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Review 2017: #22 – The Devil’s Candy

Metal pesado, imagens e sons do Inferno


The Devil’s Candy – ou, como gosto de chamá-lo em português, “O Docinho do Capiroto” – é o segundo longa-metragem de Sean Byrne, diretor/roteirista australiano que nos agraciou com o maravilhoso Entes Queridos (The Loved Ones), em 2009. Por motivos obscuros do mundo da distribuição, “O Docinho do Capeta” ficou preso no limbo por dois anos, antes de finalmente ser lançado pela IFC Midnight – todos saúdem a IFC! – e agora todos podemos conferir a glória satânica do metal que nos é oferecida.

Desde sua gênese, o metal caminha lado a lado com o terror. Ambos gêneros relativamente marginalizados dentro da música e do cinema, respectivamente, possuem, por excelência, um desejo forte de subversão estética, cultural e social. Para além disso, o metal e seus subgêneros (black, thrash, power e etcetera), frequentemente se alimentam do horror como referência direta, vide Black Sabbath, cujo nome advém de As Três Máscaras do Terror de Mario Bava, ou mesmo o álbum “Vulgar Display of Power”, do Pantera, que é uma frase dita por Reagan, em O Exorcista. O contrário também é válido, pois muitos filmes de gênero já incorporaram músicas desse tipo, tanto como trilha como quanto foco narrativo – ouvir Flash of the Blade, do Iron Maiden, na trilha sonora de Phenomena, de Dario Argento é uma experiência impagável!

Em The Devil’s Candy, a mistura de gêneros se dá em várias instâncias, partindo da trilha sonora de rock pauleira pesadíssima, que inclui músicas do Metallica, Pantera, Slayer e até do Cavalera Conspiracy, dos brasileiros Max e Igor, até a composição dos personagens principais, moldando detalhes da personalidade dos mesmos. A música pesada ainda aparece como artifício narrativo na guitarra do insano Ray Smilie (Pruitt Taylor Vince).

A trama, desenvolvida pelo próprio Byrne, revolve em torno da família Hellman: o pai, Jesse, é interpretado por Ethan Embry, um clone de Christian Bale; Shiri Appleby interpreta a mãe, Astrid; a fofíssima Kiara Glasco, é a filha teen Zo. Com um sobrenome tão singelo quanto Hellman, a família aficcionada por metal se vê em um perrengue dos diabos (RÁ) quando se muda para uma casa que, até pouco tempo antes, pertencia a Ray, assassino insano que ouve a voz de Satã ecoar dentro de sua cabeça. A única maneira de ocultar esses sons infernais é com um som ainda mais pesado: riffs de guitarra.

6-6-6, the number of the beast! Sacrifice, is going on tonight. *Solo de guitarra*

6-6-6, the number of the beast! Sacrifice, is going on tonight. *Solo de guitarra*

O empenho dos Hellman em começar vida nova cai por terra quando Jesse começa a ouvir a mesma manifestação sonora do diabo, que transforma suas pinturas em obras sombrias e violentas, e quando Ray decide voltar para casa, revelando a única outra forma de aplacar essa voz do mal: o sacrifício de crianças, pois os pequenos são como um doce para Satanás.

A voz carregada de efeitos sonoros que representa a presença do Diabo foi uma composição de mestre. Sempre incompreensível e acompanhada de melodias pesadas e distorcidas, tal voz induz os personagens à um estado de transe e, para os espectadores, gera incômodos e inquietações, provocando uma sensação de agonia, um desejo enorme de que aquilo acabe rápido.

A presença do mal está sempre pairando por sobre nossas cabeças de forma macabra. Como resultado, The Devil’s Candy é muito bem sucedido nessa busca por criar uma experiência atmosférica. Apesar de ter um ritmo muito mais intenso e acelerado, vi ali uma aura bem semelhante à outro sucesso contemporâneo de horror, sobre forças infernais, o longa The Blackcoat’s Daughter, que também utiliza de uma presença incômoda para alcançar o nível de tensão almejado.

A loucura acarretada pela voz gera expressões artísticas diferentes nos dois homens afetados por ela. Ray produz solos de guitarra cheios de distorção para tentar bloqueá-la. Jesse, por sua vez, utiliza da pintura para dar vida a figuras e sensações que tomam seu corpo. Há uma série de planos e cenas com imagens bem agressivas e impactantes no decorrer de sua duração, como as visões de Jesse sobre o homem de rosto distorcido aparecendo através do vidro vermelho, ou da própria filha sendo queimada viva.

A música funciona de forma interessante, caracterizando o pai e a filha, mas sem levá-los para nenhum lado clichê. Apesar de serem do metal, são amorosos e extremamente fofos uns com os outros. E as escolhas por determinadas canções ainda colaborou na construção da estética e do ritmo, que é bastante acelerado. Com apenas 1 h 17 min de duração, The Devil’s Candy peca exatamente por ser corrido e não abordar apropriadamente alguns de seus temas, como a própria compulsão assassina de Ray, que o transforma em uma espécie de serial killer, ou a galeria de pintura chamada Belial – nome de um demônio e do icônico personagem deformado de Basket Case, que parece ter parte com o Coisa-uim.

Independente desse subaproveitamento, a única decepção real fica por conta do conflito final, que poderia ter partido para uma desgraceira louca, semelhante ao que acontece em Entes Queridos, mas ainda dotado de um toque sobrenatural ultra tenebroso. Infelizmente, o conceito de que “o não mostrado é mais assustador” não operou muito em favor do longa.

A ideia das artes, principalmente a pintura e a música, estarem associadas ao mal já não é novidade alguma, mas a obra de Byrne consegue encapsular essa temática de uma forma visualmente impactante e com muita intensidade, resultando em um filme com lugar garantido entre os melhores do ano, seja 2015 ou 17. De tabela, ainda reforça a teoria de que o mal diabólico é uma das grandes tendências modernas no gênero.

4.5 criancinhas para The Devil’s Candy

Rockstar rebelde que não quebra guitarra é só pose.

Rockstar rebelde que não quebra guitarra é só pose.


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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