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Dossiê Alien

Tudo o que você precisa saber sobre o xenomorfo e como um filme B de monstro espacial se tornou uma das mais importantes franquias do cinema


A redefinição de todo um gênero. A criação de um monstro icônico que populou os mais assustadores pesadelos. A percepção da importância do design como parte fundamental da concepção de uma criatura. A ideia do espaço como um lugar sombrio e assustador. O batismo de fogo de diretores iniciantes. O surgimento da heroína definitiva. Tudo isso tem um nome: Alien. A franquia, iniciada em 1979, criou um cânone adorado por fãs ao redor de todo o mundo e deu origem à mais perfeita amálgama entre terror e sci-fi.

Mas você sabia que originalmente Alien, o Oitavo Passageiro nasceu como um filme B de monstro espacial que seria produzido por Roger Corman? Que James Cameron só poderia dirigir Aliens, o Resgate se O Exterminador do Futuro fizesse sucesso? Que Alien 3 deveria ser ambientado em um planeta de madeira povoado por monges? Que Danny Boyle era a primeira escolha para dirigir Alien – A Ressurreição? E que Prometheus faria a ponte entre o derelict que caiu no planeta LV-426 e o sinal captado anos depois pela Nostromo?

Pois então: aí vai um dossiê com (quase) tudo que você precisa saber sobre a barata espacial antes de se aventurar a assistir Alien: Covenant nos cinemas:

Gritos no espaço

Cinco anos antes de Alien – O Oitavo Passageiro cravar que no espaço, ninguém ouviria você gritar, em 1974, Dan O’Bannon havia escrito, co-drigindo, editado, criado o design de produção e os efeitos especiais e atuado no ex-trabalho de TCC de John Carpenter, Dark Star, uma sátira de 2001 – Uma Odisseia no Espaço.

Havia uma forma extraterrestre no filme que era uma ridícula bola de praia com pé de pato (true story!) e O’Bannon saiu da produção com a ideia fixa de que queria fazer um space horror com um alienígena mortífero de verdade, inspirado em O Terror que Vem Do Espaço, um sci-fi B dos anos 50, trazendo elementos de uma vida inteira de literatura e cinema que faziam parte de sua bagagem cultural, como: Vampiros de Almas, O Monstro do Ártico, A Noite dos Mortos-Vivos e claro, O Planeta dos Vampiros, de Mario Bava.

Com a concepção em mente de um típico filme de Roger Corman, O’Bannon começou a bater nas teclas de sua máquina de escrever para desenvolver o que originalmente se chamaria Star Beast, partindo da premissa da tripulação de uma nave espacial sendo acordada e descendo em um planeta estranho para investigar um chamado. Lá, eles seriam infectados e trariam uma terrível forma alienígena à bordo. O roteiro empacou aí, contendo apenas esse primeiro ato.

Foi quando Ronald Shusett ligou para O’Bannon, dizendo que havia comprado os direitos do conto “Podemos Recordar Para Você, Por um Preço Razoável” de Philip K. Dick que viria a se tornar O Vingador do Futuro – e tinha interesse que ele escrevesse o roteiro. Nesse ínterim, Alejandro Jodorowsky, que estava no meio da produção de sua megalomaníaca versão de Duna (aquele ambicioso projeto com Pink Floyd, Orson Welles, Salvador Dalí e Mick Jagger no elenco) adorou os efeitos de Dark Star e chamou O’Bannon para a Europa a fim de trabalhar com ele no filme. Lá conheceu um tal Hans Rudolf Giger e o ilustrador britânico de ficção científica Chris Foss. Guarde essa história.

"Você quer um pouco de ópio?" Foi oferecendo esse tóxico que H.R. Giger conheceu Dan O'Bannon

“Você quer um pouco de ópio?” Foi oferecendo esse tóxico que H.R. Giger conheceu Dan O’Bannon

Como bem sabemos, tudo deu absurdamente errado com Duna, O’Bannon voltou aos EUA sem um puto, e sua única forma de conseguir uns trocados era vender seu roteiro de Alien (já rebatizado) de qualquer jeito, e assim poder sair do sofá de Shusett onde estava hospedado, vivendo a base de cachorro-quente. Pois bem, o parceiro disse que o ajudaria a finalizar a história se depois colaborasse com O Vingador do Futuro. Inclusive foi dele a ideia do facehugger “estuprando” Kane, colocando o parasita alienígena dentro de seu corpo e por conseguinte, da nave – lampejo que teve ao acordar no meio da noite – e que, fato consumado, foi o que viabilizou a realização do filme por conta da futura e clássica cena da explosão do peito.

A dupla apresentou o script para várias produtoras até que ele chegou às mãos de Rob Rehme da New World Pictures, a companhia de exatamente quem? Roger Corman! O negócio estava quase fechado, era só uma questão de tempo, quando Mark Haggard, amigo roteirista em comum, quis dar uma lida no projeto. Enquanto esperava a fatídica batida de martelo com Corman, Haggard se apressou e apresentou o roteiro para o produtor Gordon Carroll, que por sua vez, levou para Walter Hill (diretor de Warriors – Os Selvagens da Noite) da recém-fundada Brandwyine Films ao lado David Giler, que acabou comprando o filme e o levou para a Fox.

Segundo O’Bannon, os produtores mexeram de forma arbitrária no texto original – “era meu roteiro depois de sofrer um acidente de carro” – reescreveram os diálogos, mudaram os nomes dos personagens e acrescentaram a ideia de colocar Ash como um sintético, o conceito de “caminhoneiros espaciais” para a tripulação da Nostromo e Ripley ser uma mulher, mal sabendo que a personagem da novata Sigourney Weaver – a última a participar das audições – daria origem a um novo e definitivo tipo de heroína.

O roteiro hibernou um tempo por lá, e como Alien – O Oitavo Passageiro ganhou o sinal verde da Fox é daquelas equações resultante de “lugar certo, na hora certa”. Acontece que, como a história é testemunha, o estúdio da Raposa não havia botado a menor fé em um certo filme independente de “capa e espada espacial” idealizado por um tal George Lucas. Depois do sucesso arrasa-quarteirão de Star Wars, a ficção científica voltou a moda e eles estavam desesperados em aproveitar o filão. Adivinhe qual o único roteiro que se passava no espaço que tinham em cima da escrivaninha?

Foi iniciada a tarefa de transformar um filme B em classe A. O’Bannon de verdade achou que iria dirigi-lo, mas a Fox ofereceu para Hill, que aceitou a priori, mas percebeu que não tinha o tino para os efeitos especiais. Depois Carroll falou com Robert Aldrich, mas não se empolgou com a solução que ele daria para a fatídica cena do facehugger: jogar um FÍGADO no rosto do ator e estava tudo certo. O estúdio então queria Peter Yates, mas os produtores não. Jack Clayton recusou a cadeira de diretor. Ninguém aceitava comandar aquele “estúpido filme de monstro”, quando Carroll assistiu a Os Duelistas em Cannes. Ridley Scott foi sugerido e voilá, foram 26 horas entre o ex-diretor de comerciais inglês ler o roteiro e estar em Hollywood para assinar o contrato e ser engolido pelos processos da máquina da indústria cinematográfica.

Saudades de quando Ridley Scott sabia o que está fazendo...

Saudades de quando Ridley Scott sabia o que está fazendo…

Scott queria fazer um filme verdadeiramente assustador, tipo um O Massacre da Serra Elétrica no espaço, seguindo um velho expediente de “personagens sendo mortos um a um”. Mas ele não queria fazê-lo com cenários com caixas de papelão pintada e um homem vestindo uma tosca roupa de borracha. Ao terminar seus storyboards, rapidamente o orçamento dobrou de 4,2 para 8,4 milhões de dólares (fora o gasto com publicidade somado depois) e logo, o que mais começou a preocupar a todos, era o visual do monstro, porque se fosse algo mambembe, tudo iria para o espaço (hein?). Aí que O’Bannon mostrou ao diretor, Necronomicon, o livro de ilustrações, de H.R. Giger e Scott disse:  “É isso!”.

Inteligentemente duas mentes foram responsáveis por criar dois mundos baseados em distintos estilos de design: o suíço cuidou de tudo que envolvesse o alienígena, com a criatura  e seu visual humanoide inseto biomecânico asexuado, o facehugger, o chestburster, os ovos, o derelict, o planeta e o Space Jockey; e Rob Cobb, tudo que envolvesse os humanos, a parte interior da Nostromo (o visual exterior foi desenvolvido por Foss) e da Narcissus, realisticamente fundamentado na lógica da engenharia espacial, desenhados com a visão de um projetista, mas nada parecido com qualquer conceito da NASA, e sim, baseado na visão de Scott inspirada nos quadrinhos franceses Métal Hurlant e em Moebius. Ou seja, um veículo com tecnologia retrô (grandes botões, monitores de baixa resolução, luzes piscantes), parecida com um antigo submarino da Segunda Guerra Mundial, misturada com um visual fabril, torres de catedrais góticas e que por dentro parecesse um caminhão velho, com estofado remendado de fita adesiva, sujo e escuro.

Visu concebido, a cabeça mecatrônica do xenomorfo criada pelo italiano Carlo Rambaldi, cenário construído e atores contratados, eles precisavam de alguém macérrimo para usar aquela roupa de látex bem fina, que pudesse esticar e ainda assim os detalhes ficassem perceptíveis, e não parecer um borrachão à lá O Monstro da Lagoa Negra. Certa semana os diretores de elenco estavam num pub e trombaram com um cara de dois metros de altura, esbelto, longilíneo e elegante. Bolaji Badejo, ilustrador gráfico nigeriano, foi abordado com a pergunta que todos gostaríamos de ouvir: quer participar de um filme? Depois foi só meter o sujeito na fantasia, besunta-lo com tubos de KY para dar aquela aparência gosmenta pingando, e mandá-lo para aulas de tai-chi e mímica para aprender a se dobrar e mover-se lentamente, de forma sinuosa. Nascia o oitavo passageiro da Nostromo.

Com tudo pronto, Ridley Scott resolveu colocar em prática os ensinamentos de Alfred Hitchcock, e Tubarão de Steven Spielberg, de filmar pouco o alienígena, pois a sugestão é muito mais assustadora e poderosa do que entregá-lo totalmente e construiu toda atmosfera de suspense em um ritmo arrastado durante 45 minutos até o ovo eclodir, para encurralar o espectador e deixá-lo com os nervos em frangalhos numa escalada de tensão até seu terceiro ato, somado a seu método nada ortodoxo de não conversar com os atores, pois os queria inseguros, tensos, e o mais importante, não mostrando a eles o alien. A psicologia do medo estava toda ali entregue de bandeja.

Nunca  um horror espacial havia trabalhado tão bem a questão da claustrofobia, da criatura que espreita no escuro quando somos crianças, e escancarado tantos de nossos pavores: organismos estranhos crescendo em nossos corpos, inteligência artificial maligna, clausura, violação, sexualidade, e principalmente, o medo do desconhecido. “O alien é uma versão mais escura, mais absoluta e mais selvagens de nós mesmos”, disse Sigourney Weaver certa vez. E se a Ripley falou…

Alien – O Oitavo Passageiro mostrou o espaço como um aterrador, sujo e sombrio lugar, muito diferente do otimismo ingênuo de Encontros Imediatos do Terceiro Grau e Star Wars. Definiu todo um gênero e criou a mistura perfeita entre o terror e o sci-fi, além de estabelecer um padrão a ser seguido, utilizando da ficção científica como elemento para assustar.

Ainda assim, apesar do sucesso estrondoso e faturar mais de 100 milhões de dólares de bilheteria, só depois de sete anos de animação suspensa, Ellen Ripley, a única sobrevivente da Nostromo, voltaria a dar de cara com o(s) xenomorfo(s).

Mas eu só quero um abraço...

Mas eu só quero um abraço…

Desta vez, é guerra!

David Giler queria fazer uma sequência lá mesmo em 1979, com total apoio do então presidente da Fox, Allan Ladd, Jr. Só que pouco tempo depois, o manda-chuva saiu do estúdio e a Raposa ficou nas mãos dos novos donos, March Rich e Marvin Davis, e o novo executivo, Norman Levy, disse que não tinha nenhum interesse em uma sequência. O projeto entrou em hiato, até 1983.

Sob nova direção novamente, os engravatados recém-empossados do estúdio então acenaram com interesse em continuar Alien, e Giler foi abordado no estacionamento, explicando que sua ideia era uma mistura de O Confronto Final e Sete Homens e Um Destino, mas com alienígenas. Uma reunião selou o acordo e as coisa começaram a se encaminhar. Mas faltava um roteiro.

Foi quando Giler se deparou com o script de um certo O Exterminador do Futuro, entrando em contato com James Cameron e lhe oferecendo a oportunidade de escrever a sequência. O barbudo, que havia ficado impressionado com o filme de Ridley Scott, ficou mais feliz que pinto no lixo. Inclusive o sujeito havia trabalhado na equipe de Roger Corman como desenhista de produção e efeitos especiais de Galáxia do Terror, um salafrário sci-fi trash, rip off de Alien, dirigido pelo Rei dos FIlmes B.

