>>> NOT TO BE USED UNTIL 10/24/16 at 1:00 AM EST <<< Jeffrey Dean Morgan as Negan - The Walking Dead _ Season 7, Episode 1 - Photo Credit: Gene Page/AMC

TWD: Como horrorizar personagens e público igualmente

O prejuízo de Negan para a sétima temporada


Em seus primeiros minutos em cena, no episódio final da sexta temporada e em sua continuação direta, a premiere da temporada seguinte, o personagem Negan, vivido por Jeffrey Dean Morgan, conseguiu quebrar a TV a cabo e o mundo das séries. Utilizando de violência e sadismo descomunais, Negan massacrou tanto personagens como a própria audiência da série, de forma indistinta, como descrevi na crítica do episódio inicial. A repercussão foi altíssima e a série sofreu com censuras em exibições internacionais e considerável perda de espectadores. Aqui, analisarei a temporada em duas partes, tentando entender o motivo da queda de audiência, os rumos tomados e a proximidade com os quadrinhos, além de apontar possíveis caminhos para o programa.

Parte 1

Ao final do primeiro episódio, ainda levemente chocado, me perguntei: qual seria a solução dos roteiristas para dar prosseguimento à uma temporada que começou com o clímax máximo que a série já havia alcançado? A resposta me parece óbvia, em retrospecto: a única solução seria retornar à estaca zero. E é exatamente isso que a série faz.

Os personagens foram separados em núcleos menores: Sasha e Maggie foram para Hilltop, na companhia de Jesus; Daryl foi capturado por Negan e levado para o Santuário; Morgan e Carol encontraram O Reino; Tara foi parar no Litoral; Rick, Carl, Michonne, Eugene, Aaron e Rosita retornaram para Alexandria. Em comum, todos eles apresentavam um espírito quebrado e cansado e uma necessidade de se reencontrar (psicologicamente falando). Basicamente, o primeiro arco dessa temporada, que compreende os episódios 2 ao 8 – considerando o primeiro capítulo como fim de uma era – é focado na relação dos vários personagens principais com a comunidade em que estão inseridos. Pouco a pouco, eles vão encontrando forças para retomar o controle e pegar os cacos que haviam se espalhado.

A maior adição ao universo da série fica por conta do Reino, uma comunidade auto-suficiente, bem maior que Alexandria e Hilltop, que possui uma cavalaria como defesa e que venera o rei Ezekiel, um homem negro com dreadlocks e um tigre de estimação. Ou melhor, uma tigresa. Literalmente. E não podemos esquecer também do Santuário, a comunidade comandada por Negan e sua mão de ferro e a hashtag #SOMOSTODOSNEGAN.

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Todos saúdem o Rei!

Nas semanas em que esses episódios foram ao ar, a quantia de espectadores despencou a números que não eram vistos desde a terceira temporada, quando TWD ainda estava em ascensão. Com um ponta-pé inicial de chocantes 17 milhões de espectadores, muitos milhões acima de qualquer outra série, e segunda maior audiência em sete temporadas, as coisas pareciam muito bem. O X da questão é que, desses 17 mi, 12 milhões retornaram para a semana seguinte. Basicamente, Negan horrorizou e barbarizou cinco milhões de pessoas, que simplesmente resolveram abandonar o show. Esses números ainda caíram mais, chegando na casa dos 10 milhões, durante a maior parte da temporada. Lembrando que, mesmo com a queda vertiginosa, The Walking Dead continua com o maior público da televisão norte-americana.

A especulação foi alta e muitas teorias levantadas. As mais plausíveis são aquelas apontadas na crítica do primeiro episódio e aqui mesmo: o público arregou para a violência de Negan e preferiu virar a cara do que assistir seus personagens favoritos sendo destroçados em câmera. Dos que continuaram, a lentidão ocasionada por esse recomeço de jornada para os personagens, e o fato do grupo estar fracionado em tantos subgrupos, desanimou um outro bando, irritados com o marasmo novelístico. A maioria dessas coisas também se passou na HQ, porém com um dinamismo muito maior, resolvido de uma página para a outra. A transição entre mídias parece ter aberto esse buraco que ninguém soube como solucionar.

As semelhanças com os quadrinhos permaneceram constantes, em relação aos personagens que ainda estão vivos por lá. Maggie resolveu marcar presença em Hilltop, assumindo responsabilidades para si, uma possível aliança contra Negan se formou, entre os líderes de comunidades. Carl fez uma visita ao Santuário, armado de uma metralhadora… cena essa que não teve metade do impacto dos quadrinhos, já que o Carl aqui é um adolescente estilo ensino médio e não um molecote de doze anos, diga-se de passagem.

