Sings

Os sinais de Shyamalan

Repensando o longa por meio de um olhar “demoníaco”


Às vésperas da estreia de Fragmentado, novo longa de M. Night Shyamalan, e celebrando quinze anos do lançamento de Sinais, trabalho seminal do diretor, decidi revisitar a controversa obra acerca de alienígenas vulneráveis a água, abordando-a sob um olhar menos crítico e mais teórico e hipotético.

Há quatro anos, o usuário ZorroMeansFox do fórum de discussão reddit, levantou uma questão pra lá de curiosa a respeito do longa estrelado por Mel Gibson. E se, ao invés de alienígenas invasores, Sinais lidasse com um caso mais bíblico e, no lugar de extraterrestres, os antagonistas fossem demônios? Não metaforicamente, mas literalmente falando.

Considerando que a obra do autor é frequentemente perpassada por ambiguidades e manipulações de expectativa, um olhar questionador e imaginativo me parece condição sine qua non para uma melhor compreensão e exploração de seus filmes. O caso aqui não é diferente e, apesar de ter suas falhas, a teoria dos demônios é, no mínimo, uma desculpa para se rever a fita sob um olhar diferente, mais ativo e minucioso.

Aqui vai uma breve recapitulação do plot para os de memória curta: O ex-padre, então fazendeiro Graham (Mel Gibson) e sua família extensa composta de dois filhos, Morgan e Bo, (Rory Culkin e Abigail Breslin) e um irmão caçula, Merrill, (Joaquin Phoenix) se deparam com uma série de sinais inexplicáveis desenhados no milharal de sua fazenda. Seguindo-se ao surgimento desses sinais, ocorre o que aparenta ser uma invasão alienígena pelo mundo. Trancafiados e encurralados dentro de casa, os familiares confrontam tanto a ameaça possivelmente interplanetária como também seus próprios anseios e medos.

Uma das principais subtramas envolve o personagem de Gibson, um padre que perdeu a fé em Deus após a morte da esposa, mas que, ao final, se redime perante o Todo-Poderoso em meio às diversas provas que lhe são concedidas no decorrer da estória. Os alienígenas, por sua vez, são representados como humanóides camaleônicos dotados de dedos longos com garras, patas de bode, desprovidos de armas e/ou vestimentas, cujas naves especiais ninguém nunca viu e cuja principal fraqueza é o recurso mais comum e abundante do planeta: água. Foi seguindo essa linha de pensamento que o fã mencionado previamente elaborou essa proposição de que todos os sinais apontam para demônios e não ets.

"É um sinal de Deus." - "O que?"

“É um sinal de Deus.” – “O que?”

O primeiro encontro da família com um dos círculos criados na plantação se dá logo na primeira cena, em que os irmãos Morgan e Bo se perdem no milharal. Meio perplexo, o garotinho anuncia para o pai que aquele é um sinal de Deus. Tanto os personagens adultos, quanto nós espectadores somos levados a acreditar imediatamente que os símbolos têm alguma relação com o espaço sideral, simplesmente por ser um paradigma fortemente enraizado na cultura pop. As crianças ali são como uma tábula rasa, dispostas a acreditar em qualquer teoria, ao passo que os adultos têm suas próprias convicções, seja o vendedor que vê o caso como um marketing de empresas de refrigerante ou o militar que antevê uma invasão militar organizada.

A presença do divino é notada em todos os âmbitos de Sinais, partindo dos diálogos em si até a própria resolução do filme, que aponta para um universo sem espaço para coincidências, claramente organizado por alguma entidade maior, como veremos mais adiante. Mais uma vez cabe ressaltar que é exatamente esse tipo de informação que permite diferentes interpretações sobre o que se passa, indo além da ideia mais óbvia e aparente.

Um momento interessante, dentro dessa percepção, ocorre logo após a primeira matéria jornalística anunciar os círculos em várias plantações pelo mundo, Morgan chega à uma conclusão que é omitida pelo jornalista e exclama: “Extraterrestres!”. A oficial Paski, em contrapartida, responde imediatamente com um: “O que, em nome de Deus, está acontecendo?”. Daí em diante, a maioria das informações que nos são fornecidas sobre o que se passa no mundo advém de Morgan, um garoto de uns 10 anos com um livro sobre invasão alienígena.  

Em outro momento, o veterinário Ray (Shyamalan em pessoa), conversa com Mel Gibson pela primeira vez sobre o acidente que matou a esposa do mesmo. Ele então diz: “Eu acho que se esse é o fim do mundo, eu estou fodido, né? Pessoas que matam esposas de reverendos não costumam ser colocadas no começo da fila pro céu.” Não é por acaso que  Ray foi um dos primeiros a ter um contato imediato com os invasores extraplanares, prendendo-o em sua própria casa. O mesmo diabrete-especial que aparece para Ray, reaparece na cena final, com Morgan nos braços e é confrontado por Merril. Metaforicamente, podemos entender a recorrência desse alien em particular como sendo um “demônio” compartilhado por todas essas pessoas: a morte da mulher/mãe Colleen Hess.

"Está lá atrás, lá atrás da garagem, IS BEHIND!"

“Está lá atrás, lá atrás da garagem, IS BEHIND!”

Um dos elementos chave na teoria dos demônios é baseada em um outro trecho, em que o reverendo Graham conta para a filha Bo sobre o momento de seu nascimento: “Você saiu da sua mamãe e nem sequer chorou. Você só abriu os olhos e olhou em volta, pra todo mundo. Seus olhos eram imensos e maravilhosos. Todas as mulheres na sala arquejaram, literalmente arquejaram e então disseram: “Ela é como um anjo” e “nós nunca vimos um bebê tão lindo”. E então, você sabe o que aconteceu? Eles te colocaram sobre a mesa para te limpar, você olhou para mim e sorriu. Me disseram que bebês tão novinhos não conseguem sorrir.”

