17778817_494972047559562_186185409_o

Bibliofobia #26 – Caídos – Abandonai Toda Esperança

Aos que caem, uma saudação!


O que determina a identidade de um autor? Bom, certos escritores parecem ser capazes de dobrar a linguagem da forma como eles bem entendem e, com ela, criam universos fantásticos, repletos de elementos grandiosos. Outros são mais facilmente identificados pela construção de personagens curiosos, de vivências complexas e pensamentos profundos. E temos aqueles que se arriscam em utilizar essas duas possibilidades de escrita em simultâneo. Um movimento arriscado, de fato, mas recompensador quando o sucesso da empreitada é alcançado. Falar de obras assim também não se mostra uma tarefa simples. É preciso compreender o equilíbrio que esses elementos possuem dentro da construção da narrativa, como eles se complementam e como essa síntese dá identidade para a história.

Propondo-me, então, a hercúlea tarefa de oferecer um olhar para um trabalho desses, que possuem natureza singular, falaremos sobre Caídos – Abandonai Toda Esperança, obra primeira de uma trilogia escrita pelo autor queridinho da casa, M.R. Terci.

A narrativa tem o seu início dentro dos pensamentos de um personagem. Emmanuel está sendo arrastado para dentro de uma masmorra por soldados da Santa Inquisição. Bruxo, amaldiçoado e condenado à morte. Esse é o nosso protagonista. Encarcerado, ele aguarda sua execução imerso em suas reflexões até que um jovem Inquisidor vem ter com ele. Pedro é muito novo para a função que cumpria e nutre uma curiosidade sem igual pelo prisioneiro.

Como aquele homem se tornou bruxo? Como perdeu a própria sombra? Como a vida encaminhou aquele ser para o recém descoberto continente brasileiro? Em tédio ou não, o feiticeiro começa a destilar seus devaneios em forma de palavras, reconstruído dentro do tempo linear os percalços que o levaram até aquele fatídico momento. E junto de Pedro, também mergulhamos em uma história onde todo maniqueísmo se dissolve e as portas da loucura se escancaram.

Em primeiro lugar não é possível para mim, conhecedor das obras Terci, não falar da construção de mundo feito pelo autor. Assim como acontece nas obras que compõem o Bairro da Cripta e o fantástico Mythos, existe um cuidado muito grande na estruturação do universo da narrativa. Terci, munido de sua caneta-cinzel, cria com a precisão de um escultor um mundo que existe por detrás do véu da realidade comum. Com as lentes das diferentes magias que nos vão sendo apresentadas, descortinam-se maldições indizíveis e seres abissais repletos de propósitos obscuros. Mas, mesmo isso já sendo louvável por si só, para Terci isso não é o bastante. Existe a constante utilização de elementos simbólicos que adicionam ainda mais significado ao seu texto.

17821006_494972037559563_1601202233_nTentando evitar da melhor maneira possível a exposição de elementos que estragariam a surpresa do leitor, citarei alguns exemplos. O primeiro ponto é a capacidade dos bruxos da obra de se comunicar e manipular as sombras. Quão simbólico é isso? Estamos falando de pessoas que são capazes de falar com aquilo que surge quando estamos nos pondo na frente da luz. Ao dar vida para esse fenômeno, somos apresentados a uma nova condição de existência. Seres nascidos inteiramente nas trevas, na total ausência de luz, e que estão constantemente presos aos nossos passos, como se estivessem se protegendo da luminosidade vinda do mundo.

Outro elemento emblemático é o reino para onde os bruxos devem ir quando iniciados. Existe um ponto na vida dos incautos da magia em que eles deve fazer uma jornada até um deserto onde se encontram os portais que os levaram para três reinos distintos. Reinos mais antigos que os deuses e mais elevados que os mesmos. O Reino da Luz, o Reino de Trebrarhuna e o Reino dos Mortos Insepultos. A obviedade da contraposição entre luz e trevas simbolizada pelos dois primeiros reinos toma uma nova proporção aos refletirmos sobre a existência do terceiro. A morte, na obra de Terci, é um elemento que está além do bem e do mal e que possuí suas próprias motivações. Essas motivações sinistras vão contaminando lentamente a vivência de Emmanuel.

