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Review 2017: #20 – Bodom

Inspirado em uma história real, que inspirou uma banda de metal


Em 1960, um grupo de quatro jovens decidiu acampar ao redor do Lago Bodom, localizado à alguns bons quilômetros de Helsinki, capital da Finlândia. Já antecipando a cartilha slasher introduzida em Sexta-Feira 13, o tal acampamento no lago transformou-se em uma das tragédias mais notórias do país, quando três, dos quatro jovens, foram brutalmente assassinados.

O único sobrevivente chegou a ser acusado dos crimes, mas foi inocentado em última instância, deixando o caso sem solução até hoje. Se aqueles jovens haviam deixado o pobre Jason Finlandês morrer afogado e foram mortos pela versão escandinava de Pamela Voorhees, nunca saberemos, mas o caso permanece um assunto de interesse por lá. Os fãs de metal talvez conheçam um pouco sobre o caso, através da banda Children of Bodom, que já carimbou alguns filmes de terror em suas canções, com referências a It – Uma Obra Prima do Medo, O Exorcista 3 e Psicopata Americano.

Em 2014, o site Bloody-Disgusting publicou uma matéria que trazia o título: “Será que o Bodom irá revolucionar o slasher?”. A primeira matéria divulgada sobre o filme em questão trazia um tom de ousadia maior que do menino Neymar. Seria possível revolucionar um subgênero estabelecido há quase 40 anos, que viveu seu ápice nos anos 80 e que foi parodiado, ressuscitado e destrinchado várias vezes, entre Pânico e O Segredo da Cabana?

Entre 2016 e 2017, Bodom finalmente ganhou as telonas em cinemas de seu país de origem, depois  festivais, até enfim cair nos tentáculos internéticos do VOD e da pirataria, sendo rebatizado como Lake Bodom em alguns cantos. Dirigido por Taneli Mustonen, que assina o roteiro ao lado de Aleksi Hyvärinen, esta belezura não é nenhum Chê dos filmes slasher, mas consegue torcer o gênero de formas interessantes, com pontos altos e baixos.

O primeiro ato do longa reproduz diversos artifícios comuns ao subgênero, o que, apesar de bem feito, tornou-se um demérito acidental. Um grupo de jovens resolve ir acampar no lago, onde outrora ocorrera a tragédia. Lá, em meio aos comportamentos tipicamente adolescentes, um assassino misterioso surge brutalizando geral, esfaqueando e derramando muitos e muitos litros de sangue. Alguns dos personagens morrem relativamente rápido, mas tudo é justificado no primeiro plot twist, que se dá na metade da projeção.

"Ele falou que não ia mostrar os nudes pra ninguém"

“Ele falou que não ia mostrar os nudes pra ninguém”

O problema é que, até compreendermos essa reviravolta e esse jogo de expectativas, somos apresentados ao mesmo grupo de adolescentes irritantes em um contexto superexplorado em outros trabalhos. Por mais que, em um momento posterior, fique claro que se trate de uma repetição intencional daquelas características batidas, a experiência em si continua sendo: assistir um um grupo de adolescentes irritantes em um contexto superexplorado em outros trabalhos. Isso é muito semelhante ao que senti em O Segredo da Cabana, filme no qual a grande reviravolta e os minutos finais não compensam a banalidade do resto – intencional ou não.

Mantendo minha política de não trabalhar com spoiler nas críticas, não entrarei em detalhes sobre o que acontece nesse ponto, mas posso dizer que foi uma transformação muito positiva e surpreendente, no sentido de realmente subverter todas as possibilidades levantadas até ali. Voltando ao lance da revolução, fica a impressão de que essa virada de mesa seria responsável por tal proeza. A despeito de quão legal tenha sido esse momento, não creio ser possível caracterizar um filme como vanguardista, inovador, barroco, etcetera, por conta de uma reviravolta na trama. Nesse âmbito, fitas como Você é o Próximo e o já supracitado O Segredo da Cabana foram muito mais bem sucedidos.

Dentro de Bodom há um tema bastante interessante que parece guiar a ação dos personagens até certo ponto, que é a consequência da superexposição em mídias sociais (tipo, vazamento de nudes). Da mesma forma que, lá nos anos 80, a AIDS era reinterpretada com o assassino que mata os jovens que transam, aqui parece haver uma atualização de temas. A suposta final girl – moça certinha e de família, teve a vida arruinada após alguém divulgar nudes dela, o que coloca em movimento toda uma cadeia de acontecimentos, com desdobramentos violentos, reforçando a ideia da banalização da imagem e da vida. Outro terror recente que abordou essa questão da imagem foi Amizade Desfeita.

Estão lembrados do plot twist que mencionei ainda há pouco? Pois então, já na reta final, ocorre um novo revés, igualmente inesperado, que puxa a trama em um outro caminho. E a própria conclusão tenta aplicar uma última guinada, buscando conectar-se ao caso real. O resultado final acaba sendo ligeiramente confuso e corrido, sem que haja tempo para amarrar as pontas soltas. Algumas ideias se perdem, outras não recebem a devida atenção… Bodom não apenas torce o sub gênero ao qual pertence, como também distorce a si próprio.  

Apesar disso, os finlandeses pareceram satisfeitos com o trabalho, que chegou a ser chamado de o primeiro filme de terror daquele país a alcançar os padrões norte-americanos do gênero. Um dos principais motivos para isso é a fotografia muitíssimo bem trabalhada, que traz imagens escuras porém belíssimas, chegando a ser hipnotizante. Uma sequência em particular, envolvendo uma perseguição automobilística, parecia saída de um videogame de última geração, de tão maravilhoso.

Mas como bem sabemos, é a beleza interior que importa e nesse aspecto, o Bodom peca um tanto quanto muito.

3 adolescentes mortos para Bodom

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Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. Neto Ribeiro disse:

    [SPOILER]
    Eu achei mediano. A história seria bacana se não tivessem dado atenção demais para aquele plot twist no meio do filme (tomando muito tempo com os dramas das duas) – e que acabaria ficando em segundo plano no final. Se tivesse adiantado o segundo plot twist, daria um filme melhor.

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