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O pesadelo biomecânico de H.R. Giger

Estudos e desenhos da mente perturbada do artista suíço que originaram o visual de Alien, o Oitavo Passageiro


Muita gente não sabe, mas Alien, o Oitavo Passageiro nasceu como um filme B de monstro. Quando surgiu das mentes de Dan O’Bannon e Ronald Shusett o enredo de uma ameaça alienígena aterrorizando a tripulação de uma nave espacial, o longa era idealizado como um “típico filme de Roger Corman”. Nem conseguimos imaginar como a produção seria se tivesse seguido nesse caminho e se a criatura esboçada na arte conceitual de Rob Cobb, seguindo as instruções de O’Bannon, tivesse visto a luz dos projetores.

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Como nas histórias que tem um final feliz, a Fox decidiu produzir o filme, Ridley Scott topou dirigir o projeto e hoje sabemos que a coisa toda escalonou para se tornar uma superprodução de estúdio e um verdadeiro marco no cinema de terror e ficção científica, servindo como uma espécie de pedra angular do subgênero. Tudo isso foi possível devido a amálgama de vários elementos, mas definitivamente, o principal deles, foi o visual do xenomorfo, criado por H.R. Giger, com toda sua obsessão arraigada em carne morta e sexualidade.

A criatura preta quitinosa era linda, ameaçadora, um belo humanoide inseto biomecânico com conotações sexuais, saída da mente repleta de pesadelos do artista suíço. Seu impacto, tanto no filme quanto na cultura pop em si, é tremendo e foi o verdadeiro responsável por toda a criação de um universo expandido transmídia, fazendo com que a barata espacial desse as caras não só no cinema em uma franquia de sucesso estabelecida, com uma nova sequência prestes a estrear quase 40 anos depois, como na literatura, quadrinhos, games, action figures, tatuagens, e assim por diante.

Desde os primeiros estágios de produção de Alien, o que mais preocupava todos os envolvidos era exatamente o monstro. Todos os aspectos, os envolvidos dariam um jeito, mas se ele parecesse tosco, como num daqueles sci-fi dos anos 50, trazendo um sujeito vestido numa roupa de borracha com o zíper à mostra, o projeto seria um fracasso.

O’Bannon chegou a Ridley Scott e mostrou a ele um livro de ilustrações de Giger – quem conhecera durante a pré-produção do nababesco Duna de Alejandro Jodorowsky – chamado Necronomicon. Quando o diretor britânico colocou os olhos na pintura Necronomicon IV, de 1976, percebeu de cara que era exatamente aquilo que queria, tanto que o design foi ligeiramente modificado, alterando apenas a concha e a cauda diferente.

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Obviamente a Fox odiou. Os engravatados acharam que era muito macabro, repulsivo, que as pessoas iam correr de medo nos cinemas. Algo mais ou menos humano, asexuado, uma diabólica interação entre biologia e mecânica, como ossos parcialmente do lado de fora, como um exoesqueleto que o protege de todas as agressões externas: armas, radiação, atmosfera inóspita ou qualquer coisa. Através da sua armadura, busca proteção, relacionada a própria vulnerabilidade do ser humano, como retratado na cena final quando o xenomorfo se apresenta frente a uma Ripley semi-nua.

Além disso, e talvez o mais assustador, é que a criatura de Giger possui um desejo primal de sobrevivência, constantemente estuprando e dizimando outras espécies. Pareceu familiar? Segundo o próprio criador, o alienígena é um reflexo pessimista das mais básicas funções humanas. Mas em contrapartida, sua intenção era que fosse bonito e estético, não apenas repugnante, e move-se graciosamente e de forma sinuosa. O pesadelo ganhava vida.

Giger também foi responsável pelo design de todos os elementos que envolvessem o alienígena, fazendo com que o próprio ambiente refletisse a criatura. Partindo destes conceitos surgiram os ovos, o facehugger, o chestburster, o planeta LV-426, o Derelict e o Space Jockey.

Derelict

Ou a nave alienígena que anos mais tarde descobriremos ser dos Engenheiros em Prometheus, deveria fornecer ao espectador uma aparência orgânica, e assim Giger resolveu criá-la a partir de uma combinação de ossos velhos fossilizados e tubos, como motores de motocicletas, além da influência sexual de seu trabalho com pênis e vaginas gigantes, tudo muito visceral, dando a impressão dos astronautas entrarem em um útero.

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Space Jockey

Um Engenheiro fossilizado com o peito estourado que jaz em seu cockpit, foi todo pintado a mão pelo próprio Giger utilizando um aerógrafo (uma das principais técnicas de pintura do artista). Com isso foi capaz de criar uma textura misteriosa. Porém, a cena em que Dallas, Kane e Lambert se deparam com o gigantesco humanoide, quase não aconteceu por uma questão de dinheiro, uma vez que os produtores queriam cortar gastos de um cenário que não fazia parte do set principal e seria usado apenas em uma única cena. Scott bateu o pé da necessidade da tomada, imprescindível para que não se tornasse, mais uma vez usando o termo pejorativo, “um filme estilo Roger Corman”.

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Facehugger

A forma transmissora do alienígena foi concebida com a aparência de um caranguejo com longos dedos para envolver o rosto da vítima e cauda para se prender a seu pescoço. Foi O’Bannon que sugeriu que as garras ficassem nos lados da criatura. O tubo, extremamente sexual e invasivo, sai do interior do monstro e invade a traqueia do hospedeiro para alojar sua semente, que irá germinar a próxima etapa do seu ciclo de vida, inspirado em micro organismos parasitários que colocam ovos nas peles de seus hospedeiros.

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Chestburster

Ideia surgida originalmente de uma pintura de Francis Bacon, “Crucificação” de 1946. Uma das figuras do estudo da obra de arte possuía apenas dentes e um corpo deformado, parecendo com um pequeno dinossauro. O conceito não agradou Giger e deixou-o frustrado, pois parecia uma galinha depenada. Foram uns rabiscos do próprio Ridley Scott que deram o visual do monstro que encontra seu caminho à dentadas do interior do peito de Kane: uma versão infantil do xenomorfo, exatamente como acontece com os bebês humanos. O resultado foi algo fálico, representando uma doença que explode de dentro de você.alienchestbursterturkeys1Seguindo a tradição de O Monstro da Lagoa Negra, foi decidido que o alienígena seria vivido por uma homem vestindo uma roupa de látex. O artista gráfico nigeriano Bolaji Badejo foi o escolhido por conta de sua estatura e porte físico, extremamente magro. O problema mesmo se tornou a cabeça do bicho e o mecanismo de sua “segunda boca”.

Várias tentativas frustradas na criação da cabeça mecatrônica do xenomorfo havia praticamente estourado o orçamento do filme, antes da chegada do mago Carlo Rambaldi, responsável pelo King Kong de Dino de Laurentiis e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. O italiano construiu uma cabeça com 900 partes articuladas, usando tubos de um antigo Roll Royce, vértebras de cobra, uma mistura de tudo, desenvolvido com plasticine, respeitando o design de Giger, não fazendo uma modificação sequer.

Saído da depressiva e perturbada mente de um artista excêntrico, capaz de criar cenários e ambientes “ultra-realistas” incomuns, que perambula no limiar entre o horror, o erotismo e o mecânico, o visual do alienígena tornou-se marcante e foi essencialmente o responsável por incontáveis gritos de horror dados por gerações, mesmo que, no espaço, ninguém fosse ouvi-los.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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