KONG: SKULL ISLAND

Review 2017: #15 – Kong: A Ilha da Caveira

É macaco gigante que vocês querem, é macaco gigante que vocês terão!


Segundo o livro Living dangerously: The adventures of Merian C. Cooper, creator of King Kong, escrito por Mark Cotta Vaz e publicado pela Villard em 2005, quando o roteiro de King Kong foi entregue em janeiro de 1932, alguns críticos dentro da RKO Pictures argumentaram que o filme deveria começar com Kong, mas Cooper, o pai da criança, acreditava que ele deveria iniciar com uma “construção dramática e devagar que estabeleceria tudo, desde os personagens até o clima…”, de modo que a ação do filme  poderia “naturalmente, incansavelmente, desenrolar dentro de seu próprio movimento criativo” e assim, optou por não começar o filme com uma cena com o macaco anabolizado.

Passados 84 anos do lançamento do original, Kong: A Ilha da Caveira, arrasa-quarteirão que chega aos cinemas brasileiros, começa EXATAMENTE com uma cena com Kong, para que o gorila-rei mostre logo de cara que o filme É SEU e ele quem manda no pedaço, sem criar expectativas de sua aparição, se exibindo para dois pilotos inimigos, da força aérea americana e japonesa, que caíram na ilha durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944.

Com isso, os produtores se livraram logo de primeira da maior crítica do Godzilla de Gareth Edwards – que o monstro aparece poucas vezes de relance para dar o ar de toda sua glória destruidora apenas na batalha do terceiro ato – que deu o pontapé inicial ao denominado MonsterVerse, coprodução da Legendary Pictures com a Warner Bros., que culminará no lagartão e o primata saindo na porrada em 2020. É macaco gigante porradeiro que vocês querem, é macaco gigante porradeiro que vocês terão.

Kong: A Ilha da Caveira é um grande filme (perdão pelo trocadilho), que não tem medo em se assumir como fantástico, é divertido, daquele típico cinemão de Hollywood, com efeitos especiais de cair o queixo, edição de som impressionante, cenas de ação para se ver na maior tela possível (IMAX de preferência) e com uma fotografia saturada deslumbrante e trilha sonora pontual com rock setentista (e muito Creedence Clearwater Revival). Infelizmente é repleto de clichês e previsibilidades do começo ao fim, daqueles que chegam até a irritar, tipo frases de impacto dos personagens, cenas em câmera lenta da Brie Larson jogando um isqueiro para causar uma explosão e salvar os companheiros e Samuel L. Jackson fazendo o mesmo papel badass de sempre com as mesmas falas.

Kong-Skull-Island-2017-Movie

Tripulação de esqueleto

Mas o que pega mesmo é seu sério problema de ritmo, uma vez que, sem perder tempo em mostrar Kong (a cena de seu ataque aos helicópteros é simplesmente embasbacante e de tirar o fôlego, mérito do quase novato Jordan Vogt-Roberts na direção) ele não cumpre bem essa “escalada de ação” fazendo com que seu miolo se torne bastante arrastado, apostando num drama de guerra, tipo “Apocalypse Now encontra King Kong , enquanto tenta desenvolver seus personagens, que na maioria não são nada interessantes, salvo os militares (principalmente Shea Whigham), John Goodman que é sempre bom naquilo que faz e John C. Reilly que está impagável como alívio cômico.

Tudo bem, já ficou claro nessa altura do campeonato com dois exemplares do tal MonsterVerse que a ideia toda dessa nova safra de filmes kaiju é colocar de forma crível os monstros como coadjuvantes em um mundo de humanos (ou será “um mundo de monstros”, como Bill Landa, personagem de Goodman chefe do projeto Monarch diz em determinado momento?), e foco nos personagens de carne e osso e como eles lidam com essas situações extraordinárias, sem de fato conseguir interferir no curso de uma natureza secular que está muito além de seu alcance. O que eu aprovo, e muito!

