capa

O relato de um sobrevivente da exibição de King Kong em 1933

Vim, vivi e venci todas as versões do Rei dos Reis nos cinemas nesta crônica fictícia


“Venham todos, venham todos! O que verão a seguir ficará para sempre em sua memória! Uma criatura que sobreviveu através do tempo, esquecida da humanidade! Conheça hoje Kong, a oitava maravilha do mundo!”

Prólogo

O ano é 1933. A três quadras do theatro vejo os holofotes no céu indicando um grande evento. Começo a escutar alguns batuques rústicos típicos de tribos africanas e conforme vou me aproximando ao Radio City Music Hall, estes sons vão aumentando e aumentando… Fico um pouco apreensivo e começo a matutar o que diabos estou fazendo prestes a entrar no Radio City. Multidões vão se aglomerando e sou recepcionado por um chefe curandeiro e sua máscara feita de palha. Através dela vejo seu olhos esbranquiçados e ameaçadores, de certa forma me alertando do que viria a seguir. Subo minha visão e, em meio ao aglomerado de pessoas murmurando “O que deve ser? Será tão assustador assim?”, vejo na marquise brilhante o nome King Kong. Mal sabia que este seria o começo do fim e que sobreviveria tantos anos para contar-lhes a vida deste pitoresco animal que lhes descreverei abaixo. É um relato ameaçador, cru e frio portanto, siga por sua conta e risco.

 

Primeiro capítulo – A apresentação

 

Com estreia simultânea nos dois maiores cinemas da época de Nova Iorque – o já citado Radio City Music Hall e o Roxy – e vendendo todos os dez mil ingressos postos à venda, após cerca de mais ou menos uma hora de projeção somos apresentados ao Rei dos Reis. O primata minaz, valente e eufórico é posto em tela para arrancar aquele grito espontâneo da garganta de todos: KONG, a maior criatura que já andou sobre a terra!

Com direção de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, a premiere não poderia ter sido melhor e o lançamento do filme se tornou o maior de sua época com os incríveis 90 mil dólares em dois dias! Lembrando que estávamos em meio à Grande Depressão, era questão de tempo recuperar os 670 mil dólares investidos e na primeira semana acumulou-se incríveis 2,8 milhões. Todos queriam ver o grande gorila em cena quebrando toda a cidade e, talvez, sentir pela primeira vez o verdadeiro medo crescente conforme o andamento da projeção.

Na trama somos apresentados ao cineasta Carl Denham (vivido por Robert Armstrong), cuja audácia se resume a se aventurar pelo mar adentro a fim de achar a Ilha da Caveira, um local perdido e esquecido pelo mundo para realizar seu maior e mais corajoso filme: conseguir registrar a maior criatura jamais vista. Com o suporte da única atriz à bordo do navio, a bela Ann Darow (eternizada por Fay Wray), ele segue rumo à desgraça iminente. Não precisaria dizer que, além de arriscado, seria perigoso demais literalmente jogar-se aonde o vento te guiar para que possa encontrar uma ilha cujo conhecimento e veracidade dá-se somente por um mapa velho feito por um náufrago norueguês.

Aguardando o meu prometido

Aguardando o meu prometido

Com a sorte e ajuda dos deuses dos mares, a ilha é avistada e sua longa e velha muralha é o primeiro sinal de que é melhor ficar longe dali. Mas como a megalomania de Denham é maior, ele e seu time contratado desembarcam no local e presenciam um ritual estranho, mais parecido com um casamento simulado entre uma jovem e um aldeão com máscara de macaco, a mesma pantomima que vira em frente ao Radio City. Aquela máscara não era parte do ritual, e sim uma representação do futuro marido da jovem, o grande e temido Kong, seu Deus. Seria uma dádiva ser escolhida ou uma sina de ter nascido bela e ser fadada à morte prematura?

Fato é que, durante a cerimônia, os locais avistam Ann, a Deusa Branca com cabelos dourados. A escolhida por Kong e talvez profetizada pelo curandeiro da tribo. A beleza nunca vista na ilha, a perfeição para seu Deus e, talvez a paz em sua comunidade. Como a troca “amigável” entre Ann e quatro de suas melhores jovens não foi concretizada de forma solícita, a tribo resolve realizar à sua própria maneira o considerado certo para eles: sequestrar a bela loira e oferecê-la a Kong. “Mas quem é Kong, afinal de contas?!” me perguntava. Mal sabia que o monstro supremo apareceria em cena.

