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Review 2017: #27 – Alien: Covenant

Muito Prometheus, pouco O Oitavo Passageiro


Há de se levar em consideração que MUITA gente gosta de Prometheus e tem lá seus motivos. Em contrapartida, o filme de Ridley Scott acabou por decepcionar também uma galera, incluindo o grosso dos fãs da franquia Alien, gerando até aquela famosa piada jocosa em PT-BR com o título, sobre o não cumprimento da promessa do veterano diretor inglês.

Depois de cinco anos e muita expectativa sobre a volta de Scott ao universo que ele dera origem há quase 40 anos, a grande dúvida na cabeça do público é: mas esse será mais Prometheus, ou mais Alien? E principalmente: o cineasta teria aprendido com os próprios erros e críticas a seu filme anterior, e focar nos acertos de seu seminal horror espacial, pedra angular do subgênero?

Com a estreia de Alien: Covenant nos cinemas brasileiros, as respostas são as mais deprimentes possíveis…

O filme que conta a tão aguardada origem do xenomorfo, que deveria saudar os fãs de longa data e introduzir a barata espacial para uma nova geração – pavimentando caminho para a ideia sem noção de uma nova hexalogia (!!!) – nada é mais que uma continuação canhestra de um antecessor fraco, que se preocupa muito mais em seguir explorando uma ideia que desagradou geral ao invés de uma simples e certeira “volta ao básico”, entregando um terror espacial claustrofóbico focado na criatura, e não, mais uma vez, nas desventuras de um sintético afetado, elucubrações sobre a origem da vida, e uma tripulação repleta de imbecis, além de ignorar completamente a mitologia a seu bel prazer.

Nem RPG arruma isso

Nem RPG arruma isso

Sério, como em pleno século XXII, a Weyland Corp. consegue juntar um grupo tão grande de astronautas ineptos, que deveriam ser os melhores em suas especialidades, afinal, a Covenant está partindo em uma importante missão de colonização? A série de pataquadas que selam a sorte daquele grupo é inadmissível, tal qual os personagens fraquíssimos que tripularam a Prometheus dez anos antes, e deu no que deu. A saudades de Ellen Ripley chega a bater forte no peito.

O roteiro é cheio de clichês, recursos pobres, tudo demasiadamente previsível e soluções baseadas em coincidências ou pura cabacice do tipo: “sujeito senta para fumar bem ao lado de esporos que irá infectá-lo” ou “nego cutuca uma forma botânica alienígena sem a menor parcimônia” ou “ciclana fica desnecessariamente desesperada e atira em um tanque de combustível explodindo a dropship e deixando todo mundo preso no planeta”, tudo praticado por um conjunto de personagens rasos que nem um pires, que só estão ali para a contagem de cadáveres, que você nem dá a mínima por não conseguir criar empatia por nenhum deles.

Não obstante, a primeira uma hora do filme poderia ter sido jogada na LATA DO LIXO da sala de edição. Nisso, estou falando desde o acidente que a Covenant sofre, que faz o novo capitão carola decidir pousar em um planeta não escaneado, contendo as mesmas condições biológicas e atmosféricas da Terra, ao invés de voltar a entrar em estado de animação suspensa e acordar só daqui a sete anos quando chegar ao seu destino junto dos dois mil colonos que a nave carrega, até a eclosão do chamado neomorfo, a irritante nova criatura feita totalmente em CGI, toda descompassada, sem a menor necessidade de existir, nem mesmo para o bestiário do cânone.

Só que o GRANDE problema de tudo é a ineficácia de Ridley Scott em construir a atmosfera do filme e sua direção burocrática, parecendo incapaz de repetir o sucesso que obteve de forma tão assertiva em Alien, o Oitavo Passageiro, ao criar um clima de crescimento exponencial do medo e ameaça na presença de uma forma de vida terrível e indestrutível que espreita na sombra. Pior é que ao sermos apresentados à Covenant nos primeiros minutos de filme, há nela um quê de Nostromo, com seus ambientes escuros e corredores apertados captados em ângulos fechados, perfeitos para o clima de clausura e claustrofobia.

Assassin's Creed

Assassin’s Creed

Scott, mais uma vez, perde tempo dando continuidade a todos os problemas do longa anterior, preferindo campos abertos e cavernas, dando destaque para uma série de devaneios criacionistas de David e sua motivação questionável, seus diálogos cafonas com Walter (papel duplo de Michael Fassbender, único que se salva), o sintético da Covenant – uma versão downgrade de si mesmo – incluindo aí uma insuportável sequência de SEIS MINUTOS onde ele ensina o robô-irmão a TOCAR FLAUTA DOCE, e decide voltar à espaçonave e mergulhar nos confins do espaço desconhecido apenas no terceiro ato.

Mas verdade seja dita: os últimos vinte minutos são realmente muito interessantes, a cereja de um bolo qualquer nota, salvo aquela VERGONHOSA cena do chuveiro, que parece saída de um slasher de quinta. Isso porque aqui, é feito o arroz com feijão ao tentar emular o original, além do fanservice em prestar uma baita homenagem ao visual da Ripley em Aliens, o Resgate. Exatamente o que eu, você, e todo mundo, imagino, queria ver desde que o longa fora anunciado, ainda mais contando com a direção do pai do xenomorfo, monstro que safadamente deve contabilizar no máximo uns trinta minutos de duração em uma projeção de mais de duas horas.

Obviamente há uma deixa para o próximo filme, com uma premissa bem das boas, e muitas perguntas ainda sem resposta, mas, talvez seja a hora de Ridley Scott largar o osso – uma vez que ele já não é o mesmo há um BOM tempo – e as sequências serem entregues para novos diretores que tragam suas visões particulares, como feito com muito sucesso na série até então (James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet estão aí para não me deixar mentir) ou o que vem acontecendo, por exemplo, com outras franquias espaciais como Star Wars ou Star Trek. Nem precisa ir tão longe, já que é Denis Villeneuve, o nome mais quente da ficção científica da atualidade, quem comandará a sequência de Blade Runner, outro clássico de Scott.

No frigir dos ovos, você me pergunta se ele é melhor que Prometheus. Eu respondo: sim! Mas pelo menos o antecessor é mais honesto e não frustra ninguém colocando ALIEN em letras garrafais no título, só para meter a barata espacial em cena por um período tão curto de tempo, completamente subaproveitado em um longa mediano e sem a mínima capacidade de construção do horror sufocante. Tentou misturar os dois filmes, e a receita não funcionou.

Pior ainda, fica aquele gosto ruim na boca por esta produção, junto de um Ridley Scott agindo tipicamente como “o dono da bola”, ter sido a responsável pela Fox enterrar o promissor Alien 5 de Neil Blomkamp…

 

2,5 neomorfos para Alien: Covenant

Nesse espaço, você nem vai ter vontade de gritar...

Nesse espaço, você nem vai ter vontade de gritar…


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. Clausner disse:

    O melhor filme é o “Alien- o oitavo passageiro” de 1979. Uma obra de arte.
    Depois, a melhor coisa que fizeram, foi o jogo: Alien Isolation.

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