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Todos saúdam o Rei!

Kong, o gigante da cultura pop!


O ano é 1899, e o local é Jacksonville, Flórida. Um menino de seis anos chamado Merian C. Cooper ganha de seu tio o livro Explorations and Adventures in Equatorial Africa, escrito por Paul Du Chaillu e publicado 28 anos antes, que traz relatos de suas várias aventuras e encontros com a vida selvagem do continente, sendo o primeiro europeu moderno a confirmar a existência dos gorilas e dos Pigmeus.

19437046612As histórias envolvendo os gorilas fascinaram o garotinho, principalmente, a narração de Du Chaillu sobre um primata de “tamanho extraordinário”, que os nativos diziam ser “invencível” e o “rei da floresta africana”. Mais tarde no livro, o explorador, zoólogo e antropólogo, ao se deparar com o animal pela primeira vez, o descreve como “uma criatura infernal metade humana e metade fera”, com direito a ilustrações.

Com certeza isso ficaria marcado para sempre na imaginação do rapazola, que cresceu, entrou para a Força Aérea Americana e Polonesa, voou para a guerra (tornando-se inclusive prisioneiro soviético durante a guerra entre a URSS e a Polônia), virou um aventureiro, membro do The Explorers Club of New York e do quadro de diretores da PanAm e além de tudo isso, roteirista, produtor e diretor, trabalhando em alguns estúdios como a Pioneer Pictures, a MGM e a RKO Pictures, essa pela qual em 1933, Cooper daria vida a Kong, o mais colossal dos macacos que já andou por essa terra.

A ideia de Cooper era bem de boas: um filme de terror sobre um gorila gigantesco, inspiração oriunda do livro de Du Chaillu e de um bando de babuínos que estudara durante as filmagens de The Four Feathers na África, o qual dirigiu ao lado de Ernest B. Shoedsack e Lothar Mendes em 1929, que tinha uma jovem Fay Wray no elenco; e nesse ínterim rolaria uma treta com dragões de Komodo, lance que teve após ler o livro The Dragon Lizards of Komodo de W. Douglas Burden; e com seu clímax na cidade grande, onde o longa se tornaria uma espécie de embate entre a natureza selvagem versus a civilização moderna, finalizando com uma batalha contra aviões no topo do Life Insurance New York Building, maior prédio do mundo naqueles idos, depois, como bem sabemos, substituído pelo Empire State, como escreveu Mark Cotta Vaz em Living Dangerously: The Adventures of Merian C. Cooper, Creator of King Kong, publicado em 2005.

Bem, originalmente Cooper tentou vender esse devaneio para a Paramount, e pegue essa: ele queria levar um gorila de verdade do Congo para a ilha de Komodo e colocar o símio numa rinha com o lagarto venenoso. Isso em plena Grande Depressão e com um custo altíssimo de produção. Óbvio que eles não toparam bancar um projeto megalomaníaco desses, que ficou na gaveta até que em 1931, a RKO Pictures, por meio de seu vice-presidente, David O. Selznick – sujeito o qual Cooper ajudou a descolar um trampo no estúdio que passava por problemas financeiros – o contratou. Logo o cineasta colocou em prática a produção de seu próximo filme, Zaroff, O Caçador de Vidas, construindo um enorme cenário de floresta para contar a história de um insano caçador que passa a perseguir os sobreviventes de um navio que naufragou próximo de sua ilha.

Enquanto isso, a RKO produzia um filme nababesco que acabou nunca saindo do papel: Creation, dirigido pelo mago do stop-motion, Willis O’Brien – responsável pelos efeitos especiais de O Mundo Perdido, de 1925 e mestre de Ray Harryhausen – uma fantasia de orçamento altíssimo que fugiu do controle e que pretendia trazer a história de um grupo de viajantes presos em uma ilha de dinossauros. Quando exibido para Cooper, o produtor não ficou nada impressionado, achou entediante e cancelou o projeto. Mas esperto que si só, descobriu que poderia dar um jeito na sua ideia insana do gorila lutando com o dragão de Komodo: usar o talento de O’Brien para criar o macacão com a ajuda de seu fiel escudeiro, Marcel Delgado, além de aproveitar seus dinossauros de massinha, utilizar o set da selva já construído para Zaroff e voilá, com isso, economizar uma boa grana. Disso veio o sinal verde para King Kong, que estreou em março de 1933 e revolucionou a história do cinema fantástico e dos efeitos especiais como conhecemos.

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Que marravilha!

O macaco então apelidado por Carl Denham, o protagonista da história, como “A Oitava Maravilha do Mundo” tomou de assalto a cultura pop e o imaginário popular tal qual fez durante sua escapada na cidade de Nova York ao ser retirado d’A Ilha da Caveira, localizada no Oceano Índico. E não só isso, King Kong foi um dos primeiros filmes a ter uma massiva campanha de marketing de divulgação transmídia, algo bastante audacioso para a década de 30 e de importância fundamental na indústria cinematográfica nos dias de hoje.