Ann está amarrada em dois troncos fincados num altar. À sua frente começam a cair árvores, com a mesma facilidade que cairiam gotas d’água numa chuva. A terra estremece e você, inconscientemente, começa a se segurar em sua poltrona. Algo está chegando e o calafrio, que não é do vento e nem do frio, arrepia sua espinha num nó dado em seu coração que te faz segurar sua respiração. O que é?! Arrebatando as árvores à sua frente, Ann – assim como nós – se depara com uma criatura feroz medindo aproximadamente oito metros e algumas toneladas. Batendo em seu peito com ânsia e demonstração de que ele é o Rei e dominador do local, Kong é visto pela primeira vez.

Foi comum ouvir suspiros, gritos, desmaios e até euforia quando visto pela primeira vez. Era jovem na época e fiquei num misto de medo e admiração, pois aquela monstruosidade, mesmo que ameaçadora, era algo jamais visto por ninguém na face da terra. Merian C. Cooper desde criança foi alguém que também ficou abismado com a beleza às avessas dos gorilas na infância – poderá ler o relato de outro sobrevivente aqui sobre suas influências desde infante – e seu imaginário, com um ponto de partida da fatídica Nova Iorque devastada e seu sonho de um macaco gigante destruindo toda a cidade, começou a dar vida ao rei que hoje conhecemos. Mas tal processo foi doloroso e com certeza trabalhoso demais.

As sequências em que vemos criaturas pré-históricas ou monstros criados pela mente de Willis H. O’Brien – responsável pelo longa O Mundo Perdido de 1925 – e executados pelos hoje cultuados Ray Harryhausen e Phil Tippett, demoravam, no mínimo, 20 horas para uma pequena cena. Imagine que para take em stop-motion os moldes das criaturas eram ajustadas num intervalo de um minuto e, para cada um segundo em tela, demorava uma tarde para ser concluída! Por conta destas e outras técnicas usadas, o filme demorou longos oito meses para ser finalizado. E demoraria mais, caso a inventividade e inteligência dos envolvidos não viesse à tona.

Saia daqui, mosquinha

Saia daqui, mosquinha

Com a selva de Zaroff – O Caçador de Vidas, a vila dos nativos de Ave do Paraíso e a grande muralha de Rei dos Reis, a produção foi agilizada – em sua proporção – e o longa foi tomando seu rumo próprio em meio à produções minimalistas e cuidados excessivos em tentar fazer uma obra jamais vista. E conseguiram! O medo era tão bem transpassado da tela para o espectador que em determinados momentos você sentia a angústia dos personagens ali expostos. E realmente era um medo único e verdadeiro…

Fay Wray era posta na mão de Kong e os técnicos a fechavam-na para as cenas entre o primata e a linda moça, mas, como um dos dedos era quase preso à sua cabeça e à medida em que a mão ia se fechando, Fay realmente ficou desesperada e os gritos, medos e pânico eram reais. Numa das tomadas em que quase a atriz desmaiou, Cooper interrompeu imediatamente as filmagens e talvez ali, ele realmente percebera que conseguiu extrair o verdadeiro sentimento de pavor talvez nunca explorado: o medo do irreal, do impensável e do inimaginável. Como não senti-lo quando se vê o desespero de seu semelhante exposto na tela?

A Besta, A Oitava Maravilha, O Macaco, O Rei Macaco e, apenas Kong, eram possíveis títulos em que se trabalhavam, mas nenhum tão imponente quanto o sugerido por um produtor que escreveu este nome no roteiro e foi embora para casa: King Kong. O rei dos reis nascia num filme incômodo, violento e amedrontador. Ali, o primata tomava seu lugar de direito e o mundo o conheceria como a oitava maravilha. Claro, para aqueles que o enfrentasse , pois em Londres, no Easter Sunday, cerca de 12 mil pessoas desistiram e rejeitaram a ideia de encará-lo. Hoje creio que elas tenham feito o correto.

Seu legado havia começado e, como nunca é o bastante, o inevitável aconteceu e sua cria ganhou vida.