Sua intenção era não fazer uma refilmagem nem um tie-in, mas sim introduzir novos conceitos e uma nova visão para a série, e preparou um primeiro rascunho com 45 páginas – que não foi bem recebido pela Fox – quando um problema na produção do Exterminador (ou, talvez, uma daquelas sortes do destino) fez com que as filmagens tivessem que esperar por nove meses, uma vez que Schwarzenegger tinha um contrato com Dino de Laurentiis que o obrigou a fazer Conan, o Destruidor antes de poder encarnar o T-800 em toda sua glória cibernética.

Cameron ficou aí com um tempão livre e pode dar o tratamento final ao roteiro do até então chamado Alien II, e zás, todo mundo adorou e o sinal verde foi dado. Inclusive a Fox prometeu que se O Exterminador do Futuro fizesse bonito na bilheteria, ele poderia dirigir o filme. Bom, a gente sabe o que aconteceu depois…

"Eu sou o rei de vários mundos"

“Eu sou o rei de vários mundos”

A pré-produção teve seu pontapé inicial e Rob Cobb voltou ao time para desenvolver as artes conceituais de tudo que envolvesse a colônia espacial e Syd Mead, que trabalhara em Tron – Uma Odisséia Eletrônica e Blade Runner – O Caçador de Andróides, para a criação da nave Sulaco, partindo do conceito de um visual industrial, lógico e bélico.

Nada de um terror gótico, o “Rei do Mundo” queria um filme de combate, aproveitando sua experiência ao escrever Rambo II: A Missão, inspiração no livro Tropas Estelares de Robert A. Heinlein, e construir uma alegoria a Guerra do Vietnã, criando uma situação onde uma força tecnologicamente superior armada até os dentes pode ser dar mal se não estiver bem preparada ou subestimar o inimigo, tal qual foi a frustrada incursão americana no sudeste asiático. “Muito poder de fogo e pouca sabedoria”, disse o diretor.

Além disso, seu plot trouxe Ripley de volta como uma dissidente, uma pária, acordada 57 anos depois da tragédia na Nostromo, tentando se encaixar em um mundo a qual não mais pertence, psicologicamente quebrada pela batalha com a criatura alienígena, a morte de toda sua tripulação e, principalmente, desenvolveu seu background inédito, como uma mulher divorciada com um filha pequena na Terra, Amanda, com quem esperava se reunir, mas faleceu enquanto vagou por tanto tempo à deriva em seu hipersono.

Voltar ao planetóide LV-426, rebatizado de Acheron, uma colônia mineradora composta por 70 famílias, terraformada pela inescrupulosa Weyland-Yutani, é a metáfora de encarar o pesadelos e lutar contra eles, como uma terapia de confrontação, tentando se livrar de uma experiência traumática.

Talvez dos mais importantes acréscimos de Aliens, o Resgate tenha sido introduzir alguns elementos importantes para o ciclo de vida alienígena, explicando sua natureza e hierarquia, largamente baseada em colônias de insetos. Colocando o título do filme no plural, vemos aqui uma infestação de uma espécie de xenomorfos, batizados de “guerreiros”, como criaturas mais velozes, pulando, rastejando e se pendurando de ponta cabeça, mesmo com o estúdio duvidando da capacidade de haver muitos aliens no filme. Cria de Roger Corman, Cameron utilizou só meia dúzia de acrobatas, contorcionistas e dublês vestidos de barata espacial em cada cena, mas graças a edição rápida, dá a impressão de muito mais.

Mas sem dúvida o que salta aos olhos é a concepção da Rainha, intensificando essa semelhança dos alienígenas com insetos, e por fim, trouxe algo inédito à franquia. Inspirada nas rainhas cupim e com uma pegada aracnídea, a descomunal criatura foi criada por Cameron e construída por Stan Winston. Um novo organismo, sentada em um trono biomecânico repleto de ovos, explicando de onde nasce sua ninhada, uma continuação da filosofia do design de Giger, mas com um visual mais feminino, gracioso, além de instinto materno e controle sobre sua prole.

Get away from her, you bitch!

Get away from her, you bitch!

Em algum momento durante a produção, David Cameron chegou a pensar em um Alien 3 contando a história da volta de Ripley, o cabo Hicks e a jovem Newt à Terra (algo que seria retomado em um possível Alien 5 do Neil Blomkamp, engavetado antes mesmo de tomar forma por conta do lançamento de Alien: Covenant) como uma família. Mas o que acabou virando o terceiro filme da série teve um trágico destino completamente diferente.

O pão que o xenomorfo amassou

Alien 3 foi o tour de force de David Fincher. Oriundo dos videoclipes e do mercado publicitário, o jovem diretor – hoje um dos mais respeitados de Hollywood – em sua estreia cinematográfica passou o diabo por conta de incontáveis problemas na produção desde o início, pressão do estúdio, orçamento e prazos estourados e o fato quase insólito de filmar sem um roteiro pronto.

