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Review 2017: #21 – The Girl With All the Gifts

Meio zumbis e meio John Wyndham


O cinema zumbi é um troço complicado, principalmente nesta última década. Desde 2010, quando The Walking Dead chegou às telinhas e elevou o monstro canibal putrefato ao status de “novo ícone do terror na cultura pop” – tomando o posto dos vampiros que postulavam o cargo até então – a produção audiovisual do subgênero tornou-se extremamente massificada, até saturar a ponto de ninguém mais aguentar sequer ouvir falar do morto-vivo de andar cambaleante, faminto por carne humana.

O desafio então era: como fazer um filme criativo do subgênero e que se destacasse no meio dessa podridão (literal e metafórica) toda? Vez ou outra, alguns exemplares deveras interessantes pipocaram por aí, como: Ben & Mickey Contra os Mortos, Contágio Letal e o coreano Invasão Zumbi. Vindo direto do Reino Unido, The Girl With All the Gifts, baseado no livro homônimo do escritor e roteirista de HQs, Mike Carey, é um desses casos de que, para se alcançar algum diferencial, a trama resolveu percorrer um caminho original para tratar da hecatombe zumbi.

O longa do diretor escocês Colm McCarthy (que já dirigiu episódios de Dr. Who e Sherlock para as telinhas) conseguiu dar esse certo ar de novidade, e um pouco de fôlego para um gênero combalido, explorando um viés de ficção científica para tratar a causa da infecção, que obviamente, já se espalhou de tal forma pela Terra a ponto de criar um mundo pós-apocalíptico: os “famintos” como são chamados, surgiram a partir de esporos mutantes que se alojam na cabeça do hospedeiro, e o visual desses casulos onde esse fungo teve origem, dá ao longa um quê de John Wyndham, autor do clássico britânico do sci-fi, “O Dia das Trífides”.

Nesse futuro próximo, os infectados se transformaram em zumbis devoradores de carne (daqueles rapidinhos, e não dos lerdos), chamados de “famintos” e uma segunda geração dessas criaturas deram origem a uma raça híbrida, onde alguns são mantidos confinados em celas e cadeiras de rodas com amarras, no interior de um bunker militar, com o objetivo de servirem de cobaia de testes da Dra. Caroline Caldwell (interpretada pela veterana Glenn Close) que acredita que neles reside uma vacina, a última cartada para os seres humanos.

Entre esses “famintos” está Melanie (interpretada pela novata Sennia Nanua, que está ótima), uma garota com QI e capacidade de raciocínio maior do que todos os outros, demonstrados principalmente nas aulas dadas pela Profa. Helen Justineau (Gemma Arterton), que acredita que há algum tipo de humanidade latente dentro deles e que a “esperança sobrepõe todas as coisas terríveis”, algo refutado pela Dra. Caldwell (que acredita que Melanie apenas imita emoções humanas) e os militares, com a sua brutalidade típica do exército, pensando apenas em destruir as criaturas.

Atração fatal

Atração fatal

Essa diferença de comportamento e intelecto de Melanie a faz a escolha perfeita – não que isso seja bom para ela –  e certo dia, a menina com todos os dons é levada para o laboratório onde seu cérebro será retirado, assim com seu fluido espinal, na busca dessa possível cura. Nesse momento, após um ataque de frenesi dela – motivada pela sobrevivência – que a faz cravar seus dentes na jugular de uma das enfermeiras – daí vemos a rapidez com que o fungo destrói seu cérebro e a transforma em uma criatura zumbificada – estoura uma invasão à base (a cena de fuga é filmada por McCarthy quase como um correspondente num campo de batalha, em um frenético cinema de guerrilha com câmera na mão) e alguns sobreviventes precisam deixar o local às pressas, levando Melanie consigo, por uma road trip pela Londres devastada.

Aos poucos Melanie – em seu visual à lá Hannibal Lecter, utilizando uma focinheira para não morder ninguém – vai demonstrando seus verdadeiros instintos, colocando em xeque que sua verdadeira natureza – quando confrontada e ou a fome começa a apertar – pode se sobressair sobre sua “versão humana”. Uma inocência que se mistura com a vontade furiosa e selvagem de sobreviver.

O cenário dessa fuga em busca de esperança e salvação fora do complexo militar parece muito uma variação de Extermínio com Last of Us e a série documental do History Channel, “O Mundo Sem Ninguém”, principalmente a sequência da capital inglesa tomada pela vegetação, com direito a famosa BT Tower coberta de fungos e trepadeiras – daí a semelhança as trífides de Wyndham –  capaz de liberar no ar um agente patogênico devastador que seria capaz de destruir de vez toda a humanidade.

Os pontos de ruptura para um filme convencional de zumbi, salvo os elementos sci-fi, se dão quando Melanie encontra seus pares de uma mesma geração de “filhos de famintos”, porém versões feras-mirins que vivem em um ambiente inóspito, sem a pretensa educação dada pela civilização que insiste em não padecer ao colapso, vivendo por suas próprias regras sociais e de liderança, ao melhor estilo “O Senhor das Moscas”, e a reviravolta final, que funciona quase como uma luta de classes metafórica, mostrando que lá no fundo, ainda há o velho e bom toque de George Romero ali em travestir o zumbi de crítica sociocultural velada, mostrando que sempre o homem carrega o que há de pior.

The Girl With All the Gifts pode não ser o que há de mais genial no cinema zumbi ultimamente, mas aposta em uma história original com elementos inéditos no subgênero, ótima fotografia – auxiliada pela trilha sonora do chileno Cristobal Tapia de Veer e direção precisa de McCarthy, que faz brilhar os olhos em alguns momentos de destaque, como a sequência absurdamente tensa dos “famintos” adormecidos em que o grupo de soldados precisa passar entre eles, ao melhor estilo videogame. Tudo isso, misturando na medida terror, fantástico e gore, mesmo que de forma às vezes arrastada e minimalista, até seu final reflexivo.

3 fungos virais para The Girl With All The Gifts

Aprendendo o be-a-bá zumbi

Aprendendo o be-a-bá zumbi

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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