Unbreakable-DI-3

TBT #02 – Corpo Fechado

O público médio naqueles idos não estava preparado para a melancolia pungente do filme


Certa vez há alguns anos eu estava em uma loja e ouvi dois adolescentes conversando:

– Eu gosto muito dos filmes do M. Night Shyamalan.

– Eu também!

 

– Menos de Corpo Fechado. Ele é muito sombrio, arrastado e deprimente.

True story, contada pelo próprio diretor na coletiva de imprensa em sua passagem pelo Brasil para a divulgação de Fragmentado, seu novo hit que chega hoje às telas de cinema. Por que ele fez essa referência ao seu “filme de super-herói que não é filme de super-herói” lançado no longínquo ano 2000?

Para explicar como o mundo ficou FODIDO nesses últimos 17 anos, muito por conta do famigerado 11 de setembro, e como naqueles idos, o público que ia ao cinema não estava preparado para a melancolia pungente de Corpo Fechado e não reagiu tão bem ao seu lançamento, mesmo com toda a expectativa cercando o próximo trabalho do diretor de O Sexto Sentido – e que foi vendido de uma forma completamente errada pela campanha de marketing – e hoje, um longa pesadíssimo sobre um psicopata com múltipla personalidade, com doses de sequestro, abuso sexual, canibalismo, entre outros, faturou mais de 256 milhões de dólares na bilheteria mundial.

Shyamalan faz uma mea culpa, mas também pondera que aquele espectador médio não estava preparado para uma jornada de herói tão densa e melancólica como a de David Dunn, e isso inclui aí os tais adjetivos: sombria, arrastada e deprimente, usados pelos dois adolescentes. “O público queria ir ao cinema ver algo cheesy e poder aplaudir o filme ao seu final”, explica.

Por mais que Corpo Fechado até conclua de forma positiva na batalha do bem sobre o mal, o caminho tortuoso do personagem até chegar a sua redenção e busca pelo que lhe define ao abraçar a sua condição, passa por uma atuação taciturna ao extremo de um Bruce Willis que acorda sentindo uma tristeza inexplicável todas as manhãs, sem entender seu lugar nesse mundo, de forma resignada, tomado pela prostração.

Duro de matar. Não, pera...

Duro de matar. Não, pera…

Assistir Corpo Fechado está anos luz longe do brilho dos quadrinhos e da explosão colorida pop que a Marvel estabeleceria nos cinemas nos próximos anos. Ele é um filme contido, depressivo, repleto de introspecção, takes longos com economia na edição, trilha sonora copiosa de James Newton Howard e com uma série de cenas em plano sequência (um dos fetiches do diretor), sendo algumas delas brilhantes, como: o diálogo de Dunn com a mulher no trem, visto sob o POV da criança de ponta cabeça no banco da frente; ou a conversa com o médico enquanto em primeiro plano, o corpo cirúrgico tenta salvar o outro sobrevivente do descarrilamento fatal que vai ensopando o lençol de sangue; ou quando o pequeno Jospeh Dunn pega a arma do pai para atirar nele e provar que de fato possui super-poderes, em uma cena de atacar a gastrite de tanto nervoso. Tudo sempre dirigido de forma clínica e sóbria por Shyamalan.

O herói ficcional, alçado acidentalmente a essa situação mesmo sem as qualidades para tal, é gente como a gente, cheio de defeitos, problemas e desvios. Falho, deprimido, tem um emprego enfadonho de segurança em um estádio de futebol americano universitário, vive uma crise conjugal às beiras da separação, nunca conseguiu grandes feitos em sua vida medíocre e conformada, sem propósito em levantar da cama de manhã. Ver essa retratação fidedigna da realidade incomoda, entristece, ainda mais da forma morosa e miserável com que Shyamalan conduz a história. Mesmo com o final esperançoso e o plot twist final – onde o vilão acredita piamente que os fins justificam os meios – ao terminar a projeção, a sensação ainda é pesada, incômoda.

Corpo Fechado faturou 249 milhões de dólares, sendo que desse montante, apenas 95 milhões foram arrecadados na bilheteria doméstica, exatamente os EUA afoito por filmes cheesy, o que fez com que Shyamalan milimetricamente desenvolvesse seu próximo longa, Sinais, de uma forma completamente diferente: mais claro, diurno, mais família, mais esperançoso, com toques de humor e pregação carola, dando ao público aquilo que ele queria no momento, como ele mesmo explicou na coletiva. Resultado? Mais de 400 milhões de bilheteria mundial, onde mais da metade (227 milhões, para ser mais preciso) vieram da Terra do Tio Sam. Coincidência? Acho que não.

Mas o que deu errado com a humanidade que não abraçou Corpo Fechado no começo do século mas foi arrebatada por Fragmentado? Tá certo que a diferença entre ambos os filmes é gritante em diversos aspectos, mas o que aconteceu, além do 11 de setembro, foi o medo do próximo que pauta o moderno cinema de terror, somado com a explosão de raiva, violência, intolerância, racismo, xenofobia, fundamentalismo religioso, abuso, diminuição das interações sociais e aumento da alienação. São em tempos sombrios e desesperançosos como esses em que vivemos que o cinema de horror se destaca, pautado pelas fobias da sociedade, e consegue extrair o que ele tem de melhor em termos criativos e de criação de conteúdo cinematográfico. Só ter como exemplo a produção autoral de gênero nos anos 70, que explodiram a brutalidade e pessimismo refletindo o caso Watergate, a derrota no Vietnã e o fim do american way of life.

E só para finalizar, antes dos questionamentos sobre “Corpo Fechado não ser um filme de terror, então o que diabos uma análise sobre o mesmo está fazendo nesse site” (sei que isso passou pela sua cabeça…) – e de fato ele não é – só quis contar uma história sobre o encontro com M. Night Shyamalan para meus leitores e me aprofundar um bocadinho nesse tema, além da sua correlação com Fragmentado do ponto de vista de uma análise sociocultural, onde o simpático cineasta indiano voltou finalmente à sua velha forma, dirigindo um filme terror.

Num tem do Nick Fury?

Num tem do Nick Fury?


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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