Todo mundo queria uma continuação de Aliens, O Resgate, que havia sido um tremendo sucesso, mas os produtores tinham em mente algo que ainda não houvesse sido feito, ao invés de uma cópia em carbono dos anteriores. O primeiro de inacreditáveis DEZ roteiros escritos era de William Gibson, autor de Neuromancer, datado de 1987, focado no cabo Hicks e o sintético Bishop enfrentando xenomorfos geneticamente alterados em uma estação espacial científica, abordando a duplicidade da Weyland-Yutani e sua necessidade de conseguir essa arma.

O conceito não foi levado para frente por ser considerado mais uma extravagância de ação nos mesmos moldes do anterior. Um ano depois ele preparou um segundo roteiro em uma escala menor, se passando no mesmo ambiente, porém com apenas três alienígenas, um contingente menor de fuzileiros coloniais e trocando o tiroteio por um clima de horror claustrofóbico que remetesse ao primeiro. Devidamente rejeitado, em seguida entrou em cena o roteiro de Eric Red, onde o inédito personagem Sam Smith (ventilava-se a ideia de não ter Sigourney Weaver de volta, primeiro por não saber se ela estaria a bordo e, segundo, pela audiência feminina muito baixa em O Resgate, cogitando um personagem masculino em seu lugar) combatendo as baratas espaciais em uma pequena cidade intergalática dentro de uma redoma de vidro espacial chamada North Star. Substituição: Sai Red, entra David Twohy.

Um pouco mais próximo do resultado final que conhecemos hoje, esse rascunho se passava em uma imensa prisão interplanetária, tipo Alcatraz, que também funcionava como uma refinaria de minério, localizada na órbita da Terra. Alguns diretores foram abordados, inclusive Ridley Scott, que mandou um “beijo, me liga”, até Renny Harlin ser contratado. O qual não gostava da ideia de voltar para naves e corredores, tudo que já havia sido explorado antes, e sim, mostrar de onde vieram os aliens, com a trama se desenvolvendo em seu planeta de origem, explicando o que raios eles eram. Soa familiar? Mas isso custaria muito dinheiro e foi vetado. A ideia dos aliens chegando a Terra também era bastante ventilada e surgia como uma necessidade da audiência. Até um teaser chegou a ser criado com a tagline “Na Terra, todos ouvirão você gritar”.

Harlin se desligou do projeto (alguém aí disse: “diferenças criativas”?) e foi a vez de Vincent Ward, diretor de Navigator: Uma Odisséia no Tempo, assumir o roteiro e direção, trazendo uma ideia nababesca completamente diferente para o filme. Sua história, bastante inusitada, se passava em um planeta chamado Arceon, que na verdade era todo feito de madeira, onde fica localizado um monastério, destino dos humanos que queriam escapar da tecnologia desenfreada, vivendo como monges de forma auto suficiente em um local repleto de catedrais, moinhos, plantação de trigo. Quase que um ambiente medieval, como se saído de uma pintura de Bosch.

A nave de Ripley cairia no planeta, governado pela mão de ferro de um Bispo fundamentalista, e traria consigo a criatura, que era tida como o diabo, e que ela, como mulher, pecadora e aquela ladainha cristã toda, seria acusada como a responsável por levar a figura satânica para lá. O bicho teria de ser combatido com instrumentos agrícolas, culminando na morte da protagonista – grávida do alien – uma vez que Sigourney Weaver queria que essa fosse a última aparição da personagem, condição sine qua non para que ela participasse do filme. Aparentemente todos teriam adorado o roteiro e Alien 3 entrou em pré-produção, com a construção dos sets, escolha do elenco, e por aí vai.

Bom, os executivos haviam adorado a ideia até a página dois. Na real, só concordaram com voltar a fazer um filme mais focado no terror, com a Ripley no elenco e claro, ter apenas um alien. Primeiro foi questionado a ideia de monges e não detentos, depois do planeta de madeira e não uma colônia de mineração, elementos de versões anteriores. Ward então recebeu um lista agressiva e autoritária de mudanças dos manda-chuvas, o que foi a gota d’água, resultando em mais uma baixa por “diferenças criativas”.

Arte conceitual do monastério do diferentão planeta de madeira de Vincent Ward

Arte conceitual do monastério do diferentão planeta de madeira de Vincent Ward

Com a data de lançamento já cravada, e Alien ter se tornado uma franquia que sustentava um estúdio, muita gente envolvida no projeto metendo o bedelho, um caminhão de dinheiro gasto na construção de um filme que não existia mais e os burocratas querendo algo mais seguro e menos visionário, a batata quente assou na mão do pobre Fincher que topou a empreitada.