 

Capítulo 2 – Laços de Sangue

 

No mesmo ano de 1933, porém com um orçamento menor do que a metade do que lhe foi dado para King Kong e com lançamento às pressas antes do natal, O Filho de King Kong era lançado. Com direção de Ernest B. Shoedsack e o retorno de Carl Denham, agora amargurado e arrependido pelo que fizera com Kong, o curto/longa-metragem – cerca de 1 hora e 10 de filme – feito às pressas é com certeza passível do esquecimento e desnecessário, porém, com uma característica bem peculiar que o fez dar rumo à todo o legado de Kong.

Com desgosto e angústia em seu coração, além de processos e intimações aos tribunais para prestar contas sobre a sua responsabilidade de trazer o gorila à cidade grande, Denham decide fugir e partir numa viagem sem volta para deixar seu passado de lado e ter uma nova vida. Mal sabia ele que a Ilha da Caveira seria novamente seu destino e uma mocinha simpática e tão audaz quanto ele (interpretada por Helen Mack) entraria em seu destino como uma das personagens mais importantes para que se ditasse uma nova abordagem para Kong e para o resto de sua vida.

A pequena, mas forte, Hilda Petersen, após avistar o pequenino Kong – que teria, em primeira instância, o nome de Kiko -, por sua vez preso numa poça de areia movediça, se vê no dever de ajudar um ser “indefeso” e “incapaz”. Após o consentimento, mesmo que a contragosto, de Denham, a dupla ajuda o gorila a sair da armadilha natural e a empatia entre a criatura antes temida por tudo e todos nasce, fazendo com que o primata seja enxergado não como um ser irracional, mas sim como um bicho que poderia ser entendido, amado e talvez “domesticado”.

Esta é a única contribuição que o agora cômico, adorável e pequeno Kong tem para dar pois, no contexto geral, esta continuação da história anterior chega a ser infiel e implausível com o temível e famigerado monstro que aterrorizou a todos nós. Uma afronta e uma decepção ver seu legado, sua cria e seu laço de sangue, ser retratado como algo adorável. Lembrando de como fiquei assustado no cinema naquela época vendo o principal monstro criado até então, este filme foi para mim execrado da história que Kong deixou em aberto. Mas houve alguém, mais tarde, que ousou retratar novamente e tentar ser fiel à história que eu e poucos sobreviventes tivemos a sorte de presenciar e estarmos vivos até hoje para contar.

Prazer, sou o Kiko, ops, o Kong Jr.

Prazer, sou o Kiko, ops, o Kong Jr.

Em 1976 o italiano Dino de Laurentiis decidiu recriar a história original com um certo tom mais profissional e King Kong ganhou as telas novamente. Isso depois de algumas desventuras de uns produtores japoneses que nem me atrevi a assistir. Com  John Guillermin a cargo da direção – especialista em filmes com a temática de desastres naturais e/ou aventuras como A Maior Aventura de Tarzan, El Condor e Inferno na Torre – a nova empreitada de Kong foi lançada e, mais uma vez, ofuscada por alguns elementos, ouso dizer, enfadonhos para a nova visão de um filme datado, diferente do original, que hoje não funciona mais.

Há alguns termos que gosto de usar, e o que melhor define esta versão de 76 é: não envelheceu bem. A experiência máxima de terror vivida nos longínquos anos 30 foi algo que nunca mais presenciei, e como dizem “mesmo sabendo da adversidade que o espera, o corajoso precisa enfrentar o mal iminente pois prefere a possibilidade da dor à certeza da covardia”, assisti convicto de que a história se manteria no mínimo fiel ao que fora proposto antes. Até tentou, mas não conseguiu. E antes mesmo de começar o filme o problema já era certo…

Quando o protótipo do braço de Kong foi finalizado e De Laurentiis chamado para ir ao estúdio ver o teste dele em ação, a mão estendeu-se em sua direção e o dedo do meio começou a desenrolar-se lentamente para si. Resultado: o produtor enfezado destruiu o braço e mandou-lhes construir outro, desta vez, com a supervisão do consagrado Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos especiais de O Planeta dos Vampiros, A Mansão da Morte, Prelúdio para Matar e outros. O esforço de Rambaldi foi reconhecido, mas nem tanto assim.

Ele construiu um primata de 12 metros, pesando seis toneladas e meia para que o gorila amedrontasse mais e mais, custando cerca de 500 mil libras para ser finalizado, onde o mesmo, no total, apareceu por apenas 15 segundos em tela. Este longa estava fadado ao insucesso e esquecimento, porém, os jovens da época não possuíam o discernimento de que este Kong não fazia jus ao monstro introduzido em 33 e, em bilheteria, o sucesso foi ótimo.