Enquanto a produção era finalizada ainda em 1932, Cooper pediu para que seu amigo, Delos W. Lovelace, adaptasse o roteiro do filme escrito por James Ashmore Creelman e Ruth Rose em uma novelização, que fora publicada em dezembro daquele ano (antes do lançamento do filme nos cinemas) pela Grosset & Dunlap, republicado em 1965 pela Bantam Books, e cujos direitos hoje estão em domínio público. Esse mesmo material mais tarde foi transformado em HQ em 1968, publicado pela Gold Key Comics, subsidiária da Western Publishing, desenhado por Alberto Giolitti e até lançado aqui no Brasil pela extinta Ebal.

Falando em quadrinhos, a RKO criou tirinhas ilustradas por Glenn Cravath para o press book do filme que foram publicadas em diversos jornais pelos Estados Unidos como parte da campanha de publicidade de pré-lançamento do longa, que também fora serializado em algumas revistas pulp, como a Mystery Magazine, escrita por Walter F. Ripperger e publicada em duas partes em fevereiro e março de 1933 nos EUA, e no Reino Unido, em duas publicações distintas: no volume 23 da Juvenile Boys Magazine, de forma não creditada, e na Cinema Weekly, escrita por Draycott Montagu.

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Antes de qualquer lampejo de ideia de existir um MonsterVerse criado pela Legendary Pictures, Cooper em 1935, agora na Pioneer Pictures – companhia a qual ele assumiu a vice-presidência – decidiu tirar do papel uma ideia sugerido por Selznick (que também não estava mais na RKO) de um insólito Tarzan vs King Kong, que não aconteceu por causa das famigeradas pendengas jurídicas. Ao conceber o personagem em 1929, Cooper imaginou que estava licenciando o símio para a RKO somente para o original e sua sequência, e depois era “beijo me liga”, a criação seria de seu total controle. Foi descobrir da pior forma que os direitos pertenciam na verdade ao estúdio e Kong ficou no limbo por um tempo.

Foi só muitos anos depois, em 1962, que a RKO licenciou seus direitos, sem nenhum consentimento de Cooper, para a Toho Studios no Japão, afim de que o Rei Gorila pudesse sair no braço com o kaiju da casa: Godzilla! Dirigido por Ishirô Honda, na trama, uma indústria farmacêutica captura Kong e o leva para o Japão, que escapa de seu cativeiro e começa a treta com o Lagarto Deus. Para isso acontecer, o macacão teve de ser absurdamente anabolizado, aumentado de seus 15 metros originais para 45 metros, além de ganhar algumas habilidades especiais, como soltar eletricidade (???!!!). A trasheira kaiju King Kong vs Godzilla não foi a única, e a Toho também lançou sua continuação, A Fuga de King Kong em 1967, botando-o pra medir forças contra uma versão robô gigante símia, o MechaKong. Uma pérola.

A estada do gorila na Terra do Sol Nascente também rendeu uma animação nipo-americana, o The King Kong Show, que foi ao ar em 1966, sendo o primeiro anime produzido no Japão, pela Toei Animation, para uma companhia americana, com direito a 26 episódios exibidos na ABC. O desenho era centrado em sua bela amizade com a família Bond, com quem saiu em diversas aventuras para salvar o mundo de monstros, robôs, alienígenas, cientistas loucos e ainda se divertir a valer. O personagem peludão ainda estrelou várias tiras na Shonen Magazine que adaptou alguns episódios da animação e trouxe histórias originais, e também no mangá Hikari No Kuni Comics. Enquanto isso, do outro lado do Pacífico, a Marvel Comics publicava em 1967 uma história baseada no cartoon televisivo, na HQ America’s Best TV Comics e no México, a editora Orizaba publicou a revista em quadrinhos King Kong, que durou 185 edições e foi diversas vezes republicada durante as duas próximas décadas, rebatizada primeiramente de El Gorilla e depois de El Gorilla del la Selva.

Cada macaco no seu galho. O meu é na TV.

Cada macaco no seu galho. O meu é na TV.

Mas foi só nos anos 70 que Kong se tornou grande novamente, quando em 1976 o produtor italiano Dino de Laurentiis resolveu refilmar o clássico, dirigido por John Guillermin, estrelando Jeff Bridges e Jessica Lange, e com os efeitos especiais criados por Carlos Rambaldi e ajudinha de Rick Baker (que inclusive vestiu a suitmation do gorila), colocando o bicho dessa vez causando no World Trade Center com seus 16 metros de altura, trazido por uma companhia petrolífera que fora até sua terra natal nunca explorada em busca de combustível.