Só que ele perdeu toda a fase de pré-produção, teve de conceber tudo em um período muito curto de tempo e com a grana escassa, suportar o mais rigoroso inverno em Londres dos últimos anos durante as gravações, seu diretor de fotografia foi diagnosticado com Mal de Parkinson, sofreu muita interferência por parte do estúdio e iniciou o trabalho sem um roteiro finalizado, que mudava constantemente sempre tendo de se adaptar ao novo material que chegava. Como desgraça pouca é bobagem ainda houve interrupção das gravações, refilmagens que levaram seis semanas e um imbróglio envolvendo a cabeça raspada de Weaver com um bônus de 40 mil dólares se tivesse que passar a ZERO de novo, a saída do produtor David Giler, e constantes brigas e indecisões sobre o final, martelo batido de última hora, que claramente foi feito às pressas.

Porém, elementos importantes – e visualmente impactantes – foram inseridos no cânone, com a volta de H.R. Giger para desenvolver o visual do xenomorfo, dessa vez mais parecido com um animal, quadrúpede, com pernas proeminentes e mais longas, mais estético e mais ágil, e a interessante inclusão dos lábios, para torná-lo ainda mais erótico. Além disso, foi apresentando um novo super facehugger (ou queen facehugger ou ainda royal facehugger), responsável por carregar o embrião da rainha, maior e com um visual mais próximo ao seu exoesqueleto blindado, e o bambi-burster, idealizado por Fincher e desenhado por Giger, versão bebê da criatura com pernas alongadas, introduzindo a ideia de que o xenomorfo absorve atributos genéticos de seu hospedeiro, uma vez que ele foi gestado em um cachorro ou em boi, dependendo da versão que você assiste.

Falando nisso, a versão final foi completamente retalhada pelo estúdio, em um processo de edição que demorou um ano, resultando em um filme completamente diferente da versão idealizada por Fincher, que gerou outra briga enorme com a Fox, como se já não bastasse tudo que aconteceu, terminando o relacionamento conturbado com o diretor renegando o filme.

Cenas importantes, e digamos até essenciais, como a gestação e eclosão no boi ao invés do Rottweiler, a cena da praia mostrando o ambiente inóspito de trabalho, um pouco mais de desenvolvimento do personagem de Charles Dance, a criatura capturada e depois solta pelo insano detento Golic, ficaram pelo caminho na sala de edição, ganhando vida apenas em 2003 com o lançamento da quadrilogia em DVD, em uma versão conhecida como “Assembly Cut”, feita pelo produtor Charles de Lazurika a partir de notas de produção de Fincher, trazendo um reconstrução da obra com significantes 25 minutos a mais, e eliminando sequências  do corte de cinema.

Altamente subestimado e com uma inicial baixa aceitação, mas redescoberto no passar dos anos, Alien 3 é um filme sombrio, grosseiro, sujo, sangrento e com um tom absolutamente pessimista e um final nada feliz. Só que ser incinerada por chumbo derretido na caldeira de Fiorina “161” Fury não foi o suficiente para deixarem Ripley descansar em paz.

Cadê o roteiro desse filme????

Cadê o roteiro desse filme????

Toque francês

Lá no final dos anos 90 a clonagem estava em alta, vide a ovelha Dolly, e seguindo por esse caminho, a Fox desejava reviver a franquia e trazer Ripley de volta, contratando Joss Whedon, fã fervoroso da série que cresceu assistindo aos filmes do alien, para escrever um roteiro.

Giler e Walter se opuseram arduamente contra um Alien 4, mas de nada adiantou, já que a Raposa era quem detinha os direitos da besta, e optaram por não se envolver com a produção. Segundo Whedon, que já revelou não gostar nada de Alien – A Ressurreição, o resultado final do roteiro está bem diferente do que escrito originalmente por ele, principalmente no tom do filme, que possuía diálogos mais ferinos e sarcásticos (como estamos acostumados na obra do roteirista/ quadrinista) e uma pegada mais realista e menos fantasiosa. Mas que foi rechaçado pelo diretor Jean-Pierre Jeunet, que teve carta branca em modificar tudo que quisesse em detrimento da sua visão e ideias esquisitas.

De prima foi ventilado o nome de Danny Boyle para a direção, mas os produtores não aceitaram. O segundo nome foi logo de Jeunet, por se tratar de um contador de histórias, com preocupações estéticas e visuais, muito ligado ao design, que se interessa por iluminação, composição, e com isso, dar uma cara de filme europeu, retomando a ideia de um visual de quadrinhos de ficção científica.

