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Memórias póstumas de um gerente de motel

Adentre à mente do psicopata mais carismático de todos, e talvez o mais humano, em uma reflexão sobre a vida cinematográfica de Norman Bates


“O gerente deste cinema foi instruído, por sua conta e risco de vida, não admitir que ninguém entre na sala após o começo da projeção. Qualquer tentativa para entrar pelas portas laterais, saídas de incêndio ou tubos de ventilação serão repelidas com força. O objetivo principal desta política extraordinária, claro, é te ajudar a aproveitar mais PSICOSE. Alfred Hitchcock”

Com estas palavras do diretor de talvez um dos filmes mais influentes de todos os tempos, damos início à análise da vida (e obra?) de Norman Bates. Recomenda-se que leia este texto de cabo a rabo, para que sua viagem à psicopatia seja completa. Boa leitura.

Imagine a seguinte situação: uma secretária, com boa índole, resolve do dia para a noite roubar seu respeitável patrão e dar um sumiço com a grana. Em sua fuga, resolve parar em um motel de beira de estrada. Em 1960 Alfred Hitchcock, com sua já carreira consolidada no mundo cinematográfico, nos brinda com uma história de terror, suspense e loucura: Psicose.

É magnânimo revê-lo depois de algum tempo e perceber que cada detalhe, cenário, nuance, fala ou menção é significativa para todo o desenrolar do longa e trama, baseada no livro homônimo de Robert Bloch. Hitchcock, como grande mestre que foi, era perfeccionista e gostava de tudo em seu devido lugar, desde o mise-en-scène até uma simples peça de roupa. Prova disso é ver Marion Crane – interpretada magistralmente por Janet Leigh -,antes do derradeiro furto, com aquele hobby branco e angelical simbolizando a ternura e, após sua fuga, vê-la com um sutiã preto exemplificando seu ato de maldade e má fé. Este é um pequeno detalhe que passa despercebido por muitos, mas não para Alfredinho.

Apesar de todo seu crédito na fase européia e com ótimos filmes em sua época hollywoodiana, Psicose quase não foi terminado ou sequer realizado. Isso porque o orçamento recebido para a realização clássico foi raso, levando o diretor a ter que hipotecar sua casa para terminar o filme. Ou seja, era tudo ou nada para ele. Mal sabiam os engravatados da produtora que este seria o filme mais lucrativo do diretor.

Hitchcock acreditava tanto no potencial do longa que trocou seu pagamento por 60% dos direitos do filme. Cara esperto. Neste primeiro longa de terror do diretor, há algumas citações e relações com pássaros: Norman Bates empalha aves, comenta que Marion Crane come como um passarinho e outras coisas mais. Coincidência que três anos após Os Pássaros ganhariam as telas dos cinemas ou premeditação?

Você disse... PÁSSAROS?!

Você disse… PÁSSAROS?!

Não há quem não diga que Psicose seja um filme atemporal e único, desde suas atuações até a excelente trilha sonora composta por Bernard Hermann. Você não fica aflito na famosa cena do chuveiro escutando aqueles agudos capazes de te deixar atordoado em meio à facadas, sangue e tudo mais? Hitchcock ficou tão satisfeito com Hermann que até dobrou seu salário após ouvir a trilha composta. Imagina o choque do diretor em ouvi-la pela primeira vez, enquanto SIM, a faca toca no corpo da protagonista, e realizar a edição do filme em sua cabeça, mesclando terror e suspense num mix perfeito. Só de pensar que, num primeiro esboço, o filme poderia ter sido concebido como uma comédia me dá mais medo do que qualquer Norman Bates da vida.

O modus operandi de Alfred Hitchcock era único dentro e fora das filmagens, antes e depois do lançamento: antes houve um juramento coletivo para que todos os envolvidos não comentassem absolutamente NADA sobre o filme. Após adquirir os direitos do livro de Bloch por nove mil dólares ele comprou todos os exemplares da novela para que ninguém soubesse o final da trama. Hitchcock e todos os outros, durantes as filmagens, tratavam Anthony Perkins apenas como “Master Bates”. Aliás, que atuação do até então desconhecido jovem ator…

Perkins recebeu este grande papel e deu vida a Norman Bates, uma pessoa introspectiva, mas carismática, que varia do cara legal ao maníaco suicida e até para sua própria mãe com seus trejeitos e falas únicas para cada variação do personagem. Infelizmente ele ficou marcado a vida toda por este papel, mesmo tendo se negado por tempos em falar sobre o personagem e ter feito mais tantos outros papéis em vida. Mas chegado um determinado momento, Perkins aceitou esse estigma e abraçou um projeto um tanto quanto ousado e perigoso: uma sequência para o clássico.