Tudo isso no meio de um briga das boas entre Laurentiis, a Universal Pictures e a RKO – não me perguntem que é um rolo danado de um processando o outro e o outro processando o um. No fim das contas, ficou acertado que a RKO era detentora dos direitos do original e sua sequência (que depois passou para as mãos Warner, quando Ted Turner comprou toda a filmografia da produtora em 1986 e onde permanece até hoje). Laurentiis, dono do remake e a Universal ficaram a ver navios – essa última sempre se achou dona do copyright do personagem por conta de um acordo verbal com a RKO, tanto que em determinado momento, acabou até processando a Nintendo pela criação do personagem Donkey Kong, em 1981, mas que acabou em pizza.

Só depois de 30 anos que a Universal finalmente conseguiu fazer sua refilmagem de King Kong, dessa vez como uma superprodução de três horas dirigida por Peter Jackson, recém saído do estrondoso sucesso de O Senhor dos Anéis, onde finalmente pode homenagear o filme mais importante de sua vida e o que o fez se tornar um cineasta ao assistir quando garoto.

Logo ele tratou de manter-se fiel a história clássica dos anos 30, inclusive ambientando o longa na mesma época e abusando de várias criaturas pré-históricas, porradaria com Tiranossauros e insetos gigantescos que habitam a Ilha da Caveira e até recriando uma famosa e infame cena deletada do original, em que os marinheiros caíam em um ninho de aranhas vitaminadas e eram devorados por elas, tudo com efeitos especiais de ponta criados pela sua Weta Digital. E Andy Serkis, sempre ele, fez às vezes da captura de movimento do primata.

Macaquices no set

Macaquices no set

A versão de Jackson ressuscitou de novo o interesse repentino no primata descomunal, dessa vez retratado de forma nada humanoide como suas versão anteriores, e mais como um gorila real, de idade centenária, com direito até uma espécime fictícia batizada de Megaprimatus kong, uma evolução do Gigantopithecus, sendo o último de sua espécie, e dessa vez medindo “apenas” sete metros de altura, sua menor versão nas telas.

Isso fez com que mais uma vez ele pulasse para os galhos de outras mídias, incluindo aí: vários livros publicados nesse período, como uma nova novelização escrita por Christopher Golden, baseado no roteiro de Jackson, Fran Walsh e Phillippa Boyens e um prequel oficial, King Kong: The Island of Skull, de Matt Costello, publicados pela Pocket Books; HQs da Dark Horse Comics, como a quadrinização oficial chamada King Kong: The 8th Wonder of the World e a série Kong: King of the Skull Island escrito por Joe DeVito como uma sequência não oficial da história original de Cooper (não confundir com o recente lançamento Kong of the Skull Island, da Boom! Studios, uma prequência que traz a origem do bichão do novo filme, também roteirizada por DeVito), e um jogo de videogame lançado pela Ubisoft para PlayStation 2 e Xbox, além de uma versão para Game Boy.

Corta para os dias atuais, e em 2013 a Legendary Pictures fechou um acordo com a Universal para cofinanciar e distribuir os filmes da produtora durante cinco anos, a partir de 2014, mesmo acordo que firmara com a Warner Bros. que estava para expirar, cujo último lançamento foi Godzilla, graças aos direitos do personagem adquirido com a Toho. Bem, nessa altura do campeonato sabemos os planos da produtora e que a Universal abriu mão do macaco para o estúdio da Caixa D’Água colocá-lo para medir forças com o réptil atômico japa de novo em 2020, dentro de um universo expandido kaiju, que começou a ser construído no recém-lançado Kong: A Ilha da Caveira. Aguardo ansiosamente…

Como se não bastasse tudo isso, o macaco está presente em diversos rip-offs, inclusive um italiano – lógico – chamado Kong Island (ou originalmente, Eva, la Venere selvaggia), lançado em 1968, e uma versão mexicana, de 1981, chamada Las Muñecas Del King Kong (ou algo do tipo, “As Bonecas de King Kong”) que traz garotas exóticas na selva, e a única relação com o animal é uma estátua no topo de um prédio, além de paródias, como em A Festa do Monstro Maluco até o recente Lego Batman – O Filme. Isso sem contar menções sem número por aí, dando o ar da graça em Yellow Submarine, a animação dos Beatles, em episódio de Os Simpsons, inspiração para inimigos do Superman e do Flash, letras ou nomes de músicas de gente como The Kinks, Frank Zappa e Daniel Johnston e até atração de parque de diversão.

Por essas e outras Kong não é só o Rei da Ilha da Caveira, não… Ele transcendeu aquele pedaço de terra selvagem perdido no meio do Oceano para garantir de vez seu trono na cultura pop. E pode bater no peito para isso!

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All hail to the king… Kong!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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