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Longa vida à verdadeira Rainha!

Aviso aos xenomorfos: Get away from her!


Dentro do cinema e da cultura pop, e especificamente falando sobre o horror, a presença feminina sempre se fez presente e demarcou território. Interessante é notar a maneira como a apresentação do gênero foi modificando-se com o passar dos anos: de inocentes, ingênuas e totalmente indefesas, as personagens femininas passaram a se tornar fortes, destemidas e totalmente capazes de salvar o dia. Mas engana-se quem pensa que essa transformação teve um propósito meramente rentável. Na realidade, o progresso feminino dentro do cinema e na literatura foi acompanhando, gradativamente, o desenvolvimento que o próprio gênero teve no mundo real.

A partir do começo dos anos 60, período que ficou conhecido como a segunda onda do feminismo, as mulheres passaram a exigir os direitos igualitários e o fim da discriminação. Essa época, marcada por protestos, passeatas e um alcance maior do apelo à liberação feminina, tiveram um impacto muito grande na indústria cinematográfica: as personagens femininas começaram a deixar de serem vulneráveis e começaram a ser mais bravas, não somente na agressividade.

Bravura essa, por exemplo, que se tornou a característica suprema de uma das maiores personagens da história do cinema. Eleita a mulher mais icônica da ficção por muitas listas especializadas e, definitivamente, uma das personagens mais importantes do universo do horror e sci-fi, Ellen Ripley não é apenas um exemplo a ser seguido nos roteiros. Passou a ter uma importância muito maior pois gera, até os dias de hoje, genuína representatividade de gênero.

A Sub Tenente Ripley, magistralmente interpretada pela atriz Sigourney Weaver, não é apenas uma personagem bem estruturada. Ela tem uma humanidade tão latente e representa toda a complexidade feminina. Ela é real, com seus defeitos e virtudes que logo ficam evidentes em Alien – O Oitavo Passageiro e vai amadurecendo ao longo da franquia. Ripley é uma viajante do espaço que se depara com o terror vindo de outro planeta, mas isso não é algo novo, afinal, o homem já vem enfrentando seres alienígenas desde que o cinema fantástico existe. O inesperado aqui é justamente o protagonismo feminino.

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Conte-me mais sobre heroínas de ação…

Ripley, desde o início, tem que cavar seu espaço em meio a uma tripulação predominante masculina e misógina. Rebelde, ela questiona ordens, é até mesmo um tanto quanto antipática e grosseira, praticamente o oposto do que se espera de uma mocinha. Seu jeito contestador incomoda, não só a seus companheiros da Nostromo quanto ao público em si. Ela questiona não só o capitão Dallas , seu superior, quanto o oficial de ciências e seus colegas operários. Ela indaga, resmunga, bate o pé, mas nem de longe faz isso com o intuito de pirraçar: ela apenas quer fazer as coisas do jeito certo e é exatamente esse desobedecer de ordens, causada por terceiros, que desencadeia todo o incidente que vemos ao longo da película.

 

No começo do filme, não conseguimos enxergá-la como personagem principal, afinal, ela nem de longe tem os atributos de suas outras colegas final girls. Não performa feminilidade, é vista como uma pessoa não atraente ou pouco graciosa. Mas, nem de longe é tão durona quanto aparenta ser. Seu instinto de preservação está no mesmo patamar que seu instinto maternal, demonstrado em sua preocupação com seu gatíneo, Jonesy. Tem que lutar contra a criatura xenomorfa que não apenas quer matá-la mas, também, utilizá-la como uma incubadora, uma clara referência ao estupro. Nem mesmo quando fica seminua, já nos momentos finais, sua intenção não é seduzir a audiência, na realidade, é totalmente o oposto, mostrar justamente a fragilidade do corpo humano perante a ameaça alienígena.

Em entrevista presente no livro Alien, de Allan Dean Foster, o próprio diretor Ridley Scott é indagado sobre a criação de personagens tão decididas, se elas são a representação do que ele espera das mulheres no futuro. “Meu filme tem mulheres fortes simplesmente porque gosto de mulheres fortes. É uma escolha pessoal.” responde. “Não sou um machista, também não compreendo mulheres que se considerem superiores apenas por uma questão de gênero – eu apenas acredito na igualdade entre homem e mulher. Simples assim.” Sozinha, Ellen Ripley consegue ascender ao papel de heroína duplamente: não só por ter sobrevivido ao ataque à nave, mas também por não ter precisado de nenhuma figura masculina para isso, além de se igualar aos homens em suas ações e escolhas. Talvez não fosse a heroína que a audiência desejasse mas se tornou aquela que precisávamos. Muitas outras vieram depois dela, assim como ela precedeu algumas, mas poucas conseguiram entregar a complexidade do gênero da maneira como ela conseguiu.

Mesmo hoje, quase trinta e oito anos depois do primeiro filme, poucas franquias do cinema tiveram uma personagem que reinasse tão soberana no panteão das Mulherões da Porra quanto Ellen Ripley. Longa vida à verdadeira Rainha!

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I’m a motherfucker stargirl!


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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