O impensável foi concebido e após vinte e três anos Psicose II ganhou as telas de cinemas, mais precisamente no ano de 1983. Realizar uma sequência para qualquer filme já é difícil, mas, como saber lidar com uma sequência de um clássico absoluto que só cresce com o passar dos anos tendo um final tão impactante? O melhor de tudo isso é que deu certo, porém, com um time classe A sem possibilidade de erro.

Mato ou não mato?

Mato ou não mato?

Com um roteiro do ainda novato Tom Holland – que já havia escrito Os Donos do Amanhã e Sangue Amaldiçoado -, direção de Richard Franklin (Patrick) – que foi “aluno” de Hitchcock, diga-se de passagem -, música de Jerry Goldsmith, produção de Hilton A. Green – que havia sido assistente do diretor no clássico de 60 – e o retorno de Perkins ao papel principal, o time estava feito para que pudessem dar uma sequência à altura. O medo de rolar alguma besteira era tanto que o produtor Hilton A. Green, antes de aceitar o posto no filme, ligou para a filha de Hitchcock, Pamela, e perguntou o que seu pai acharia caso estivesse vivo. Alfred morrera em 1980. Por sua vez, a moça deu sua “bênção” e disse que seu pai amaria o projeto justamente por ser diferente.

Este “por ser diferente” é o que vale ressaltar. Justamente por seguir um outro rumo do original ele foi mal recebido por uma grande parcela da mídia especializada, mas muito bem aceito pelo público em geral, somando a quantia próxima a 35 milhões de dólares em seu lançamento contra os cinco milhões gastos com a produção. E a história é uma continuação direta de Psicose onde Norman, após todos estes anos encarcerado numa instituição psiquiátrica, consegue reaver sua liberdade com a ajuda do doutor Bill (Robert Loggia) mas, em contrapartida, Lila Loomis (Vera Miles), irmã da finada Marion Crane, tenta de todas as maneiras provar que uma vez louco, louco sempre será. O diferencial deste filme, além do roteiro bem trabalhado por Holland, é mais uma vez a atuação de Perkins.

Vemos uma batalha interna entre o pacato e reabilitado Norman Bates e seu alter ego tentando se libertar. Será que a vontade de matar fala mais alto que o desejo de ter uma vida normal? Na natureza com que Perkins constrói esta ambiguidade entre o certo e errado e explora o lado mais humano de Norman é que está o X da questão e o ápice da identificação do público é quando você cria empatia mesmo com o vilão. Você o entende – mesmo sendo uma visão meio distorcida da realidade – e em alguns casos até é capaz de sentir dó. Mas a história poderia ter sido diferente…

Com o receio de que pudesse ser lembrado como o eterno filhinho da mamãe Bates, originalmente Anthony Perkins recusou reprisar seu papel e somente depois que leu o roteiro de Holland e ficou extasiado com a qualidade do mesmo é que voltou atrás com sua decisão. Enquanto Perkins ficava no chove não molha pra aceitar ou não o papel, a Universal já buscava outras alternativas e, como o projeto não seria grande sem Perkins, o filme seria rodado para a TV com o papel principal para Christopher Walken. Felizmente tudo correu como o previsto.

Olhe lá minha mãe putrefata sorrindo para nós!

Olhe lá minha mãe putrefata sorrindo para nós!

O cuidado em produzir esta sequência foi tanta que Richard Franklin e Tom Holland, participando de forma direta no processo criativo do longa, colocaram várias homenagens ao filme, como frames do original e uma homenagem à Alfred Hitchcock numa cena onde pode-se ver a silhueta dele refletida numa parede. O tributo seria maior se Green conseguisse com que Jamie Lee Curtis (filha de Janet Leigh) pudesse atuar como Mary Loomis, mas sua sugestão não foi para a frente.

