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Review 2017: #23 – The Void

Horror cósmico lovecraftiano em todo seu esplendor gráfico e visceral


Em 2015 foi estipulada a data limite para as doações que apoiariam a concepção cinematográfica de The Void. Os diretores haviam trabalhado na equipe de efeitos especiais em filmes de grande porte, como Círculo de Fogo e Robocop. Sendo veteranos no meio, eles decidiram abordar o filme por um viés muito explorado nos anos 1980 mas pouquíssimo utilizado nos dias de hoje: os efeitos especiais práticos.

Essa categoria de efeitos é o que caracteriza visualmente um grande número de películas do gênero e as coloca na condição de clássicos. Destruição de corpos ocorrendo de modo detalhado, viscosidade de peles extirpadas e organicidade exacerbada são aspectos recorrentes de obras que optaram por se utilizar desse meio. O Enigma de Outro Mundo, A Mosca, Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos, Do Além e Sociedade dos Amigos do Diabo são exemplos gritantes de toda uma geração de filmes que usaram e abusaram disso.

Esses efeitos obviamente trariam a qualquer fã do terror uma sensação nostálgica prazerosa – chamado throwing back. Já aqui, a diversão seria garantida. Você se sentaria, assistiria a um filme que te faz relembrar de todos as fantásticas monstruosidades criadas na década de 80 e se satisfaria plenamente com um roteiro OK (coisa que ocorreu com Stranger Things, por exemplo). Entretanto, The Void se propôs a ser algo a mais.

Desde o princípio do crowdfunding para a realização do filme, todos os envolvidos alegavam que a maior influência seria H.P. Lovecraft. Poucos foram as obras que se propuseram a fazer algo do tipo e foram bem sucedidas. Eu enxergo nesse filme um desses sucessos. Muito devido as influências que o filme tem mas também pela perspicácia no modo em que ele captura as mesmas e as misturas com as grandiloquentes percepções que Lovecraft tinha do horror.

Neste review tentarei trazer à tona as várias possíveis influências no filme, umas óbvias outras nem tanto, e como ele se relaciona com primazia com os conceitos a que a película se propôs. Haverá SPOILER massivo do filme e seu final e  sobre TODAS as obras citadas!

The-Void

Seitão do Triangulão

Junji Ito e suas formas

O início do filme não nos traz nada que já não tenhamos visto inúmeras vezes. Dois jovens estão sendo perseguidos dentro de uma cabana no meio da mata. A mulher da dupla recebe um tiro de carabina nas costas pouco antes de ser queimada viva. O rapaz consegue fugir e é levado para o hospital por um policial que estava de patrulha pelas redondezas. A climatização é lenta. Vamos sendo apresentados aos poucos as personagens. Nenhuma nos chama a atenção de modo significativo. São opacas, personagens-tipo: uma adolescente desbocada, uma enfermeira enérgica, um médico sábio, um avô preocupado com sua neta grávida e um policial leal às suas obrigações. Nada que indique a ruptura óbvia na paz daquele lugar até a chegada do jovem que era perseguido. Então, de súbito somos postos frente a frente com o primeiro momento aterrador

Beverly, a enfermeira insípida de antes, assassina brutalmente um paciente do hospital perfurando seus olhos com uma tesoura. A cena, visceral em sua apresentação, torna-se ainda mais terrível quando Beverly se vira e vemos seu rosto completamente retalhado enquanto fala “Esse não é meu rosto”, indicando que ela mesma havia destruído a própria face. Daniel, o policial protagonista, encarna o público em sua manifestação de choque diante ao grotesco acontecimento, pouco antes de disparar contra a moça que avançou contra ele em uma tentativa de matá-lo. Pouco depois ele corre para o banheiro onde vomita e desmaia. Nos momentos que seguem, a visão de um terreno inóspito nos é apresentada. Essa suposta alucinação vivida pelo personagem será recorrente no filme.

Ao acordar, Daniel se vê acolhido pelo médico e por outra enfermeira que o advertem sobre a chegada do delegado ao hospital. Depois de receber um repreenda de seu superior e perceber que não existe sinal de rádio ou de telefone naquele local, ele segue para a parte externa do hospital com o intuito de verificar se é possível receber sinal de lá. Em seu carro, Daniel se depara pela primeira vez com aqueles que chamarei de “cultistas”. O visual deles é simples: O corpo está completamente coberto por um lençol branco e um outro pano branco também lhes cobre a cabeça, onde existe um triângulo negro desenhado, contrastando com a brancura dos lençóis. Ao soar uma sirene, um alto e roco som rouba a atenção de Daniel permitindo ao cultista um ataque. Em uma cena de tensão bem simplória, presenciamos o embate entre os dois que termina na fuga do policial com um ferimento no ombro. Com a volta de Daniel para o hospital, temos nosso foco mudado para o corpo da enfermeira alvejada anteriormente. Em uma clara alusão aos filmes do consagrado diretor John Carpenter, principalmente o já citado O Enigma de Outro Mundo, do rosto da mulher saem grotescos tentáculos que ficam se debatendo em uma intensa agonia por liberdade.