No princípio da leitura, acreditei que Terci havia errado a mão ao construir um personagem que parece estar em constante conflito com as próprias ações. Em muitos momentos, as malignas decisões tomadas pelo bruxo são acompanhadas por arrependimento. Às vezes não de modo explícito, mas as falas e atitudes do personagem parecem indicar para isso. Entretanto, essa minha primeira impressão foi se mostrando infundada na medida em que a história ia chegando ao seu final. Emmanuel, contaminado por suas próprias vivências, pela história de seus antepassados e pelo íntimo contato com a Morte, se torna um anti-herói. Um homem capaz de qualquer sacrifício para obter o que deseja. No desfecho desse primeiro volume, Emmanuel torna-se uma personificação da Hades Eterna. Ele é o que deseja ser e fará o que precisar para ser.

A linguagem do autor, como sempre, merece ser destacada. Embora eu seja suspeito para falar do rebuscado modo como Terci desenvolve sua narrativa, acredito que Caídos – Abandonai Toda Esperança tenha ligeiras distinções dos demais trabalhos desse escritor. Existe um sofisticado balanço entre a complexidade clássica utilizada na fala das personagens e no contar direto e preciso dos fatos narrados. Ao conversarem, as personagens nos recordam em que período histórico elas se encontram, permitindo-nos localizar no tempo. Ao nos contar o que aconteceu na vivência das personagens, Terci parece simplificar o linguajar, tornando-o mais literal e menos poético. Isso em nada diminui a obra, mas parece indicar um período de transição na escrita do autor. O que certamente se contrapõe à singularidade da obra e atrapalha a leitura do livro é o trabalho editorial que o mesmo recebeu.

Na escrita, o material de trabalho são as palavras. Embora isso soe óbvio, é preciso fazer esse apontamento para que entendamos as dificuldades e limitações que isso cria ao se contar um determinado fato. No cinema, quando é preciso  dar intensidade para a cena várias opções se apresentam. Jogo de câmeras, manipulação da iluminação, trilha sonora e a atuação são algumas dessas possibilidades. Quando falamos de livros e histórias escritas, estamos presos unicamente as palavras que sozinhas devem ser capazes de expressar todos esses elementos.

Nesta obra de Terci um recurso que foi muito utilizado foi o de fazer sentenças inteiras em letras maiúsculas. Isso foi usado para caracterizar a fala de certas personagens e dar força aos dizeres delas. Entretanto, em tempos em que a comunicação é feita quase que integralmente de modo digital, é preciso lembrar como esse recurso é utilizado fora do livro, nas vivências rotineiras do leitor. Sendo normalmente empregado como forma de expressar insatisfação ou raiva, usar várias maiúsculas em uma mesma sentença (e as vezes em páginas inteiras) torna a leitura agressiva ao olhar, cortando a fluidez da obra. Embora esse meio infeliz de se comunicar tenha sido escolhido pelo autor, acredito que caberia ao trabalho editorial atualizá-lo sobre isso e ajudar a repensar a forma como certas mensagens serão passadas.

Ao final, Caídos – Abandonai Toda Esperança é um livro que transita entre a fantasia e o horror e que faz jus aos demais trabalhos de Terci, mas que exigirá um pouco mais de paciência do leitor por se tratar de uma obra de abertura para uma trilogia. Estou convicto que aqueles que já leram outros livros do escritor ficaram satisfeitos com que foi criado nessa obra e se sentirão ansiosos em ter em mãos a sua continuação. 

O livro físico se encontra praticamente esgotado, sendo encontrado apenas na loja online da Santeria StreetWear. A versão e-book pode ser comprada normalmente na Amazon.

 

Ficha Técnica:

M.R. Terci

Caídos – Abandonai Toda Esperança  

2015

Editora Multifoco

Compre aqui


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *