Devil_in_the_Dark_01

Review 2017: #19 – Devil in the Dark

Todo drama familiar é beneficiado pela inclusão de uma besta-fera mitológica fortemente nervosa.


“A magreza do Wendigo evidenciava sua emaciação, com sua pele desidratada firmemente puxada contra sua ossatura. Com seus ossos sendo forçados contra a pele, sua compleição na cor de cinzas e olhos empurrados para o fundo de suas órbitas oculares, o Wendigo se parecia com um esqueleto recentemente desenterrado de seu túmulo. Os lábios que tivera eram rasgados e sangrentos [….] Sujo e coberto de pústulas na carne, o Wendigo exalava um estranho e macabro odor de decadência e decomposição, de morte e corrupção.“

Basil Johnston, professor de Ojibwe em Ontario

É dessa forma que Basil Johnston descreve o Wendigo, criatura oriunda da mitologia nativo-americana e o demônio título de Devil in the Dark. Pertencente ao folclore dos povos Algoquianos, – que compreende uma enorme quantia de tribos nativas do continente norte-americano, especialmente da porção que contorna os grandes lagos e o litoral atlântico  – o Wendigo seria um humano corrompido pela prática de canibalismo, assassinato ou mesmo ganância desmedida, que se transforma em uma fera grotesca ou é possuído por um espírito maligno, em ambos os casos perdendo sua humanidade e tornando-se uma monstruosidade. Existe até uma síndrome psiquiátrica relacionada à prática da antropofagia, chamada de Wendigo Psychosis!

Já estampado no cartaz do filme, temos uma variação de tal monstro, que remete à sua representação mais recente e notável na cultura pop: contornos pretos, olhos vermelhos e com uma galhada de chifres de cervo, buscando inspiração total no Wendigo retratado na série Hannibal, nas visões de Will Graham. Apesar de ausente na descrição de Johnston, os chifres de cervo são característica recorrente nas aparições da fera, que varia em graus de humanidade. Essa referência está limitada ao cartaz, já que no filme em si a besta-fera possui alguns contornos mais característicos da lenda como descrita na passagem acima.

Devil in the Dark é um longa canadense comandado por Tim Brown, diretor pouco experiente mas versado na arte da produção, inclusive com alguns títulos de terror na bagagem. O roteiro fica por conta do estreante Carey Dickson, que também faz uma migração de outra área da produção de cinema e televisão.

A trama é centrada inteiramente na relação de dois irmãos, Clint (Dan Payne) e Adam (Robin Dunne), que buscam se reconectar após Adam ter se afastado por anos em decorrência de dificuldades no trato com o próprio pai. Para alcançar esse objetivo, embrenham-se na floresta para uma semana de acampamento e caçadas, aventura que termina com uma inversão nos papéis de caça e caçador. Conforme a situação dos irmãos na floresta se complica, memórias da infância de ambos vem a tona, construindo as particularidades dessa relação conturbada.

Participação especial de Kenny, diretamente de South Park

Participação especial de Kenny, diretamente de South Park

A cena de abertura do filme consegue encapsular muitas coisas que serão recorrentes ao longo de sua duração: pai e filho mais velho correm desesperados pela floresta escura, com uma iluminação quase nula proveniente de uma lanterna fraca, procurando pelo filho caçula que se perdeu. Encontram-no sozinho em uma clareira, observando em estado hipnótico a escuridão que se estende por entre as árvores. O labirinto de árvores sem iluminação suscita um medo primordial de vulnerabilidade e isolamento, que aqui é reforçado pelo pavor de se perder um ente querido – uma criança, mais especificamente -, para aquele ambiente hostil. Para o pai e para Clint, o primogênito, aquela fatídica noite na floresta foi apenas uma experiência muito ruim. Em contrapartida Adam presenciou o  sobrenatural que criou raízes profundas em seu inconsciente, permanecendo por lá durante toda sua vida e aflorando apenas com o retorno à essa floresta.

Após esse pequeno prólogo, há um salto temporal que nos leva para um futuro em que Clint e Adam são adultos e seu pai já bateu as botas. O mais velho seguiu todos os passos do pai, tanto em sua vida profissional, quanto familiar, mantendo até os mesmos hobbies. Já o mais novo distanciou-se por completo, assumindo uma vida que nos é mantida em segredo. Adam se reaproxima do irmão propondo uma viagem para aquela mesma floresta onde havia se perdido na infância, acreditando que aquela seria uma oportunidade de resolver conflitos do passado. No entanto, é uma força mais sombria, que se manifesta em seu inconsciente, que o faz voltar para aquele local ermo.

Uma porção considerável da projeção limita-se aos dois personagens interagindo conflituosamente durante a viagem, momentos esses intercalados por flashbacks que constroem um pouco mais dessa dinâmica durante a infância. A intenção aparenta ser construir gradativamente esse relacionamento, de forma a causar o maior impacto possível para o final, propósito alcançado, mas não sem vários percalços.   

O desenvolvimento dos dois personagens em uma convivência isolada é deveras repetitivo, caindo sempre nos mesmos questionamentos e provocações, onde o irmão mais velho acusa o caçula de não estar presente, enquanto o mais novo responsabiliza o pai falecido por todos os problemas. Além da repetição desse motivo, todos os pormenores de Adam são bizarramente omitidos, de forma que é impossível criar o vínculo esperado com o personagem. Os detalhes sobrenaturais que o cercam são justificáveis enquanto mistério, mas outros detalhes de personalidade são ocultados, deixando-o um personagem oco.

Esses dois elementos tornam o miolo do filme uma experiência lenta e arrastada, que parece não chegar a lugar algum, como se a floresta em si fosse um limbo existencial de onde só conseguiriam sair após lavar toda a roupa suja necessária. Considerando o quão difícil é encontrar um filme de horror contemporâneo com uma preocupação do tipo, de estabelecer um drama de personagens profundo e significativo, com boas performances, resta uma sensação de desapontamento com Devil in the Dark.

Floresta adentro, no alto de um platô, os irmãos se deparam com uma caverna cuja entrada fora adornada por incontáveis chifres de cervo, semelhantes ao do próprio Wendigo. Lá dentro vive a criatura monstruosa, que emite um urro de gelar a espinha e se locomove pela mata como se o chicote do demônio estalasse em seu lombo. Pouco se explora em relação à idéia do canibalismo ou da perda de humanidade. A impressão é de que a confusão e o rancor nutrido pelos irmãos os deixam suscetíveis a presença dessa força das trevas, que hora se manifesta na forma de um Wendigo bastante assustador, outras se manifesta por meio de possessão, sempre enfatizando o aspecto trevoso da criatura e daquele planalto macabro no meio da floresta.

Fortemente centrado em seus personagens, Devil in the Dark proporciona uma atmosfera envolvente, utilizando-se de tomadas aéreas e vários planos que destacam o isoladamente e a grandiosidade da floresta, que existe como um limbo existencial habitado por uma criatura diabólica. Peca na repetição e na perda de ritmo durante os momentos mais dramáticos, mas ainda mantém-se um filme interessante para os mais pacientes.

3 tiros de espingarda para Devil in the Dark

Violando o habitat natural de criaturas infernais

Violando o habitat natural de criaturas infernais


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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