Talvez hoje um destino completamente diferente Kong teria tomado caso Roman Polanski tivesse sido o diretor, como havia se planejado tempos antes, ou se Meryl Streep não tivesse sido considerada “não atraente” por De Laurentiis, e substituída por uma moça desconhecida em seu primeiro papel, uma tal de linda (e louca) Jessica Lange no papel de Dwan. Lange desenvolve com perfeição o papel sedutor de uma moça aproveitadora, mas ingênua demais a ponto de não saber o ponto em que o dinheiro não deve ser prioridade. Este é o ponto para que o final seja o mais ambíguo da cinessérie e da história e legado de Kong, pois: foi a Bela que matou a Fera ou a Bela que deixou a Fera ser morta?

Saúdem o rei!

Saúdem o rei!

Jeff Bridges, neste caso interpretando o paleontólogo Jack Prescott, deixa na cena final um sentimento amargo e rancoroso contra Dwan e indignação contra Kong. A que ponto a confiança da besta milenar fez com que a traísse, não? Mas, de qualquer maneira, o retratado aqui é bem inferior ao resultado perfeito do original e faz com que outro filme tome seu posto de readaptação da história original. Porém, antes deste, houve uma tentativa de frustrada de se ganhar algum crédito fácil em cima da criatura, até então, já considerada alvo e vitimizada por toda a humanidade.

King Kong 2 foi algo com que não merecia citar neste testemunho ávido por alguém que admira e teme ao mesmo tempo a figura do gorila, porém, ele foi lançado 10 anos depois com a direção novamente de Guillermin e agora com o protagonismo de Linda Hamilton (Colheita Maldita, O Exterminador do Futuro). Kong foi mantido vivo por durante uma década após inúmeras cirurgias e tentativas em deixá-lo vivo até que, em última instância, implantam um coração mecânico no bicho para que possa viver e aterrorizar novamente as ruas da grande cidade. Neste longa existe até a Lady Kong, a fêmea do rei e futura parceira…

Execrável e passível de nervosismo – nem há graça nesse longa, a não ser que goste de filmes assumidamente ruins. King Kong 2 só tem um acerto de alguém que nem sequer está no filme: Peter Weller recusou o papel para “tentar” algo melhor com Robocop – O Policial do Futuro. Sábia escolha! No que se diz respeito à trama, violência e afins, nada a se dizer a não ser que este comprova que nenhum outro filme se equiparou ou fez juz ao sentimento do primeiro: o medo primordial, natural.

 

Capítulo 3 – Novo milênio

 

Os anos foram se passando e eu, mesmo velho e com a saúde debilitada, ainda acordava no meio da noite com o suor frio e gelado, atordoado pela visão de Kong em meus pesadelos mais recorrentes. Tentava por diversas formas esquecê-lo ou ignorá-lo – mesmo após ter visto sua reputação e sua imagem manchada -, mas algo dentro de mim dizia que ainda haveria alguém que pudesse ter vivido ou entendido aquela experiência tão fascinante e daria uma nova cara ao monstro que agora já fazia parte de minha vida e meus temores.

O ano é 2005 e, após mais de 70 anos da aparição de Kong, um diretor chamado Peter Jackson (Fome Animal, Os Espíritos) dá novamente vida ao gorila ameaçador que nasceu em 33. Um misto de receio e pré-decepção me rodeavam antes de adentrar ao cinema e ver esta nova “aventura” do monstro. Como não havia expectativa nenhuma me surpreendi com a reimaginação de seu mundo, com o determinado avanço tecnológico, e o retorno da “violência” que fez Kong ser temido e respeitado. Não era para menos, já que é o filme da vida Jackson e o fez com todo o amor e carinho, projeto já antigo e que agora poderia dar a sua particularidade à obra de Cooper.

Escolha outra namorada para você, T-Rex!

Escolha outra namorada para você, T-Rex!

As referências são enormes, fazendo menção até do filme dentro do filme, como quando, em determinado ponto da história, a atriz Fay Wray é citada como indisponível por estar fazendo outro longa com a RKO Pictures, produtora do original. Já que toquei no ponto do elenco, este é de peso: Adrien Brody, Naomi Watts, Jack Black, Thomas Kretschmann, Colin Hanks e Andy Serkis são alguns dos nomes que podemos citar que dá um brilho extra à esta produção, fazendo-a destoar em meio aos outros três filmes lançados anteriormente. O cuidado foi tanto que há diálogos iguais entre ambas as produções e o roteiro é cheio de homenagens, mas a criatura com certeza teve um peso maior para ser feita e interpretada.

