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Review 2017: #25 – The Unkindness of Ravens

O trauma da guerra é o maior horror possível


Nos últimos anos o financiamento coletivo tem se mostrado um dos mais poderosos aliados do cinema independente de horror, permitindo a concretização de várias ideias únicas e fora do padrão cinemão-blumhouse. Nem sempre, pra ser sincero, mas tudo bem. Vez por outra me aventuro nessas empreitadas e empresto um pouco do meu suado dinheirinho para dar vida a alguns desses projetos. Já quebrei a cara fortemente, ao ser ludibriado por campanhas enroladas tipo a do filme Muck – se você não conhece, continue assim.  The Unkindness of Ravens é um caso diferenciado, felizmente.

Esse projeto original e totalmente independente vai na conta da Hex Media, produtora e distribuidora que tem trabalhado dia e noite para entregar conceitos de horror novos, com apelo direto a fãs e aos colecionadores, com edições de luxo carregadas de extras e brindes e não sei mais o quê. O esforço de operar fora do sistema já vale a atenção, mas as propostas de Lawrie Brewster, chefe da porra toda, tornam o trampo ainda mais interessante.

The Unkindness of Ravens – que, em tradução livre seria algo como “A Maldade dos Corvos” -mas que em português provavelmente se chamaria “Corvos Mortais” – acompanha um veterano de guerra sem teto que sofre de um caso intenso de stress pós-traumático, também conhecido como PTSD (post-traumatic stress disorder). Em seus delírios, causados pela violência da Guerra do Afeganistão, o ex-soldado é atormentado por visões de gralhas devoradoras de olhos e homens-corvo guerreiros vestidos de negro e utilizando máscaras com longos bicos, versão diabólica (mais que o normal) daquelas máscaras que médicos usavam na idade média (ou algum outro período das antigas).

Pensando bem, difícil saber se o filme lida com corvos ou gralhas. Essas aves são um caso típico de “diferentes, porém iguais”. Como não temos um ornitólogo na equipe do 101HM, partirei do princípio de que ravens seriam corvos, no melhor estilo Edgar Allan Poe. Difícil não falar no autor quando o assunto é o tal pássaro preto agourento, né? Apesar de ominosos e simbolizando um estado psíquico do personagem principal, pouco têm em comum com o pássaro que diz “Nunca Mais”, na literatura de Poe.

Para os que não sabem, este crítico que vos escreve é, além de outras coisas tantas, professor de inglês, o que me torna deveras apto a praticar a arte de assistir filmes sem legenda. Mesmo assim, encarar essa fita sem auxílio das letrinhas foi um desafio, por se tratar de um longa escocês, terra de um povo que fala um inglês que mais parece alemão. A relevância dessa informação advém do peso do roteiro, carregado de monólogos dramáticos com um estilo muito literário, que o protagonista utiliza para dar vazão às suas angústias, muito do qual passou completamente batido por mim.

Kurt Cobain, é você??

Kurt Cobain, é você??

Vagando pelas ruas de sua cidade, o ex-militar, então sem-teto, sofre com alucinações constantes, que o levam de volta à guerra, algo vagamente semelhante e influenciado por Alucinações do Passado. São raros os longas do gênero que abordam os horrores da guerra. Existem poucos horrores fictícios e sobrenaturais que superam o horror do mundo bélico. Aqui, o foco é no stress pós traumático e na situação de rua, retrato pertinente de uma situação comum em todos os países que se envolveram em conflitos armados. Como parte de um tratamento, o soldado vai morar em uma casa de campo, pertencente à algum ornitólogo ou entendedor de corvos, algo como uma terapia de dessensibilização. Lá, ele é obrigado a bater de frente com essas alucinações e delírios bizarros, mas de uma forma bem incisiva.

Os guerreiros-corvos aparecem como caçadores, sempre tentando matá-lo ou mutilá-lo, forçando-o a se engajar em um conflito armado com as criaturas. No último ato, esse conflito se dá em uma espécie de limbo ou região infernal, onde seus colegas mortos em guerra são torturados e punidos pela eternidade. Claro que tudo acontece no campo metafórico e essas entidades parecem ser mais formas sombrias de sua mente do que monstros reais.

Vale ressaltar mais uma vez o quão indie é The Unkindness of Ravens, que demorou anos para ser concluída e lançada, por causa desse esforço de atuar fora do sistema de produção e distribuição. Muitos dos efeitos especiais e cenários são claramente simplórios, como esperado de um filme de orçamento muito baixo. Algumas escolhas de montagem, por sua vez, não parecem fruto de aperto financeiro. É complicado dizer se, os momentos mais estranhos de edição foram intencionais, propondo uma deformação na estrutura clássica, ou simplesmente um trabalho porco.

No fim das contas, a experiência é bastante curiosa, tanto pelo aspecto estético, quanto pela proposta ousada dos criadores. O texto, se realmente for completamente original, também merece um destaque pelos monólogos profundos e belos (mesmo que incompreensível, em partes). O pecado capital aqui reside na montagem fraquíssima, que dá um aspecto quase amador ao filme, em certos momentos.

3.5 Corvos (ou gralhas?) para The Unkindness of Ravens

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Saiu de casa a pé pra ir na loja, chegou lá, estava fechada


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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