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HQRROR #28 – Caligari!

O terror de uma expressão


Em 1920 foi lançado o filme que muito provavelmente foi o fundador dos alicerces do gênero do horror. O Gabinete do Doutor Caligari figurava no princípio do Expressionismo Alemão, movimento artístico de vanguarda pós-primeira guerra caracterizado pela deformação da realidade em prol da perspectiva do indivíduo que a retrata. Esse movimento teve em suas primeiras expressões a pintura. Isso é determinante para que possamos compreender o que subjaz essa obra cinematográfica e a sua filha mais nova, recentemente lançada pela Editora Veneta: Caligari!

Na produção do filme, estava decidido que era preciso trabalhar o cenário de modo que retratasse perfeitamente o terror que os responsáveis desejavam transmitir. A escolha e a criação dos planos que compuseram todas as cenas foram feitas com o intuito de transmitir desconforto. Ruelas tortas continham uma profundidade falseada e perspectivas oblíquas desestabilizariam o público diante dos atores, que se posicionariam em frente as mesmas. A deformação dos objetos, que caracterizavam de forma latente as pequenas vilas medievais, causou, segundo relatos, desmaios e gritos que acompanharam a primeira exibição do filme.

É possível observar nas obras pictóricas dessa vanguarda um movimento de desespero interno que se ligava diretamente as condições históricas da época e do local. Esse terror imagético capturado pelo cenário foi, sem dúvida, a chave que permitiu a película alcançar a imortalidade artística. Herman Warn, um dos cenógrafos do filme declarou: “A imagem cinematográfica deve se transformar em uma gravura”. Quase 100 anos se passaram até que esse procedimento de tornar estático os movimentos da obra se realizasse. Pois Alexandre Teles cunhou o desejo de Warn e criou Caligari!, uma HQ que captou cena por cena do filme e as enquadrou com primazia dentro de seus mais terríveis momentos.

O enredo da HQ repete o de sua obra mãe. Um circo itinerante chega até uma pequena aldeia no interior da Alemanha. Lá, um estranho de intenso olhar vai até a prefeitura do vilarejo buscar autorização para poder efetuar as suas apresentações circenses. Caligari, como é chamado o homem, irá apresentar Cesare, um sonâmbulo capaz de predizer o futuro. Durante o processo de aprovação para a apresentação da feira, Caligari é muito mal tratado por um outro homem. Durante a noite desse dia, esse mesmo homem é morto a punhaladas e o seu assassino permanece misterioso. Uma série de homicídios começa juntamente com a perseguição pelo responsável.

O que me chamou mais atenção na obra foi o modo como personagens e cenário se fundiram. Como havia dito anteriormente, o cenário foi essencial para que a obra original tenha alcançado a êxito que atingiu. Na HQ os planos dimensionais se tornam nebulosos, sendo unicamente sugeridos pelo contraste das sombras, indicados pelas cores branco e preto. O estranhamento causado pelas distorcidas torres e vielas são encarnados nas facetas humanas. A humanidade das personagens é apenas sugerida, uma vez que a mesmas se perde dentro da desolação do negrume dos quadros e das contorções das cenas retratadas.

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Mas também há aqueles quadros onde uma espécie de realismo macabro impera. Em uma ação específica, Caligari exige que Cesare acorde ao comando de seu mestre. Nesse momento observamos o súbito abrir de olhos do sonâmbulo, a tomada de consciência do mesmo e o entrar do personagem no transe de seu comandante. Em seis quadros, a palavra que talvez melhor descreve a sensação que é passada é pânico. Eu, enquanto leitor, me deparei com o salto chocante de antes estar lidando com imagens contorcidas e subitamente ser posto em frente a uma retração precisa, quase realista, de uma face humana doentia. Esse mesmo choque prossegue ao voltarmos para a normalidade tétrica da obra. Uma vez perturbados por essa passagem, seguimos a leitura com uma atenção ligeiramente transtornada, que nos acompanha pelo resto da história.

As sombras das personagens também são uma questão que deve ser ressaltada. Ao perdemos o plano da profundidade, as sombras surgem como uma extensão dos corpos dos participantes da trama e também como peça dos cenários. Tive a impressão de que elas fornecem uma ligação entre esses dois pontos, tornando ainda mais intensa a união entre eles. Essas mesmas sombras são utilizadas como recurso para a passagem de cenas. Em um movimento que nos suga para dentro de um vórtice negro, ela engole não somente tudo aquilo que compõe o quadro onde está inserida como também o leitor que mergulha dentro da profundidade perturbadora que encerra toda a obra.

Talvez essa perturbação seja a fonte do fascínio que senti pela HQ. Tudo parece ter sido pensando a forçar a pausa do olhar sobre cada uma das imagens que compõe a obra. Passar rapidamente por qualquer página é abdicar da apreciação de detalhes que estruturaram as sofisticadas relações entre todos os elementos da narrativa. Com isso em mente, parar e se atentar para o que se está olhando também implica em assimilar todo o terror que está ali. Ler Caligari! é um mergulho dentro de um abismo de pesadelos planos nada simplistas.

Alexandre Teles deu à luz a um rebuscado trabalho capaz de capturar a essência da desesperação que acompanha o expressionismo. Levando mais de três anos, ele recriou frame por frame do filme utilizando a técnica da monotipia – reprodução de um desenho ou mancha de cor em uma prova única. Para criá-las, Teles utilizou uma chapa de cobre em cuja superfície foi aplicada uma camada de tinta preta. Depois, para formar o desenho, parte dessa tinta foi removida, criando pontos de luz e formas. E então a chapa foi para uma prensa, que imprimiu o material em papel de algodão.

Nesta laboriosa obra é possível observar o desejo de uma retração sem igual do fruto cinematográfico que abriu as portas do gênero do terror. A HQ Caligari! não é de leitura fácil ou rápida. Ela deve ser lida com cuidado e atenção, recompensando seu público com sensações unicamente equiparáveis a aquelas causadas pelo próprio filme.

Ficha Técnica:
Alexandre Teles
Caligari!
2017
Editora Veneta

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Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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