Esse início extremamente intenso é necessário devido ao pouco tempo de projeção (90 minutos) e remete a uma icônica obra do terror vinda do oriente. Uzumaki é um mangá escrito pelo genial Junji Ito em 1998. Explicando aqui de forma BEM resumida, ele falará sobre uma pequena vila que será assolada por horrendos acontecimentos. Esses macabros fenômenos se relacionam de um modo estranho com a forma da espiral. Os pontos em comum entre os dois trabalhos, até o momento, seriam essencialmente a presença de um padrão geométrico que propicia obsessão em quem a contempla – o espiral e o triângulo – e a presença de uma sirene anunciando o início de um acontecimento terrível. 

Outra aproximação entre obras até então que parece ser mais óbvia é a de Silent Hill ao filme. As sirenes, as fotografias encontradas na sala do médico e as cenas onde os personagens precisam se deslocar até necrotério creditam a obviedade dessa influência (inclusive de modo admitido pelos diretores).  Entretanto, me soa mais plausível aproximar a película a Uzumaki devido a escolha do objeto de adoração dos cultistas. Em ambos os casos é preciso simbolizar a loucura das personagens através de uma forma e, mais do que isso, ela precisa fazer com que aqueles obcecados por ela sofram, propositalmente ou não, modificações físicas que os aproxime dela.

“O corpo precisa mudar para se adaptar a idolatria”. No caso de Uzumaki, o corpo do pai do personagem Shuichi se dobra em ângulos impossíveis para se aproximar da Espiral. No caso dos cultistas, o pano com o Triângulo estampado se torna o rosto dos mesmos, retirando eles da sua individualidade (através do processo de cobrir a face) fundindo-os com o Deus-forma. Nesse último caso, temos que citar como exemplo a cena próxima ao final onde o Mestre cultista parece ter o corpo dissolvido e se funde com a forma geométrica, mergulhando dentro do próprio Universo. Isso nos faz pensar que da mesma forma que o pai de Shuichi sobe aos céus, depois de morto e cremado, unindo-se a Espiral, também o mestre se funde a seu objeto de adoração. É possível inclusive especular que os mesmos auto flagelamentos executados por Beverly também tenham sido feitos pelos cultistas, uma vez que todos estavam sobre a influência mental do Triângulo, mas nesse último ponto estamos falando apenas de especulação.

Void 04

O porão

 Clive Barker e o seu culto à Dor

O filme prossegue e começamos a ouvir gritos de desespero vindos do interior do hospital. O rapaz que estava em fuga e agora se encontra algemado em uma das camas pede socorro enquanto monta uma barricada entre ele e um ser monstruoso. Essa criatura é Beverly que teve uma total reconstrução em seu corpo, tornando-se um ente aberrante repleto de peles purulentas e tentáculos viscosos. Depois que Daniel consegue libertar o rapaz dessa situação terrível, os dois homens que nos haviam sido apresentados no início do filme surgem buscando matá-lo. Em resposta, o rapaz rapidamente agarra um bisturi e faz de refém a moça grávida. O médico se aproxima dele buscando acalmá-lo e toma um golpe da lâmina em seu pescoço, caindo morto em seguida.

A ação escala rapidamente quando o delegado é agarrado pelo monstro tentacular e é levado para dentro dos corredores iluminados por luzes danificadas, que piscam em grande velocidade. Daniel e os homens correm para tentar resgatá-lo em uma cena extremamente bem orquestrada que, novamente alude ao trabalho de Carpenter, a criatura é executada a tiros e machadadas, mas não antes de matar o pobre delegado. Os homens, sabendo do perigo que existe em manter o corpo daquela criatura ali, a prendem em uma maca, ateiam fogo e a arremessam para fora do hospital.

