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Bibliofobia #25 – Passeio Noturno Vol. 1

Um rolê pelo horror brasileiro


Contos são narrativas complexas. Cada um deles deve se portar como uma grande novela condensada, passando sua mensagem da forma mais sucinta possível. Escrever contos é uma arte que nem todo o novelista domina. Então, quando encontramos uma coletânea dessas pequenas pérolas que nos agrada, precisamos dividir e falar sobre. Hoje, resenharei os oito contos que compõe a obra Passeio Noturno Vol. 1 do escritor Everaldo Rodrigues.

Coceira conta a história de Robert, um jornalista que vive plenamente o sonho médio. Bonito e bem sucedido, ele começa a ter complicações em sua vida no momento em que uma coceira passa a atormentar seus dias. Algo tão pequeno e quase irrisório será o motivo de sua desgraça. Esse conto é muito poderoso e causará um desconforto gradual no leitor. Uma atmosfera pesada e cronebergiana lentamente parece tomar conta da realidade do protagonista, mergulhando-o em um desespero inimaginável. O final nos guarda algo aterrador e que muito me remeteu as resoluções que Lovecraft, costuma dar a suas obras.

Em Tobey, lidamos com uma família que, após a perda de seu adorável cão, passa a lidar com estranhos acontecimentos sobrenaturais na casa onde residem. Esse conto em especial me causou sensações mistas. Ao mesmo tempo em que sentia que o terreno estava sendo preparado pelo autor, eu ficava achando que não, que era simplesmente um conto extenso que culminaria em um local comum e já muito visitado por inúmeros outros trabalhos que tem a temática de fantasmagórica. Para minha sorte, a primeira sensação prevaleceu, mostrando-me um final sufocante com elementos que estavam ali o tempo todo, bem debaixo do meu nariz. Aqui eu me surpreendi muito, pois depois de uma certa carga de leitura de um gênero específico, acabamos “blindados” e adotamos a ideia de que somos capazes de prever os próximos movimentos do autor. Admito que não fui capaz de ver aonde Everaldo me levava durante a leitura e fiquei muito feliz quando cheguei lá.

O envelope (ou “não pronuncie o nome de Deus em vão”) falará sobre um jovem que em um momento de descontração acaba se deparando com uma belíssima mulher. A dama o surpreende ao lhe entregar um envelope. Ao fazê-lo, ela o adverte nunca pronunciar os dizeres contidos dentro do invólucro. Como a curiosidade sempre é aquilo que nos trai, as palavras são repetidas e o rapaz colhe as consequências disso. Esse é um conto rápido, divertido e bem executado. De certa forma, acabei vendo-o como um interlúdio posto ali para dar fôlego ao leitor.   1412971855

Na sequência, Um barraco, um corpo, um galpão traz uma lenta caminhada até o destino trágico de uma turma de jovens. Cada um dos meninos que compõe o grupo acaba despertando a empatia do leitor de forma diferente. As vezes em uma atitude inteligente, as vezes em um comportamento precipitado. Mas o que fica desse conto é o peso emocional que ele vai ganhando enquanto vai tomando forma. Existe ali muito sobre o impacto que determinados traumas causam em nossas vidas e como aprendemos, ou não, a lidar com eles na medida em que vamos amadurecendo. Mais que um conto de horror, acredito que essa história tem como matéria prima mais evidente a própria vida. Além disso, o ritmo constante da escrita e bom desenvolvimento da história torna a curiosidade sobre o final insuportável e faz com que não paremos de ler. Seria, com certeza, meu conto favorito, se não fosse aquele que o sucede.     

O mendigo é de longe minha favorita desta coletânea. Aqui, veremos a trilha que levou um homem a um momento derradeiro de sua vida. Tudo começa de modo lento e aparentemente despretensioso no desenvolvimento do conto. O elemento de conflito, o mendigo que aparece e desaparece constantemente, surgiu para mim como causa estranhamento. Eu sabia que algo não estava correto com aquele homem, mas nada, nenhum tipo de leitura prévia, foi capaz de me preparar para o desfecho dessa história. Às vezes, no meio da leitura, me sentia ligeiramente cansado porém isso era rapidamente resolvido com o final de uma das quebras existentes no conto e o início da outra. Narrativa excepcional, cativante e surpreendente.

Na pequena novela O estranho caso de Casper Ville temos a volta de Clark para a sua cidade natal que vem sendo assolada por um gigantesco mistério. Seus moradores, em grande maioria idosos, estão assustados com casos de combustão espontânea que começaram a acontecer durante a noite. Esse é o mais longo trabalho que você vai encontrar dentro da coletânea e o que mais me remeteu a um outro autor. O modo como as personagens parecem estar plenas de convicção do que deve ser feito ou, no mínimo, instigadas a tomar parte do desenrolar da narrativa, me lembrou muito a forma como Stephen King costuma construir as relações entre suas próprias personagens. Outro aspecto que me remeteu ao ganhador do Troféu Golden do Hall da Fama, foram os saltos necessários entre o presente e o passado do protagonista e como isso levou ele inevitavelmente àquele momento. Gostei muito do modo como a história foi se desenvolvendo e dando a mim elementos que culminaram em sua resolução. Entretanto, fiquei ligeiramente incomodado com a velocidade com que isso aconteceu. Mas nada que tenha atrapalhado a leitura.

Condomínio Fechado foge um pouco do ritmo dos demais contos por ser extremamente veloz e repleto de ação. Eric, um segurança de um condomínio de luxo, está mais uma vez cumprindo seu monótono serviço. Tudo segue como sempre foi até que uma chamada de um de seus companheiros transforma aquela noite pacata em uma corrida pela sobrevivência. Gostei muito do desenvolvimento dos acontecimentos e pela estruturação da personalidade do protagonista. Simples, direta e verossímil.  

O conto que fecha o livro é Marimbondos. Vemos aqui André tendo que lidar com seus muitos problemas pessoais e, ao mesmo tempo, precisando acabar com uma colmeia de marimbondos que se alojou na varanda de sua casa.  Embora ache a velocidade dessa narrativa muito próxima a anterior, ela me soou ligeiramente menos crível. Talvez pelas reações do protagonista diante dos corpos que eram empilhados na frente de seus olhos, talvez pela minha incapacidade de imaginar a situação que estavam sendo descrita. Não sei ao certo. Mas, ainda assim, esse vale a leitura.

Ao final, tive a prazerosa sensação de ver que alguém que acompanho há algum tempo com certeza será um expoente do terror em nosso país. Passeio Noturno Vol. 1 é uma gratificante amostra do potencial de seu autor e do que nossa literatura é capaz.

Ficha Técnica:

Everaldo Rodrigues

Passeio Noturno vol. 1

2015

Editora do autor


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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