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Review 2017: #17 – The Love Witch

Filme de 2016, com rostinho de 1968.


Uma onda de saudosismo pairou na cultura pop nos últimos meses. Depois do lançamento da série Stranger Things ano passado, os throwbacks se tornaram cada vez mais presentes na arte num geral, como na literatura, nas HQs, na música e no cinema. Claro que, em se tratando do terror, isso não poderia ser diferente, afinal, temos aqui o gênero mais fluído e abrangente da sétima arte. Seus infinitos subgêneros, tão explorados ao longo dos anos, já deram suas caras e influenciaram muita coisa nova que surgiu: os slashers (como em The Windmill Massacre), os body horror (The Mind’s Eye) ou até mesmo pitadas de expressionismo alemão (The Eyes of My Mother). Seja com pequenas referências, daquelas que só o público mais aficionado vai notar, ou então com todos os elementos gritando na tela, esses filmes tentam remeter ao passado, mas nenhum deles é tão explícito e tão eficiente como The Love Witch.

Antes de falar sobre o filme, precisamos entender suas referências. O final da década de 60 e o começo da seguinte foi marcado por uma efervescência ocultista, oriunda dos jovens que haviam se cansado do lema “paz e amor” mas que ainda assim buscavam na espiritualidade certo consolo para seus infortúnios juvenis. Isso claramente se refletiu na cultura e na arte, influenciando bandas como Black Sabbath, Coven, sem contar o sem número de filmes lançados na época e que eram claramente inspirados em bruxaria e satanismo, como As Bodas de Satã ou o clássico O Bebê de Rosemary.

Paralelo a isso, o horror gótico ia muito bem, obrigado. A Hammer, um das mais importantes produtoras do gênero, foi responsável por substituir os Monstros da Universal da década de 50, sempre caricatamente deformados, por mulheres sensuais, voluptuosas e desnudas, que deram uma pitada generosa de erotismo pro terror. The Love Witch bebe dessas fontes e são justamente essas referências que fazem o diferencial nessa obra.

Bem, pra contar a história de uma bela mulher que se utiliza de artifícios obscuros para conquistar a admiração dos homens, nada mais apropriado do que termos uma representante do gênero na direção. A americana Anna Biller aproveita de sua vivência feminina para nos mostrar a personagem Elaine (Samantha Robinson, quase um cruzamento de Ingrid Pitt com Barbara Steele), que depois de ficar viúva, decide procurar na bruxaria algo que console seu coração partido. Fazendo poções, encantamentos e feitiços,  utiliza-se desses elementos e de sua submissão feminina para atrair a adoração dos homens que a rodeiam, sem se importar muito com as consequências desses atos.

Gótica nada suave.

Aparentemente envolvida na morte de seu marido, Elaine muda-se para uma pequena cidade, disposta a deixar seu passado para trás, mas já de cara se envolve com Wayne (Jeffrey Vincent Parise), um professor que morre após tomar uma de suas poções. Tentando se livrar do corpo, ela o enterra juntamente com um antigo feitiço de proteção, um frasco contendo urina, um OB usado, ervas e pregos. Mas é claro que acaba sendo investigada e, não obstante, nesse meio tempo se envolve com o marido de uma colega e também com o detetive responsável pelo caso. São justamente esses affairs que culminam em seu final derradeiro e poético.

O filme todo é uma crítica muito contida a sociedade patriarcal. Elaine é uma caricatura da mulher frágil e dócil, mas ao mesmo tempo ela revela que na verdade, esses subterfúgios são utilizados de forma proposital, com o intuito único de ter benefícios próprios. Vê todos eles como fracos, capachos, altamente manipuláveis, destilando misandria de forma velada, mas finge inverter esses valores para assim dominar os homens, fazendo com que na verdade eles acreditem estar no comando. Dessa forma, consegue deles sua principal fraqueza: o amor, já que ela mesma alega ser viciada nesse sentimento.

A estética e o visual são um desbunde aos olhos dos fãs de cinema de horror. Anna Biller fez pessoalmente o figurino de Elaine e objetos de decoração da película, que nos remetem automaticamente aos thrillers Technicolor setentistas de cores estouradas, além de toda um design de produção, misé-en-scene e figurino impecáveis.

Só nos damos conta de que é um filme lançado em 2016, e não uma produção da Hammer, quando vemos itens tecnológicos, como celulares, tamanha a imersão ao passado. Não há gore ou violência gráfica. Já nudez temos a rodo, mas não de uma maneira vulgar e apelativa, e sim totalmente condizentes com o enredo do filme. Passa longe de ser um filme de horror puro e genuíno, é verdade, e muitos irão torcer o nariz por isso, mas The Love Witch vale a pena ser assistido, mesmo que encarado somente como uma viagem no tempo.

 

3,5 pentagramas para The Love Witch

 

3

O nosso lema é misandria e alegria…

 

 


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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