A tensão entre os sobreviventes cresce pois a moça grávida começa a entrar em um estado de saúde complicado e Allison, a enfermeira remanescente, que havia tido um relacionamento com Daniel e ambos perderam o bebê em uma complicação de gravidez, decide ir até o depósito de medicamentos para ajudá-la. Daniel é completamente contra e tenta, em vão, convencê-la do contrário. Então, ele pede que ela espere enquanto ele se une aos dois homens em uma tentativa de buscar as armas que estão em seu carro, do lado externo. Depois de uma discussão, eles partem para a difícil ação. Allison abdica que sua promessa de espera e parte sozinha em busca dos remédios enquanto Daniel está longe. Ela é pega pelo médico que havia desaparecido depois de executado. Ao voltar com mais armas, nosso protagonista nota a ausência da enfermeira e vai atrás dela junto dos outros dois.. Chegando a sala do médico após não a encontrá-la no devido local onde ela estaria, lá o telefone começa a tocar.

Daniel atende e quem está do outro lado da linha é o próprio raptor da enfermeira. Enquanto o diálogo dos dois acontece pelo telefone, um dos homens encontra uma caixa repleta de fotografias e um livro que parece aludir a execução de rituais. Sabendo que a enfermeira e o médico estão no necrotério, o policial, junto de seus companheiros, volta para junto dos demais e avisam-nos que eles três irão para lá. Após pegar o rapaz que antes era perseguido, eles partem para a parte inferior do hospital. Em meio a corredores escuros e destruídos que não deveriam estar ali – como se um novo e terrível plano de existência houvesse sido aberto –  eles seguem buscando Allison. Um corte acontece e somos levados para junto da enfermeira que está presa em uma mesa de operações. Richard, o médico, está lá. Enquanto eles conversam, vemos ele arrancando pedaços de seu próprio corpo, dizendo que está se libertando depois de ter cometido muitos erros com outras pessoas. Esses erros são os corpos do necrotério que foram extirpados, destruídos e reconstruídos para que Richard obtivesse êxito naquilo que ele buscava.

Esse processo de autoflagelamento, de destruição de corpos e a existência de um mestre que busca saciar seus desejos obscuros traz The Void para uma ideia muito explorada em outra obra cinematográfica reconhecida do gênero: Hellraiser. Barker, ao criar Pinhead e os Cenobitas buscou justificar os atos hediondos que os mesmos efetuavam para além da mera tortura. Lembremos que o Cubo das Lamentações é aberto através da resolução de seu intricado quebra-cabeça. Esse ato pode ser visto como ritualístico, uma vez que é preciso uma intensa dedicação, motivação e uma correta execução de passos para executá-lo.

Ao abrir o Cubo, um portal é aberto e aquele que o abre será submetido a formas de prazer que nenhum mortal compreenderia em plenitude, pois ela envolve dor, mas não apenas isso. O corpo dos Cenobitas é reconstruído de modo a amplificar seus objetivos. A parte interna da derme é exposta em locais específicos, pregos e cânulas são inseridas no corpo e nervos são trazidos para fora de ordem para permitir que eles alcancem o máximo prazer. Richard, que também é o mestre cultista, reestrutura seu corpo inteiro para ser capaz de entrar em contato com a entidade que ele busca (algo que também remete ao fantástico filme Martyrs) em um processo que pode também ser visto como parte de um nefasto ritual. O corpo, em ambas as películas, se mostra como fator limitante para que o desejo daquele que o possuí possa ser realizado. O que separa essas obras é apenas o porquê da ação. Para Barker, o que se se procura é a máxima amplificação do prazer físico, já para os diretores/ roteiristas Jeremy Gillespie e Steven Kostanski, a sublimação da própria carne.

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Entrar no triângulo? QUERO!

Lovecraft e o Triângulo-Deus

Dentro do necrotério, os quatro homens se veem cercados de criaturas meio humanas, de modo que muito nos lembra as cenas do recente Baskin com um toque de Cronenberg. Um combate pela sobrevivência se instaura e o grupo se separa. Enquanto isso, na parte superior do hospital, a moça grávida começa a ter complicações fortes e resta aos que sobraram lá tentar lidar com a situação. Em uma briga desesperada para decidir se eles devem ou não partir para um procedimento cirúrgico sem recursos para salvar a vida da grávida, a mesma, tomada por um transe terrível, se levanta, mata o seu avô e segue junto de outros cultistas para perto do seu Mestre.

Nesse ínterim, Daniel encontra o local onde Allison está deitada em uma mesa de cirurgia, mas já não está mais está viva – não da forma como concebemos. Em uma troca constante de cenas, o corpo da mulher tornou-se um outro ser repleto de tentáculos monstruosos. Essa passagem parece indicar um acesso de visões tidas por Daniel para tentar justificar aquilo que ele enxerga.

A moça grávida conscientiza que ela dará à luz ao filho do Mestre e ganhando esse conhecimento, entra em desespero ao compreender o que sairá de seu corpo. Uma gigantesca abominação aparece e vai em direção de Daniel, sendo impedida unicamente por uma saraivada de tiros efetuada por um dos homens que ainda permanece vivo. O monstro corre em direção ao seu agressor deixando Daniel e o Mestre sozinhos. Eles têm um diálogo onde o Mestre tenta convencer nosso protagonista a se entregar ao desejo do Triângulo.

O que temos após isso é a mais bela sequência de todo o filme. Imagens de um céu estrelado são sobreposta por imagens fluídas de um líquido vermelho em uma rápida progressão de tirar o fôlego. Daniel, reunindo todo o restante de sua força vital, acerta uma machadada no Mestre e mergulha junto dele para dentro do portal dimentisonal. Depois temos uma perseguição final em um corredor se estreitando, que retoma a Hellraiser – Renascido do Inferno, onde o rapaz mudo escapa e encontra a outra enfermeira estagiária sobrevivente. Por fim, temos há uma última cena final onde Daniel e Allison está em um deserto nebuloso e inóspito, contemplando o gigantesco Triângulo, em um final niilista e desolador que remete à conclusão de Terror Nas Trevas de Fulci. .

Com esse final, não é possível não se lembrar do icônico início do conto “O Chamado de Cthulhu” de Lovecraft. A obra abre sua história da seguinte forma:

“A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, é a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a negros mares de infinito, e não está escrito pela Providência que devemos viajar longe. As ciências, cada uma progredindo em sua própria direção, têm até agora nos causado pouco dano; mas um dia a junção do conhecimento dissociado abrirá visões tão terríveis da realidade e de nossa apavorante situação nela, que provavelmente ficaremos loucos por causa dessa revelação ou fugiremos dessa luz mortal rumo à paz e à segurança de uma nova Idade das Trevas.”

Lovecraft expõe nessa passagem (e em boa parte de seus outros escritos) que a mente humana não é capaz de entender determinadas ocorrências do Universo. Existem certas coisas que quando expostas como de fato são, levariam qualquer um a loucura, pois seu entendimento está muito além do cérebro humano. Esse ponto das obras lovecraftiana é muito explorado. O quadrinista Alan Moore também traz isso em sua obra Neonomicon com primazia.

Como eu disse anteriormente, o corpo físico em The Void necessita ser modificado para o indivíduo alcance alguma aproximação com o objeto de sua idolatria. Essa modificação possibilita que certos limites da mente humana se expandem e, então, ela entenderia coisas que estão além do limite de nossa fraca noção de realidade. Mas, isso não é o bastante para que outros conhecimentos maiores sejam entendidos, como insinua o final do filme. Quando Daniel e Allison estão contemplando o gigantesco Triângulo, na verdade aquilo é o que a mente deles é capaz de processar sobre o objeto que se encontra ali e não o que ele é de fato. Isso também ocorre na sequência onde Daniel encontra o corpo da enfermeira na mesa cirúrgica. Ele não consegue ter pleno entendimento daquilo que vê e alucina diante da cena. The Void nos põe diante de um ser ou conhecimento lovecraftiano tão monstruoso que a mente humana não pode entender e por isso ele é representado na película como a forma geométrica de um triângulo.

The Void é um filme fascinante. O que fiz neste review/ artigo foi dar uma leitura possível ao trabalho fantástico que essa obra executou, apesar de muito disso estar apenas subentendido e tendo de ser explorado em uma produção de uma hora e meia, e ainda assim abrindo espaço para especulação. Sendo um mergulho profundo no gênero do horror e de seus conceitos mais terríveis, é, até o momento, o melhor filme  lançado esse ano. Assistir é banhar-se em um mar de excelentes referências e vivenciar tudo o que elas podem trazer para repensarmos nossa relação com a realidade, ou em uma escala menor, aproveitar um filme visceral, gráfico, com aquela pegada oitentista e ótimos efeitos visuais.   

 

 5 triângulos para The Void

The-Void-Daniel-Fathers

Proibido fumar


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

1 Comentário

  1. Adorei o texto e suas referências!
    Quando assisti, tive essas essas impressões e você me trouxe outras para refletir.
    Breve, deveremos gravar um podcast sobre o filme. Caso lhe interesse, está convidado!
    Parabéns pelo texto é grande abraço!

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