Foi assim com Godzilla, que tomou pau de muita gente pelo monstro não aparecer o suficiente e ficar focado mais na história capenga do personagem de Aaron-Taylor Johson, mesmo que não fosse lá muito atrativa, e é assim com Kong: A Ilha da Caveira, mesmo que o símio esteja em muito mais tempo de projeção, ora enfrentando a fantástica biodiversidade de seu habitat natural, ora a sede de vingança desvairada de Jackson por ter praticamente dizimado seu pelotão.

Aliás, Kong me deu a nítida impressão de ser aquele tipo de filme intermediário, onde a única função que lhe cabe nesse latifúndio é ser o “elo de ligação” (desculpe o trocadilho de novo) desse universo expandido. Ambientado em 1973, mais precisamente um dia após os EUA terem de colocar o rabo entre as pernas e sair do Vietnã, Landa, que já foi vítima de um ataque kaiju quando seu navio foi atacado por uma “criatura marinha” e quer a todo custo provar sua existência, com a ajuda de seu fiel escudeiro, Houston Brooks (Corey Hawkins), geólogo que defende a teoria da Terra Oca, convence um senador a financiar uma expedição da Monarch à inexplorada Ilha da Caveira, localizada no Pacífico Sul, de acesso impossível por estar envolta em uma tempestade perpétua, que foi captada pelos satélites yankees, antes que os russos também descubram o local, afinal, estamos em plena Guerra Fria.

NEtwhpql1MkXwz_1_14

Garoto propaganda do Desinfetante Bufalo

O grupo parte escoltado pelo esquadrão do velho cão de guerra, Coronel Packard (Jackson), que não gostou nada do fim do conflito com os vietcongues e quer mais disso para sua vida, e conta também com o melhor rastreador que o dinheiro pode pagar, o ex-oficial das forças aéreas britânicas que está sempre limpinho, James Conrad (Tom Hiddlestone), a fotógrafa e ativista anti-guerra a fim de ganhar um Pulitzer, Mason Weaver (Larson) – responsável pela já manjada relação de ternura entre a “bela e a fera” – e a bióloga San (Tian Jing – claro que teria uma chinesa, como em todos os blockbusters modernos, mesmo que sem importância alguma na trama, só para abocanhar o mercado oriental), além de pesquisadores da Landsat que tem só a função de ir para o saco.

Bem, não preciso dizer que vai dar ruim, eles serão atacados ferozmente sem piedade, uma pá de gente vai morrer e os sobreviventes tentarão escapar da ilha, enfrentando uma série de animais gigantescos que fazem parte da fauna local, onde a missão de Kong com seus 30 metros (e crescendo…) é trazer o equilíbrio necessário ao ecossistema, venerado como um rei pelos nativos, por impedir que as criaturas répteis que moram no subterrâneo venham à tona, tragédia iminente uma vez que esses monstros acordaram após a rotina em lançar bombas por aquelas bandas, algo que despertou alguns anos antes um certo lagarto pré-histórico que mora no fundo do oceano, que você já deve imaginar.

Não veremos nada do sacrifício tribal da bela mocinha loira para aplacar a fúria do gorila, nada de captura do monstro para ser exibido em Nova York e nada de treta em cima de algum prédio. É um verdadeiro retcom do personagem, dando-lhe uma nova origem, o que é deveras interessante, colocando-o em um contexto inédito, tudo para preparar o terreno para o próximo Godzilla: The King of Monsters, que sai só em 2019, e depois, a titânica batalha entre os dois maiores monstros do cinema, para esquecermos da trasheira da Toho dos anos 60 e glorificarmos de pé.

No frigir dos ovos, Kong: A Ilha da Caveira, cumpre com louvor seu propósito de diversão pipoca descompromissada, tenta consertar alguns erros (que eu de verdade não concordo) apontados em Godzilla (e que particularmente acho melhor, inclusive em seu desenvolvimento que é tão criticado) e pavimenta um brilhante (e destruidor) futuro pela frente, criando uma unidade de linguagem narrativa, e dando uma baita expectativa na forma como os elementos serão conectados, uma vez que um filme se passa na década de 70 e o outro, no presente.  