A pequena Bo, interpretada por uma irreconhecivelmente jovem Abigail Breslin, possui certas peculiaridades: a aparência angelical, o sorriso impossível, sensações premonitórias, um curioso hábito de deixar copos com água pela metade por todos os lados da casa, o que acarretou em uma transformação do local na armadilha mortal, o que em última instância permitiu que derrotassem o invasor quando o confronto final se deu. Não é surpresa alguma que o cachorro ensandecido tenha tentado matar a pequenina (possessão demoníaca, ao melhor estilo Cujo). A letalidade da água para aquelas criaturas levantou o que muitos consideram como um dos grandes furos e uma falha imperdoável em Sinais. Como poderia uma espécie avançada entrar em um planeta cuja superfície é 70% extremamente venenosa, sem o menor auxílio de equipamentos ou armas? O quão estúpidos teriam de ser esses ETs?

Pois bem, em momento algum é dito que a água em si foi a responsável pela derrocada dos invasores. Além da experiência da família Graham, a única informação revelada é de que três cidades do Oriente Médio encontraram uma forma primitiva de enfrentar esses inimigos. Por que não três cidades europeias, africanas ou asiáticas? Muito provavelmente porque o Oriente Médio é o berço do cristianismo e esse método primitivo seria algo religioso, ou pelo menos essa é uma das teorias. Seguindo por esse caminho, é plenamente possível considerarmos Bo como uma criança realmente angelical, que abençoava toda a água que bebia. Basicamente, então, os aliens-demônio teriam sido derrotados por água-benta.

O caso ainda pode ser feito em favor dos alienígenas, especialmente se explorarmos a ideia das luzes que pairam sobre o México e outras centenas de cidades pelo mundo. Os sinais nas plantações seriam um sistema de navegação para essas espaçonaves. Há ainda o relato de Merrill sobre um pássaro que teria colidido em pleno ar com uma barreira invisível no local onde as luzes haviam sido avistadas. E ainda temos os desenhos nas plantações e etc e tal. Mais uma vez, estes são relatos explicados sob a teoria mais óbvia, mas ninguém nunca vê OVNI algum, apenas luzes provenientes de fonte desconhecida.

No texto em que propõe essa interpretação, ZorroMeansFox diz que os demônios seriam semelhantes às figuras brincalhonas e traiçoeiras descritas na idade média. Os desenhos nas plantações provavelmente eram uma brincadeira, uma distração, o que não é lá muito convincente, certo? Mas claro, vale lembrar que  o título “Sinais” funciona tanto como referência aos desenhos, como aos sinais da presença divina na vida daquelas pessoas.

Demônios brincalhões ou alienígenas estacionando aeronaves?

Demônios brincalhões ou alienígenas estacionando aeronaves?

A existência desse design superior que acompanha os Hess é um dos traços mais marcantes aqui. Uma cadeia de eventos se constrói minuciosamente, especialmente a partir da morte da mãe, para que a família pudesse sobreviver: os copos de água de Bo, a asma de Morgan, o taco de baseball de Merrill. Não há um ponto sem nó, tudo está interligado e é citado em algum momento, para que as coisas aconteçam dessa maneira. Os sinais estão por todos os lados. Nas mãos de um diretor-roteirista menos competente, essa informação distribuída ao longo da projeção poderiam muito ser consideradas como excesso de informação. Mas nas mãos de Shyamalan, não há dúvidas de que se trata de uma tapeçaria de eventos muito bem costuradas.

Talvez o texto mais importante de todo o filme seja o monólogo de Graham, ao ser interpelado por seu irmão sobre o ceticismo frente aquela situação aparentemente apocalíptica.

As pessoas se separam em dois grupos. Quando elas experimentam um momento de sorte, o grupo número um vê isso como algo mais que sorte, mais que coincidência. Eles veem isso como um sinal, uma evidência, de que há algo lá em cima, olhando por eles. Grupo número dois vê a mesma coisa como pura sorte. Apenas um acaso feliz. Eu tenho certeza de que essas pessoas do grupo dois estão olhando para essas luzes de maneira suspeita. Para eles, essa situação é 50-50. Pode ser ruim ou pode ser boa. Mas lá no fundo, eles sentem que aconteça o que acontecer, estarão por conta própria. E isso os enche de medo. Sim, existe essas pessoas. Mas há um tanto de gente no grupo um. Quando eles vêem essas quatorze luzes, elas estão olhando para um milagre. E, lá no fundo, elas sentem que aconteça o que acontecer, haverá alguém lá em cima intercedendo por elas. E isso os gente de esperança. O que você tem de se perguntar é, que tipo de pessoa é você? Do tipo que vê isso como um sinal, um milagre? Ou você acredita que alguns simplesmente tem sorte? Ou ainda, pense da seguinte forma: É possível que não existam coincidências? 

Em resumo, Sinais é construído de forma com que seja possível enxergá-lo em seus contornos mais básicos, ao mesmo tempo que possibilita interpretações menos literais, dependendo daquilo que cada um opta por enxergar: um milagre ou o acaso. Tudo que é preciso fazer é questionar as certezas e os paradigmas, e esse é tema recorrente na obra do indiano. Se esse mal veio do céu ou do inferno, só o próprio Shyamalan poderá dizer, mas assistir um de seus longas com um olhar diferente é sempre uma experiência divertida.

Momento CUJO

Momento CUJO


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. Dani Vidal disse:

    Wow
    Que teoria interessante!!!!! Mesmo que não seja nada disso, acho que casa muito bem com o filme.

  2. shirley paiva disse:

    Adorei esse ponto de vista diferente. Com certeza existe paradigmas e interrogações aparente.

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