Assim como todos, ele queria fazer algo diferente do que já havia sido feito, o que é deveras respeitoso, e prestar homenagem a direção de arte do primeiro filme, evoluindo a criatura, mas mantendo o estilo do Giger. O problema foi querer enveredar para o humor negro e o mood destoar completamente dos demais filmes e da proposta da franquia em si.

Em uma entrevista, o próprio Jeunet enfatizou que ao ser abordado, deixou bem claro que não queria fazer filmes em Hollywood (na época estava escrevendo O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) e que para ele, dirigir Alien – A Ressurreição era “como fazer um comercial, mas esse seria um comercial bem longo”. Ou seja, um cara contratado para um trabalho burocrático e mastigado que não coloca no filme a visceral paixão de um Ridley Scott, James Cameron e David Fincher. O resultado taí nas telas.

Deveriam ter chamado o Dr. Albieri

Deveriam ter chamado o Dr. Albieri

Bom, a receita do fracasso também envolve a questão de uma Ellen Ripley clonada, completamente fora do contexto de sua personagem anterior, com um mistura genética com o DNA do alien que lhe confere “poderes especiais” e uma ligação maior com a criatura que passou a odiar com a própria vida. Por sugestão da própria atriz (que recebeu pela sua volta, nada menos que 11 milhões de dólares, o orçamento completo do primeiro) ela passou a ser “mais alien que humana dessa vez”.

Quanto ao xenomorfo propriamente dito, a figura do alien guerreiro aparece nesta quarta parte também resultado de clonagem, mais astuto e maligno, com linhas mais direcionais e anguladas, cabeça mais pontiaguda e queixo para frente, ombros exagerados, caixa torácica mais saliente, aumento da espinha e a cauda com uma ponta mais navalhada, inclusive para ajudar na aerodinâmica na cena em que eles nadam. Além disso, a Rainha está de volta, mas dessa vez, por conta do mix com o DNA de Ripley, sua gestação é quase mamífera, o que resulta no nascimento do infame newborn, UM DOS MAIORES ERROS DA FRANQUIA.

Jeunet bateu o pé de que ele teria de ser mais humano que alien, com expressão nos olhos, nariz, língua, e emanasse compaixão, empatia, resultando naquela carinha de dó de cachorro largado na chuva, e assim a criatura albina pudesse expressar emoções diferentes, realmente atuar e não ser apenas uma måquina de matar. Ainda era pra ter genitais masculino e feminino como hermafrodita, mas o estúdio veementemente vetou devido sua aparência desagradável e até o diretor, no final das contas, achou que era demais, mesmo para um francês.

Fato é que Jeunet conseguiu no final das contas imprimir seu trabalho e um tom completamente diferente dos demais, entregando maomeno um sci-fi europeu com humor negro, seguindo o establishment da franquia com diretores variados e suas visões particulares para cada uma das sequências. Mas não foi o suficiente, o filme foi muito mal na bilheteria americana e não agradou público e crítica, sendo considerado por muitos o pior da série. Até então…

Mamãe?

Mamãe?

Eram os deuses astronautas?

Apesar do subtítulo, Alien – A Ressurreição não conseguiu ressuscitar a franquia, enterrando-a no limbo cinematográfico de vez (exceto os crossovers com o Predador que nem vamos entrar no mérito). Até que Ridley Scott, quinze anos depois, surge com uma indagação que nunca havia sido respondida nos quatro filmes: quem a foda era aquele Space Jockey que jazia fossilizado no derelict pousado em LV-426 encontrado pela Nostromo?

Há tempos já se ventilava a ideia de Scott retornar para um, digamos, prequel do universo do Alien, respondendo a algumas perguntas ao melhor estilo Globo Repórter: “o que são, de onde vieram”. Então, finalmente era hora de voltar atrás e elucidar não só de onde o navegador espacial e o xenomorfo surgiram, mas também, explorar nossa própria origem, em uma interessantíssima pira criacionista ao melhor estilo Erich Von Däniken.

Com o working title de Alien: Engineers e depois Alien: Genesis, o primeiro tratamento de roteiro de Jon Spaihts fazia uma ponte que conectaria aos acontecimentos de O Oitavo Passageiro, mas com pano de fundo na busca da humanidade pelos seus criadores, mostrando que o que se passa no primeiro filme seria apenas a ponta do iceberg de algo intrinsecamente ligado ao surgimento da vida em nosso planeta.

