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Review 2017: #14 – Don’t Knock Twice

Ainda correndo atrás de 2016, mostra uma bruxa saída de território soviético


Ao ler ou ouvir a palavra “bruxa”, qual a primeira imagem que vem a sua cabeça?

É com essa questão que o Youtuber e pesquisador RagnaRox apresenta o tema de um de seus vídeos mais recentes, que investiga a lenda eslava de Baba Yaga – a Bruxa da Floresta, também conhecida como Bicho Papão (ou John Wick!). No vídeo em questão, ele defende a teoria de que a imagem da bruxa como uma velhinha nariguda que vive nas florestas, come criancinhas e voa numa vassoura é uma variação de uma dos mitos mais populares lá em terras russas. A Baba Yaga, que também está presente na cultura pop ocidental, mesmo que em menor escala, possui diferentes representações, que variam de versões “leves” – ela seria senhora que vive na floresta e prega peças em transeuntes-, até versões mais “pesadas”, do tipo que envolvem canibalismo, infanticídio e relações íntimas com o capiroto.

Em Don’t Knock Twice, a garota rebelde Chloe, interpretada pela estonteante Lucy Boynton (The Blackcoat’s Daughter), acredita piamente estar sendo perseguida pela própria Baba Yaga, que devia estar de férias nos Estados Unidos. Por esse motivo, ela se muda para a casa de sua mãe Jess, que a abandonara muitos anos atrás. Jess é interpretada por Katee Sackhoff, atriz conhecida por suas atuações em filmes de ação e ficção científica, que não faz o tipo donzela em perigo. Ela já havia interpretado o papel de uma mãe emocionalmente conturbada em O Espelho, porém aqui tem em mãos um papel com algumas nuances mais complexas.

Ao longo de sua duração, o longa foca demasiado na relação mãe-filha, dando uma atenção toda especial ao desenvolvimento dessas personagens. A título de comparação, no ano passado, o longa Quando As Luzes se Apagam recebeu comentários positivos por ter explorado relações familiares difíceis entre mãe e filha. Don’t Knock Twice lida com essas questões subjetivas de forma simples, mas muito mais efetiva que aquele dramalhão banal do filme de David Sandberg. Claro que o drama aqui não é nenhum Manchester à Beira Mar, mas tem lá seu valor.

Apaga essa luz agora, assombração. Eu te desafio!

Apaga essa luz agora, assombração. Eu te desafio!

A comparação não se dá apenas nesse aspecto, mas também na aparência da entidade maligna que assombra a galera. Ambos apresentam uma figura feminina magrela, descabelada e aparentemente preta (ausência absoluta de cor), que vaga pela escuridão, sempre espreitando. A retratação dessas monstruosidades é bem parecida em ambos, ora focando em uma construção de atmosfera, ocultação nas sombras e afins, ora em jumpscares baratos.

Como mencionado anteriormente, a garota Chloe acredita estar marcada para degola pelo próprio Bicho-Papão russo (ou seria Bicha-Papã?). Para confirmar tal teoria, ela recorre a uma pesquisa feita no Ggoogle, que informa que a lenda eslava não só é real, como possui uma série de características bem delineadas e facilmente identificáveis: esse demônio soviético possui uma espécie de emissário na terra, cuja função é de abrir a porta do inferno para lhe fornecer alimento – crianças, no caso. Segundo essa mitologia, ao bater duas vezes na casa desse emissário, a coisa do inferno seria invocada: a primeira batida serve para alertar o morador, a segunda batida, para alertar a entidade maléfica em si.  

Quando esse background foi introduzido, ainda na primeira metade do filme, não consegui evitar a irritação. Filmes com explicações fáceis e mastigadas costumam ser uma ofensa ao intelecto do espectador e tudo indicava que seguiria esse caminho. Mas nem tudo é o que parece. Em grande jogada do roteirista, essa noção de explicação fácil é totalmente subvertida com uma série de plot twists, sendo por si só, não um recurso banal e explicativo, mas um elemento narrativo interessante que joga com esse clichê do horror. Afinal de contas, e se o mal em questão não fosse a Baba Yaga? O que seria?

Apesar de se enquadrar muito na estética convencional e mais atual do gênero, Don’t Knock Twice tem um certo grau de inventividade e um toque autoral que o tornam um filme simples e que, em alguns momentos, consegue ser efetivo na criação de atmosfera e medo, em maior grau que muitas outras obras que chegam aos nossos cinemas anualmente. Assista ao longa com baixas expectativas e terá uma experiência divertida.

3 batidas na porta para Don’t Knock Twice

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Segundo ano consecutivo em que essa atriz é perseguida pelo Satanás: ela também esteve em Blackcoat’s Daughter


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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