E ah, a cena pós-crédito é de arrepiar os pelos dos braços, então não levante antes da cadeira da sala de cinema.

4 bananas para Kong: A Ilha da Caveira

Everybody macacada

Everybody macacada


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. Clausner disse:

    Um personagem comentou de formigas grandes nas árvores que imitam pássaros. Queria ver essas criaturas em cena. E os “índios” da ilha do filme de Peter Jackson me chamaram mais a atenção porque são mais assustadores.
    Fora isso, achei ótimo. Divertido. Recomendo.

  2. Stuart Marcelo disse:

    Ótima crítica. Honesta.
    Acredito que eu não me divertia assim vendo bichos gigantes saindo no tapa desde Pacific Rim!
    Você levantou um ponto interessante: “Infelizmente é repleto de clichês e previsibilidades do começo ao fim”. SIM, tem clichês do começo ao fim mas na minha opinião eles estão dentro desse universo de monstros gigantes, onde tudo é muito canastrão. Vide de novo Pacific Rim, que tem todos os clichês mas são todos muito bem usados! Kong pra mim vai no mesmo passo.

    Não é nem de longe o filme de “drama” que por acaso o Godzilla estava no meio como o filme quis fazer. Não queria falar no filme do lagartão mas é inevitável não comparar pois Godzilla fez uma coisa que nunca vi em filme em nenhum: sabe a cena que todos estão fugindo, entrando num túnel, e aí vai quase 1 hora de filme em que a gente mal vê o bicho? Aí aparece o Godzilla urrando, destruindo tudo e a porta do abrigo se fecha…O FILME BATEU A PORTA NA MINHA CARA! Eu nunca me ofendi tanto por ter pago um ingresso! Foi a maior reversão de expectativa que já tive.

    O Kong, como bem explicitado na sua crítica, fez o caminho e inverso e colocou tudo o que esses filmes sempre foram, por mais que nos filmes do Godzilla tem aquele viés de “homem destruindo a natureza” e o bicho é meio que consequência disso, todos os outros filmes no fundo está a canastrisse dos diálogos, a incredulidade de certas coisas do roteiro e eu sinceramente, não espero muito disso e assim me divirto quase sempre. Porra, Pacific Rim está aí pra mostrar o que é um verdadeiro filme pipocão.

    O Kong antigo é sobre a ganância e vaidade humana? SIM. Esse eu vi como um filme de que cada um que fique no seu lugar sabe? É ali onde ele é rei e não é um par de militares que vai mudar isso. Aliás, o personagem do Samuel L. Jackson é odioso e caricato do começo ao fim. Todo mundo é caricato do começo ao fim. E o filme é honestíssimo em não aprofundar cada um desses personagens porquê novamente, vamo combinar, se eu quiser saber sobre as voltas que a vida dá na vida de uma pessoa eu vou assistir La La Land. né?

    Aliás, as cenas do Kong atirando a palmeira no helicóptero e a luta com o polvo, seguramente são referências para os trashs e divertidíssimos King Kong Escapes e King Kong vs Godzilla respectivamente!

    Aliás, vou ver em IMAX, porquê vi numa sessão normal mas acho que não fez jus, mesmo eu tendo achado incrível!

    PS: Que site incrível!

  3. PLÍNIO MARQUES JÚNIOR disse:

    Achei um bom filme e bem melhor do que o Godzilla. Já passou da hora de um filme com outra origem do Kong, especialmente que ele seja indestrutível como o Godzilla. Ele não pode ser ferido por balas, por tanques de guerra, helicópteros, aviões, foguetes, etc. ESTE É O VERDADEIRO KONG ! Só um cara destes é capaz de nocautear o lagartão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *