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As identidades dissociativas no cinema

As ambiguidades  e o drama vividos pelo hospedeiro, ou o nascimento de um monstro nas telas


“É como se as pessoas buscassem uma identidade para si mesmas. Estranho, pois todos demonstram uma personalidade forte. No fundo têm vários eus.”

Aijalom Wagner

 

Pessoas são estranhas, já diria Jim Morrison. Vejo-as pelas ruas, tentando demonstrar o que não são, o que gostariam que fossem. Será que todos possuem uma dupla personalidade ou até mais? Será que ela tenta se adaptar aos locais ou ambientes em que convive e para cada um deles demonstrar um alter-ego?

Abaixo meu depoimento com algumas obras de meus pacientes – pois listar todas seria impossível – sobre esta abordagem filosófica do constante desenvolvimento e busca pela perfeição ou liberdade total do ser humano, mesmo que esta seja perigosa e mortal.

Capítulo 1 – A fuga da realidade

Antes conhecida apenas como dupla personalidade, o transtorno dissociativo de identidade, ou TDI, é uma doença que se caracteriza pelo paciente possuir duas ou mais personalidades. Ela inicialmente é inofensiva, a não ser que seu subconsciente seja um pouco mais obscuro do que imagina ser.

Em O Estudante de Praga, um jovem vende sua imagem para um demônio e sua vida, por conseguinte, começa a ser arruinada por seu eu maligno. Seria obra do inimaginável mundo mágico ou apenas um modo de libertar a persona que no fundo é o seu verdadeiro eu? Questões filosóficas se põem em prática neste clássico atemporal de Paul Wegener e Stellan Rye que, em 1913, levantam a questão de como uma pessoa considerada normal pode extrapolar o inesperado e se tornar alguém irreconhecível. O ser interior está em todos nós, prestes a ser libertado a qualquer momento, ou alguma situação faz com que a personalidade seja despertada?

Será que me vejo logo ali?!

Será que me vejo logo ali?!

Roman Polanski traça este paralelo muito bem O Inquilino, onde conta a história de um rapaz muito simpático, mas que, após se mudar para um pequeno e confortável apartamento, descobre que um acidente anterior hospitalizou por tempo indeterminado a moça que morava no local e isso se torna a faísca que faltava para que o homem entre num colapso nervoso. Mesmo sem conhecê-la, se entrega a uma trama que não a pertence, mas que pode ser determinante para se auto-descobrir e traçar o rumo de sua vida, para o bem ou para o mal.

A tragédia também vêm à galope em A Janela Secreta, onde um escritor, triste e abalado com o complicado relacionamento com sua esposa, vive um dilema onde praticamente se vê dentro de uma história própria. Seria ele espelhando seu eu interior ou a obra dominando seu criador? A saúde mental é insegura e frágil, onde qualquer ponto insignificante na vida pode se tornar o início da degradação do ser humano, ou seu completo renascimento.

A crise de identidade batalha dentro de si para libertar o ser mais forte que há, sendo este maléfico ou não para o hospedeiro. Este confronto interno pode-se dizer que seja a auto-análise, aquela que de vez em quando olhamos para dentro de nós e fazemos as mais variadas perguntas para que possamos ser pessoas melhores. Nestas chamadas crises existenciais, desejos antigos, esquecidos ou desconhecidos, vêm à tona e você traça um paralelo para o que é e o que gostaria de ser.

A Identidade é muito particular e metafórica, no caso da TDI apresentar um diagnóstico das múltiplas personalidades e suas batalhas interiores sobre qual tomará o controle da persona, pois sempre gostaríamos de ser outras pessoas em outras situações, outras vidas. Como querer nem sempre é poder, viajar pelo interior de nós mesmos faz com que o irreal se torne uma verdade. Gratificante, porém perigoso ao nosso consciente e nocivo ao que chamamos de realidade.

Como já dizia Platão: “Vivemos no mundo do irreal onde tudo o que vemos é somente uma sombra imperfeita de uma realidade mais perfeita.” Decifrar códigos e buscar a verdade nem sempre é o melhor a se fazer. Teddy Daniels em A Ilha do Medo é que o diga. Libertar o segundo ‘eu’ pode ser a saída para enxergarmos a verdadeira realidade, mas também pode ser o primeiro passo para o profundo abismo da eterna incerteza.

Venha, meu gêmeo: vamos decifrar este enigma!

Venha, meu gêmeo: vamos decifrar este enigma!

Os desejos mais amargos estão guardados talvez num local nunca explorado por nós. Mais do que uma fuga da realidade, a personalidade escondida pode-se mostrar quem realmente sempre quisemos ser, ou na pior das hipóteses, um violento e sanguinário assassino!

Capítulo 2 – Ego mortal

A que ponto o ser humano pode chegar desejando o mal ao próximo? Creio que não há limites. Toda e qualquer ação violenta já foi premeditada em algum momento, seja de forma consciente ou não. Às vezes você pode pensar em alguma tramóia de forma inusitada, mas, com certeza, este plano ficará escondido em sua mente e, quando menos esperar, seu(s) alter-ego(s) tomará(ão) conta de todo seu corpo.

A Metade Negra é a melhor definição da sombria personalidade que escondemos. Aqueles pensamentos promíscuos, perversos, doentios e impróprios que acabamos ignorando acabam por nascer de forma súbita e violenta, na evolução da forma mental para a forma física, dando a liberdade de fazer o que quiser a hora em que bem entender, ignorando as noções de moral, deixando o id extravasar.

Pude perceber em Alta Tensão que o desespero de uma moça em fugir de um maníaco homicida era assustador . A batalha não era travada apenas por sua vida, mas sim por sua índole, sua pessoa interior e seu futuro. Talvez fosse um desejo íntimo que apenas tomou seu lugar de direito, ou um pensamento longínquo e abandonado. Assim como em Dia dos Namorados Macabro, o ponto chave é algum trauma passado que sempre assombrou e pairou sobre as pessoas e figurou seus pesadelos mais temíveis. Entendo como pode ter sido difícil passar por situações traumáticas, mas algumas pessoas escolhem – ou deixam-se ser vencidas – o caminho sombrio e decidem dar vida ao monstro.

Há quem se adapte ao segundo eu e consiga conciliar os momentos bons e ruins, gostando até de suas obras e artes. Não há quem duvide do requinte de crueldade ou perversidade de certas pessoas, mas pode-se botar em cheque a motivação ou apreciação de seus crimes. Norman Bates em seu momento de Psicose é algo tão impactante que não há como defendê-lo de seus atos, mas há quem os possa admirá-los, como Brian de Palma e sua linda homicida em Vestida para Matar, exemplo gritante de transtorno de personalidade.

A serenidade no olhar de quem vive com dois na boa...

A serenidade no olhar de quem vive com dois na boa…

Ter esta segunda pessoa dentro de si, pedindo para sair, é como tentar segurar um leão numa jaula de gatinho persa. No momento da raiva, aquele milésimo de segundo em que mil coisas maléficas vem à tona, pode se tornar o ponto de ignição para que aflore a aberração que tanto odeia mas que, se feita uma auto-análise, era o que sempre desejou mas nunca teve coragem de admitir. Às vezes, pode ser um fator químico o reagente da explosão dessa outra personalidade enterrada nas profundezas da psique humana.

Todos nós passamos por momentos dramáticos na vida, mas alguns tendem a sucumbir às tentações do maligno ou apenas aceitar seu destino e começar uma nova vida de terror.ida esta que sempre almejou.

Capítulo 3 – A verdade que desconheço

Sempre olhar e falar de terceiros foi fácil pra todo mundo. Seja sobre situações banais do dia-a-dia ou assemelhadas à nossa própria vida. Apontar o dedo e julgar quem quer que seja é muito mais cômodo quando, na verdade, o problema está em nós mesmos.

Minha experiência é prática. Não consigo nem tentar ser outro alguém, até porque eu mesmo já sou dois…

 

… e me dou conta de que vejo meu reflexo à poça de sangue. Vejo meus olhos, sombrios e profundos, sem nada a dizer e sem nada a entender. Levanto minha cabeça e olho ao redor uma sala cheia de corpos e minhas mãos ensanguentadas; mãos com as quais escrevi este relato nas paredes do cômodo cheirando a morte.

Um estalo e minha cabeça decai ao lado tão rápido quanto um piscar de olhos e percebo que sentado estou numa cela acolchoada. Um sorriso nasce de forma ingênua e natural. Não me encontre em seu caminho, torça para que isso não aconteça. Um eu que ainda não conheço pode ser fatal, tanto para mim quanto para você. Meu nome é Mr. Hyde e ainda busco pela meu lado bom que acredito não existir.

'O mundo fez eu libertar o monstro que estava preso em mim...'

‘O mundo fez eu libertar o monstro que estava preso em mim…’


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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