Com um final aberto e após o sucesso comercial de Psicose II, é claro que a ganância falou mais alto e um Psicose III foi lançado três anos depois. Com o debute de Anthony Perkins na direção, ao contrário de seu antecessor, o filme foi um fracasso de crítica e bilheteria, sendo o menos lucrativo da série toda. Ele foi duramente criticado por ser praticamente um slasher (hey, estamos nos anos 80) e sem nenhum apelo ao suspense e thriller que os dois primeiros filmes possuíam. O roteiro é totalmente confuso e varia entre uma cópia de elementos do segundo filme com alguns personagens sem sentido que estão ali apenas para compor elenco e “história”. Assim, entre aspas.

A vergonha foi tão grande que anos depois do filme ter sido lançado, em entrevista em um talk show americano e pouco antes de morrer, Perkins admitiu que foi um erro tê-lo dirigido pois seu conhecimento técnico era limitado para conseguir guiar um filme. Este seria um fim indigno a franquia e a vida de Norman Bates, mas felizmente – ou infelizmente – ele teria um desfecho bem diferente do já abordado anteriormente.

Com o retorno do roteirista Joseph Stefano para que uma nova abordagem fosse feita e com a direção a cargo do “rei das adaptações do ganhador do Troféu Golden no Hall da Fama” Mick Garris, Psicose IV – O Início foi concebido para a TV em 1990. Serei sincero quanto a este filme: ele é do caso ame ou odeie e até mesmo um filme incompreendido e injustiçado (o próprio Stephen King já declarou isso, inclusive em seus “comentários do autor” em Doutor Sono, a continuação de O Iluminado). Eu particularmente gosto por alguns aspectos não explorados nos filmes anteriores e explico meus motivos logo abaixo.

Ai que vontade de mat... ops, beijar!

Ai que vontade de mat… ops, beijar!

Este longa conta a história de como Norman se voltou contra sua mãe, Norma, e explana sobre suas motivações, intuitos e vontades para as quais podem ser mais fortes do que sua vontade de ser são e estável. Além de trazer esse background onde nenhum outro filme aprofundou-se antes, a atuação de Olivia Hussey (Noite de Terror) está fantástica, dando vida pela primeira vez à mãe obsessiva e psicótica que tanto se falou nos filmes anteriores mas ninguém ousou mostrá-la como realmente deveria ser, só explorado novamente depois por Vera Farmiga na série Bates Motel que está em sua última temporada.

Como Joseph Stefano não gostou dos outros dois filmes realizados – sua justificativa foi de que eles parecem mais slashers puros, com bastante sangue e nudez do que suspense, ele decidiu ignorá-los para dar vida a um roteiro que liga o primeiro ao quarto filme, seja como prequela para o clássico de 60 ou como continuação direta. Também é o primeiro filme que não utiliza nenhum frame de Psicose e o primeiro que usa novamente a trilha sonora original de Bernard Hermann.

Anthony Perkins, após o fracasso de seu filme, também ficou ressabiado em como seria recebido caso aceitasse reprisar seu papel pela quarta vez, mas após ler o roteiro que chegou em suas mãos, declarou ser o melhor de todos da já considerada cinessérie. Os flashbacks da infância de Norman seriam rodados em preto-e-branco para dar aquele ar nostálgico ao telefilme, porém, descartaram esta ideia para que o atingisse sua particularidade e ao mesmo tempo completasse o longa de Hitchcock. Até John Landis faz uma ponta!

Mick Garris chegou a declarar que Perkins foi o ator mais difícil e desafiador com o qual havia trabalhado, porém o resultado, haja em vista que ele já estava debilitado pela HIV nessa época, é satisfatório e, finalmente, parece que o psicopata anda com suas próprias pernas, sem mais a sombra da mãe para culpá-la por seus atos sanguinários e prestes a tentar cometer seu crime mais hediondo de todos: matar uma criança. Muitos anos antes de Bates Motel ser concebido, é muito válido ver as raízes de Norman e quais os motivos que o fizeram se tornar esta betoneira emoções, mágoas e tristezas, muitas vezes com consequências mortais.

Ficamos por aqui com esta análise um pouco mais aprofundada sobre o homem, o filho, o psicótico e carismático Norman Bates. Uma dica deste que vos fala: muito cuidado ao escolher seus lugares para descansar, e principalmente, onde tomar banho, pois este pode ser seu túmulo e repouso para a eternidade. Boa noite.

Foto para o álbum de família: Norma, Norminho e NORMÃO DA PORRA!

Foto para o álbum de família: Norma, Norminho e NORMÃO DA PORRA!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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