de sua antiga vida capitalista. Isso iria atrapalhar uma vindoura fusão que precisa da assinatura do manda-chuva, que claramente parece ter ficado biruta.

Todos eles flutuam aqui

Todos eles flutuam aqui

O que seria essa “doença”? Segundo explicação do diretor do spa, o Dr. Volmer (Jason Isaacs), é o capitalismo voraz, a ambição, a ganância sem limites morais (todos os idosos internados ali são podres de ricos com ex-cargos de liderança em empresas multinacionais). A “cura” seria se desligar desse mundo mesquinho e material, passando seus dias em um local ermo na montanha, construído em cima de um aquífero com propriedades medicinais. Mas que tem lá sua história sinistrona.

Há 300 anos um barão louco ficou obcecado pela pureza de sua linhagem e por isso, a única opção era gerar seu rebento com sua irmã, algo desaprovado pela Igreja na época, que o fez renegar a instituição. Isso revoltou os aldeões que viviam na vila sob a sombra do castelo no alto da colina, que invadiram o local com suas tochas e forcados, atearam fogo na moça e destruíram o local, consumido em chamas.

Lockhart (que tem lá seus próprios demônios familiares) sofre um acidente de carro (em uma cena ABSURDA quando um veado sai da vegetação e se choca com o veículo), ficando ferido e com a perna engessada, confinado no spa sob os tratamentos do Dr. Volmer (enfiado até em uma câmera de privação de sentidos, ao melhor estilo John C. Lilly). Não vai demorar para ele descobrir que há algo de muito estranho acontecendo por aquelas bandas (sempre relacionado a água e… enguias!) e conhece uma jovem chamada Hannah (Mia Goth), considerada pelo chefão do sanatório como seu “caso mais especial”. Durante sua investigação sobre o que a foda está acontecendo ali (descobrindo inclusive diversas teorias sobre o que de fato aconteceu com o barão e sua irmã e quais eram suas verdadeiras intenções) sua própria sanidade passa a ser questionada quando ele é diagnosticado pela mesma “doença” dos demais ali internados.

Não dá para falar muito mais sem entrar no campo dos SPOILERS, mas o longa causa uma sensação de estranheza e desconforto durante todo seu desenrolar, numa explosão sinestésica, alternano o contraste de um mundo moderno e sombrio lá fora com a assepsia do interior do spa e seus diversos elementos retrôs, principalmente de maquinário médico e científico, e também arquitetura e figurino, dando a clara impressão de um local deslocado no tempo e espaço.

Lugares incríveis para usar como banheiro

Lugares incríveis para usar como banheiro

Se feito há 50 anos, A Cura poderia muito bem ter sido um filme da Hammer Studios, um gótico italiano dirigido por Mario Bava ou Antonio Margheriti, ou mesmo, alguma produção da American International Pictures que teria Vincent Price no papel de vilão. O longa de Verbinski, tirando sua aura de bizarrice, a imensa capacidade técnica e sequências tétricas de pessoas flutuando em tanques, enguias saindo de banheiras e alucinações tipo Viagens Alucinantes, de Ken Russell, tem um plot que se assemelha muito aos filmes de terror daquele período, com todo um aparato gótico misturado com o bom e velho conceito do mocinho preso em um local estranho – um castelo no alto de uma montanha íngreme ladeada por uma floresta e uma aldeia em sua base, comandado por um doutor com a pegada clássica do cientista louco – cercado de pessoas estranhas com intenções escusas, tentando descobrir o que está rolando e uma donzela em perigo no meio. Só que MUITO mais estilizado, com mais dinheiro e contando com recursos atuais.

Porém o roteiro escrito por Justin Haythe, é repleto de pontas soltas e certo momento da metade para frente vai se tornando repetitivo e um tanto quanto óbvio, até estourar em seu plot twist bem previsível mas que destoa completamente de todo resto da construção do filme (e mais uma vez, a forma como veio sendo vendido), que só faz sentido dentro dessa proposta neo-gótica. Tipo A Colina Escarlate, também visualmente fantástico, mas padece do mesmo problema em sua conclusão.

Mas em nenhum momento você vai dizer que A Cura não tem um senso estético FODA e um senhor trabalho de direção e cinematografia. Algumas tomadas, como a já emblemática cena do trem de lateral espelhada refletindo a vegetação dos Alpes e um outro plano em que a sala do diretor é vista pelo POV do olho da cabeça empalhada de um cervo na parede, é simplesmente de cair o queixo, só para ficar em dois exemplos de inúmeros.

A Cura é um bom filme? Sim, mas nada espectacular. Merece ser visto? Sim, mas com ressalvas. Definitivamente não é para o grande público (principalmente por aqueles que vão assistir pelo trailer e spots de televisão que alardeiam ser “do mesmo diretor de O Chamado”). Você precisa estar no mood certo, ciente de seu final questionável (que pode ser muito difícil de defender, verdade seja dita) e principalmente, ter uma ótima experiência na sala de cinema, que vai da qualidade de exibição até o silêncio do público presente, pois o clima conta muito para a imersão na trama e apreciação desse espetáculo imagético que é um verdadeiro desbunde.

 

4 vitaminas para A Cura

Moiô!

Moiô!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. Claudio Martins disse:

    Retorna em 2017 da HQ de terror DYLAN DOG, vencedora de 2 hq mix de melhor hq de terror ..poderiam fazer uma materia …Dylan dog é muito bom.

  2. João Lucss disse:

    Estou ansioso pra ver esse filme no cinema mesmo depois da resenha. Me arrependi de ter trocado o chamado 3 por ele

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