Com um final otimista, marcado pela reunião do grupo, a chama da esperança se acendeu e a audiência aumentou levemente, porém ainda em um número de pouca expressão, quando colocado lado a lado com outras temporadas.

Parte 2 (ou, The Walking Dead: Uma Nova Esperança)

De ânimos renovados, o grupo de Rick Grimes começa sua jornada heróica para se livrar das garras opressoras do crudelíssimo Negan. A empreitada militar é baseada em uma aliança entre as três grandes comunidades: Alexandria, Hilltop e O Reino, assim como na HQ. A série foi mais longe, ao acrescentar outros dois grupos – o povo-do-ferro-velho, ou seja lá como se chamam, um grupo imenso comandado por Pollyana MacIntosh (A Mulher, Let us Prey), que particularmente considerei de um mal gosto execrável, e as mulheres do litoral, uma gangue feminina, que fora vitimada por Negan.

Completamente avulsos e jogados dentro da trama como meros artifícios para que a história pudesse ser movimentada, os tais grupos poderiam nunca mais ser mencionados, sem que ninguém reclame ou note ausência. O grupo de Pollyana é particularmente ridículo, devido ao aspecto cartunesco e boçal de seus membros. Aparentemente, o apocalipse zumbi causou algum tipo de retardamento mental em todos eles, que mais parecem um bando Neanderthal.

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Tara ganhando um episódio próprio? Morre na Oitava Temporada

Apesar desse problema menor, a trama abarcada entre os episódios 9 – 16 foi bem mais interessante e agitada, com alguns dos zumbis de visual mais grotesco que já deram as caras em qualquer mídia. O trabalho de maquiagem exercido por Nicotero e companhia é absolutamente brilhante, mas parece ter se tornado lugar comum, já que pouco se fala sobre a qualidade de suas próteses e efeitos práticos, como ocorria há alguns anos. O GORE! marca presença, separando os homens dos meninos, honrado a herança splatter italiana. Os efeitos digitais, por outro lado, não andam tão bem das pernas. Apesar do esforço em recriar um tigre ter dado relativamente certo, outras empreitadas não venderam também, como o cervo digital, que deixaria o pessoal do SyFy Channel embasbacado, de tão malfeito.

A motivação de personagens permanece constantemente renovada, graças ao foco dado ao grupo de Negan, que parece obedecer uma espécie de lei insana, que pune violência com mais violência. O vilão não obedece regra alguma de comportamento, e é igualmente predisposto a mostrar seu ódio contra aliados e inimigos. Há uma quebra do maniqueísmo manipulativo do Governador, por exemplo. A possibilidade de, talvez derrotá-lo, é suficiente para trazer espectadores de volta, muitos esperando vingança pelo falecimento de seus queridinhos.

Se a oitava temporada optar pelo mesmo caminho dos quadrinhos, o público ficará bastante surpreso com o desenrolar da história. Momentos de tensão estão à caminho e mais gente irá morrer, mas provavelmente não teremos uma morte tão impactante quanto as que tivemos na sétima. Inclusive, podem anotar: o motivo principal disso não acontecer será o medo de uma nova queda de audiência.

Considerando que a temporada terá início com uma guerra aberta entre as comunidades, é possível que ela se resolva ainda na primeira metade, antes daquela pausa tradicional de fim de ano. Dessa forma, o segundo arco pode vir a cobrir o pós-guerra com uma passagem grande de tempo, terminando com a introdução da saga dos sussurradores, que tem se mostrado uma das mais incômodas e bizarras dos quadrinhos e que vai causar muitos pesadelos por aí.

Com ou sem números exorbitantes, TWD possui uma fanbase grande suficiente para prolongar sua estada nas telinhas da FOX por mais algumas temporadas. No ritmo atual, em três anos a série ultrapassará as HQs, o que deixa no ar uma dúvida curiosa: Será que os quadrinhos passarão a acompanhar a série? Ou será que o fim está próximo para ambos? Kirkman revelou, anos atrás, que planeja continuar a jornada de Rick enquanto houverem histórias boas para serem contadas naquele universo. Qual será o próximo passo?

PS* Logo após escrever esse artigo, me deparei com uma entrevista com os produtores, no qual esse salto temporal acima mencionado foi confirmado.

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De Supernatural para The Walking Dead


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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