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Bibliofobia #24 – Psicose

Id, Ego e Superego de Norman Bates


Em 1961 chegou às telas brasileiras o filme que seria uma das maiores referências em termos de cinematografia e que mudou o cinema para sempre. Psicose tornou-se um clássico instantâneo. Com seus cortes de filmagens precisos e sua trilha sonora angustiante, além de subverter completamente o status quo da ordem narrativa na metade da projeção, Hitchcock mostrou como o poder da sugestão transforma o terror em algo vívido. Entretanto, devemos a grandiosidade dessa obra à inspiração de um excepcional autor literário. Robert Bloch, responsável pelo livro homônimo que deu origem ao filme, captou em seu trabalho aspectos da mente humana já identificados pelo pai da psicanálise, Freud. Isso deu um gigantesco peso ao seu texto, tornando-o canônico não só para o gênero do suspense e horror mas também para literatura como um todo.       

Relançado recentemente pela editora DarkSide com seu famoso tratamento gráfico de primeira linha, a narrativa irá nos apresentar a Norman Bates, um homem de meia-idade que passa seus dias, junto de sua mãe, trabalhando em um motel à beira da estrada. Sem nunca ter saído debaixo das asas de sua genitora opressora, Norman vive se escondendo atrás das páginas de seus livros e dos corpos dos animais que empalha por hobbie.

Temos o gatilho de ação disparado quando a jovem Marion Crane se hospeda no motel. Marion acabara de dar uma guinada em sua vida ao roubar de seu antigo patrão quarenta mil dólares. Com esse dinheiro, ela decide viajar ao encontro de seu noivo para quitar as dívidas que ele possui. Sam, o noivo, nada sabe sobre isso. A vida da jovem, que tinha tudo para ser feliz quando estivesse nos braços de seu amor é completamente modificada no momento em que se encontra com os Bates.

113983040_1GGDias após o desaparecimento de Marion, sua irmã Lily parte em busca de algumas respostas sobre o paradeiro dela. Após encontrar Sam, Lily descobre que ele não a via já fazia algum tempo. A ansiedade decorrida desta descoberta aumenta ainda mais quando um detetive contratado pelo antigo patrão de sua irmã surge e conta sobre o roubo. Mil suspeitas são levantadas, mas não passam de especulações até que o dinheiro seja encontrado. Seguindo uma série de pistas, o detetive, por fim, chega ao motel dos Bates onde acredita que ter encontrado um rastro importante para a sua investigação. Mal sabia ele que também estava fadado ao mesmo destino de sua suspeita.          

A relação conturbada entre os Bates mostra o caráter dominador por parte da progenitora logo em suas primeiras aparições. Essa mulher se mostra autoritária e insensível a tal ponto que seu filho chega questionar a sanidade dela. Entretanto, em seus diálogos internos, Norman briga consigo mesmo defendendo sua mãe diante das acusações de loucura que lhe são feitas. Esse ato nos parece uma busca do personagem em manter de sua própria integridade psíquica. Concluir que a mãe é louca ou não tem controle de suas ações seria para Norman o mesmo que alegar sua própria falta de senso, algo aparentemente inaceitável para o sensível sujeito.

O motel e a casa que está construída aos fundos também parecem assumir um importante papel na caracterização de Norman. Os aspectos mais aceitáveis da vida dele seriam representados pelo motel – local de negócios, onde um homem de respeito que luta constantemente pela manutenção da honra de sua família e que vez ou outra precisa de um trago para poder se manter são. Os aspectos mais infantis de Norman se mostram na casa onde passa as noites. Lá, a criança interior pode manter viva sua curiosidade sobre o mundo quando está diante dos livros. Ainda em casa, o porão e o sótão abrigam o monstro que existe dentro daquele ser. Em um desses locais, empalha animais e estuda sobre os segredos da magia e do ocultismo, buscando questionar os limites da vida e da morte. No outro, procura desesperadamente esconder seu maior segredo que repousa em terríveis acontecimentos da vida de sua mãe.       

O modo como a história é narrada em terceira pessoa nos aproxima muito da mente de Norman. A contraposição constante de pensamentos parece mostrar a incapacidade da personagem em manter uma linha de raciocínio constante. O ir e vir de assertivas sobre a condição mental da mãe dele e como ele deveria agir diante disso faz com que a prosa soe desesperadora do ponto de vista de Norman. Ele não sabe o que quer – se a liberdade e o distanciamento de sua progenitora ou a proteção de um lar partido. O mundo se mostra aterrorizante para ele, deixando-o confuso e intimidado.

Outro aspecto que deve ser ressaltado sobre o trabalho de Bloch nesse livro é o modo como ele dardeja de um foco narrativo para o outro na transição dos capítulos. Em um momento, estamos imersos na intrincada investigação de Sam e Lily que nada revela e os desespera. No outro, vemos como aquilo que eles tanto temiam de fato ocorreu. Esse movimento torna a leitura fluída e capaz de levar a curiosidade do leitor a níveis impossíveis de serem lidados. Psicose é uma obra escrita para se ler em um único fôlego para que não se perder essa urgência que surge em se chegar a conclusão da mesma. Obviamente, essa não é das tarefas mais fáceis, mas aqueles que se propuserem a executá-la se sentiram extasiados com a grandiosidade da resolução que surge ao final do livro.   

Psicose é, sem sombra de dúvida, um livro fabuloso. Não só pelo fantástico modo com que é escrito ou por sua mirabolante história, mas também pela capacidade que ele possui de trazer à tona um mapeamento da mente humana de modo claro e sucinto. Robert Bloch consegue aparar todas as arestas desnecessárias para a sua narrativa tornando-a sufocante até mesmo no modo como somos obrigados a lê-la.

Ficha técnica:

Robert Bloch – Psycho – 1959

Tradução: Anabela Paiva

Lançamento no Brasil – 2013

Editora Darkside Books


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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