Lembro que na época em que o filme saiu, o diretor Peter Jackson já havia feito a épica e surpreendente trilogia de O Senhor dos Anéis e, como todos os filmes foram muito bem recebidos pelo público e elogiadíssimos na parte técnica, o mesmo se sentiu confortável e pronto para iniciar o projeto de sua vida e tributo do filme mais influente para ele. Muito do sucesso em que o longa se consumiu foi por Andy Serkis, cuja interpretação foi além do caolho cozinheiro e, através de 132 sensores presos em seu rosto, fez com que Kong pudesse receber trejeitos e formas mais humanizadas e assim se familiarizar e ter um relacionamento mais interpessoal com a personagem de Naomi Watts.

Como expliquei no capítulo anterior, O Filho de King Kong estabeleceu uma relação empática entre o ser humano e um ser que não necessariamente precisaria ser temido, e sim respeitado, e essa fórmula aqui se repete com a amizade que Watts e Kong formam, mesmo em meio ao terror e desespero que tomou conta dela no início do encontro. Com o domínio da técnica de CGI que fora aprimorada ao passar dos anos com suas experiências anteriores, a ponto de criar sua própria companhia de efeitos especiais, Jackson consegue entregar um trabalho não idêntico ao filme de Cooper, mas fidedigno, tanto que posso dizer que ele mesmo incorporou o espírito de Carl Denham em si próprio.

Vamos passear que hoje a cidade está vazia...

Vamos passear que hoje a cidade está vazia…

A megalomania o atingiu de tal forma que a versão final do filme possui incríveis três horas e vinte minutos. Muito se fez para se tornar um trabalho fiel e entendo este lado, mas ainda me pergunto o motivo para tanta história e enrolação que, em determinados pontos, se tornou enfadonho e desnecessário, haja em vista que a história de ambos os filmes é idêntica. Exemplo disso foi o desenvolvimento do Empire State Building que demorou “apenas” dezoito meses para ser concluída. Deu-se até ao luxo de chamar um amigo diretor, o Bryan Singer (Os Suspeitos, Superman: O Retorno) para dirigir a luta entre Kong e o T-Rex.

O filme de Peter Jackson está longe de ser ruim, mas para quem viveu o horror do daquela noite em 1933, está distante do espírito de terror, angústia e tensão que Cooper conseguiu transmitir, muitas das vezes, de forma realista e crua, em paralelo com o medo do desconhecido, do não convencional e do inexplorado.

Ainda este ano tenho a chance de revisitar o monstro em Kong: A Ilha da Caveira, e o ver como a criatura que me acompanhou a vida inteira envelheceu e, ao mesmo tempo, percebemos que o medo não vive sem o amedrontado, e a lenda passa de geração a geração, nos pesadelos mais íntimos de cada pessoa que ousa desafiar Kong.

 

Epílogo

 

Hoje, em meu leito de morte, vejo que King Kong fez com que pudesse ter uma outra visão do mundo e meu medo pudesse ser revisto. Lembro que em meados de 32 a 33, na rádio, algumas propagandas de sete minutos alertavam: “Cuidado com Kong! Kong está chegando” e eu, como jovem incrédulo que era, não acreditava que o medo fosse real e que minhas mãos ficassem trêmulas ao ver o curandeiro realizando a bênção para todos os convidados que adentravam o Royal. Vivi minha vida inteira em função do medo que senti ao ver Kong e talvez ele o tenha me mantido vivo por todos estes anos.

Clamo para que possa viver mais alguns dias apenas para revisitar A Ilha da Caveira, todavia caso não consiga, minha transição será em paz. Sei que ele, em algum lugar, também vive em função das pessoas que o lembram como o Rei dos Reis, A Oitava Maravilha do Mundo, o primeiro e único King Kong. Que este sentimento nunca morra e meu testemunho percorra o mundo para que as pessoas conheçam e compreendam o verdadeiro sentimento da inquietação, horror e aversão à um ser que pode ser descrito como um monstro ou simplesmente um espelho de nossos medos próprios.

Até mais ver, meu amor...

Até mais ver, meu amor…


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *