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Bibliofobia #28 – O Último Turno

Livro encerra a trilogia de maneira fraca e frustrante


Se eu achava que estava atrasada ao postar a crítica sobre Achados e Perdidos, dois meses após o seu lançamento, em 2016, eu sinceramente não sei o que dizer sobre esse texto, afinal, o livro que encerra a trilogia Bill Hodges foi lançado no Brasil em outubro do ano passado. Isso quer dizer que levei cerca de seis meses para conseguir resenhar um livro relativamente curto, e caso você esteja pensando que fui apenas relapsa ou esquecida com os prazos do 101 Horror Movies, eu tenho más notícias: a verdade é que ler O Último Turno foi uma tarefa enfadonha, daquelas que a gente procrastina ao máximo e só consegue terminar colocando uma boa dose de empenho (e muitas cobranças do editor chefe).

Logo de cara, já adianto que não consegui entrar em um consenso sobre o que me mais me desagradou nesse livro: se é o mote sobrenatural extremamente forçado ou se é a maneira como Stephen King consegue transpô-la na narrativa. Lembram-se de Brady Hartsfield, o cruel e sociopata assassino que acelerou o carro em Mr. Mercedes e dizimou dezenas de pessoas? Bem, ele foi impedido de realizar um atentado em um show por Holly Gibson, que desceu o braço nele com tanta raiva a ponto de deixá-lo em estado vegetativo. Após cinco anos nessa situação, vivendo numa clínica para pessoas com traumatismos cerebrais, Brady acorda, para surpresa dos funcionários e, principalmente, do detetive Bill Hodges. Mas, apesar do corpo imóvel e do ar abobalhado, a mente doentia de Brady continua trabalhando e tramando um verdadeiro desastre, como bem imaginava o nosso protagonista.

Livro-Ultimo-Turno-Stephen-King-9194311Detetive esse que, inclusive, está muito diferente do outrora policial que perseguiu implacavelmente o assassino da Mercedes. Os anos não foram gentis com ele, que além da sensação de velhice, tem que lidar com um grave problema de saúde. Mesmo assim, ele continua trabalhando na agência “Achados e Perdidos”, que abriu em sociedade com Holly. Investigando um caso de assassinato seguido de suicídio, onde as peças não se encaixam, o único detalhe que os chama a atenção é a ligação das duas vítimas com o atropelamento. Indo mais a fundo e ligando as peças chave do crime, ele chega à conclusão de que Brady Hartsfield é o responsável, mas como provar para as autoridades que o um cara em estado catatônico ocasionou a morte de duas sobreviventes do massacre, anos depois do acontecido?

E é aí que a história vira uma bagunça só, envolvendo experimentos feitos por um médico sem escrúpulos, jogos eletrônicos, psicocinese e principalmente, suicídios. Em tempos de preocupações com a saúde mental, recentemente trazida à tona com a série 13 Reasons Why, criada pela Netflix, Stephen King pega o caminho contrário e nos entrega um vilão que, impedido de agir fisicamente, utiliza de sua capacidade recém adquirida de controlar as mentes das pessoas para cometer seus crimes, levando-as a se matarem, expediente parecido com o abordado pelo vilão Killgrave, ou Homem-Púrpura, da também série da Netflix/Marvel, Jessica Jones. Extremamente vingativo, Brady planeja levar essa onda de suicídios a um nível extremo, por intermédio de sua recente criação: um console parecido com um Game Boy, contendo um jogo de pescaria que esconde um poderoso teor hipnótico, o que facilitaria a dominação mental de suas potenciais vítimas.

Essa ideia de alguém usando um poder psíquico por meio da tecnologia já havia sido superficialmente abordado no conto Tudo é Eventual, presente no livro homônimo, e, assim como no conto, aqui King também não consegue desenvolver de maneira convincente e a leitura pode acabar soando arrastada em alguns pontos da narrativa. Mas o livro não é de todo ruim e tem seus méritos, por exemplo, a maneira como King aborda o envelhecer de Bill Hodges é extremamente pessoal, como se ele estivesse transpondo no personagem todos os seus próprios problemas que vão chegando à medida que a idade avança, tornado as dores do detetive aposentado totalmente críveis. O progresso de boa parte dos personagens também é um ponto positivo na leitura, afinal, você nota a mudança que o tempo ocasionou neles durante a saga, e é interessante vê-los amadurecer no decorrer dos três livros. Holly por exemplo, passa da moça neuroatípica e antissocial para uma mulher um pouco mais maleável e estável; já Jerome é agora um jovem responsável tendo que lidar com o começo de sua vida adulta.

A conclusão da trilogia, num geral, é fraca se comparada com o gosto de promessa que Mr. Mercedes deixou em nossas bocas. Apesar de seu final triste, porém extremamente necessário e condizente com a história, a sensação é a de que O Último Turno poderia realmente ser encarado com a importância de um último contato com a trilogia e não ser encerrado de forma abrupta e superficial como foi. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para encerrar a leitura, pois desde o começo já estava com a sensação de que esse seria o mais fraco dos livros e que a conclusão seria frustrante, o que muitas vezes acontece com os textos de King, e bem, realmente foi.

Ao menos nesse aspecto, posso dizer que, infelizmente, o ganhador dos troféus do Golden no Hall da Fama não me desapontou…


Ficha técnica:

Stephen King – End Of Watch – 2016

Tradução: Regiane Winarski

Lançamento no Brasil – 2016

Editora Objetiva – Suma de Letras


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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