Basicamente, muitos conceitos foram aproveitados na versão final, porém originalmente traria todos os elementos estabelecidos na franquia: ovos, facehuggers, chestbursters e por aí vai. A nave exploradora Magellan iria encontrar o planetóide LV-246, assim como os Engenheiros mortos em uma nave que carregava uma arma biológica geneticamente modificada, incubada dentro dos ovos estocados em uma certa câmara que John Hurt viria a conhecer de perto.

A tripulação ainda se depararia com versões prévias de um xenomorfo de pele branca (chamado de beluga-xenomorph, conceito reaproveitado como o neomorfo de Alien: Covenant). Apenas um Engenheiro está vivo, e ao ser acordado, quer completar sua missão de destruir a Terra, mas a nave é abatida e uma outra criatura colossal, chamada ultramorfo, eclode de seu peito. A única sobrevivente da Magellan, presa na rocha espacial, emite então um sinal de perigo para se afastarem daquele local, aquele mesmo captado muitos anos depois pela Nostromo.

O que aconteceria se...?

O que aconteceria se…?

Tudo lindo e maravilhoso e o ciclo se fechava. Mas não, Ridley Scott começou a interferir no roteiro cada vez mais, a coisa toda escalonou para algo mais espetaculoso e a origem do alien deixada cada vez mais marginalizada. O prego no caixão foi quando Damon Lindelof foi contratado pelo estúdio para reescrevê-lo (provavelmente já se pensando mercadologicamente nos desdobramentos para futuros filmes), e aí que a sopa primordial entornou.

A correlação com a mitologia original foi abandonada e a ligação com O Oitavo Passageiro deixada de lado em detrimento de um stand alone dentro do universo de Alien que caminhasse de forma paralela, e não só como um prequel direto. A Prometheus aterrissa em outro planeta, o LV-223, e o foco seria lidar com questões filosóficas, os perigos de brincar de Deus, e assuntos como vida, morte e religião, e não apenas só mais uma abordagem da criatura.

Justíssimo, mas não precisava então ser um filme do alien, certo? Talvez fosse até melhor a idealização de um sci-fi completamente independente. Com certeza seria mais honesto. Mas não é, pois o Space Jockey está ali, a Weyland Corp. está ali, e até um novo xenomorfo está ali, logo, cheira a oportunismo, e muita gente envolvida queria ganhar dinheiro em cima de uma franquia já estabelecida e uma imensa base de fãs.

Mas claro, Prometheus, apesar do seu roteiro fraco e cheio de buracos, tem lá seus elementos válidos, como: os Engenheiros e a revelação que o visual paquidérmico do Space Jockey era um exoesqueleto orgânico para voo, e não a verdadeira forma fossilizada do piloto; o líquido preto, poderoso patógeno mutante capaz de modificar o material genético, responsável pela mutação no geólogo Fifield e na transformação de minhocas no hammerpede, aquela criatura meio cobra/meio centopeia que ataca o biólogo Milburn (a maior dupla de patetas da Prometheus); e o Deacon, o que seria a penúltima combinação do alien, resultado da gestação do trilobite – aquele facehugger molusco lovecraftiano repleto de tentáculos – dentro do Engenheiro, combinando tanto seu DNA quanto humano.

Mas talvez a mais importante contribuição de Prometheus à mitologia é a figura de David, o sintético quase-humano criado por Peter Weyland em pessoa, interpretado por Michael Fassbender, frustrado pela fraqueza de seu criador, despeito pela humanidade, muito rancor por servir xícaras de chá, cheio de ideias de superioridade e desejos de criação e experimentação. Quem já assistiu a Alien: Covenant, sabe bem do que eu estou falando e porquê da ligação deste personagem para o surgimento do xenomorfo como nós o conhecemos hoje.

Engraçado mesmo é Lindelof falar sobre sua devoção ao Alien e na confiança que tinha no poder de seu texto, além de que Ridley Scott não ia querer emputecer fãs de uma franquia de mais de 30 anos. Acabou sendo EXATAMENTE o que ele fez, não só com Prometheus, mas principalmente na sequência, onde ele manda a mitologia que ajudou a criar e estabelecer às favas, sem a menor dó. Mesmo descobrindo a duras penas com seu filme anterior, por conta da péssima recepção de público, crítica e do estúdio, que o que o povo gosta e quer mesmo, são mais aliens.

Qual o futuro do xenomorfo, ainda mais depois desse novo capítulo oficial em sua saga? Scott já afirmou que Covenant é o primeiro filme de uma nova trilogia, mas que ele tem material para outros três e nenhuma intenção de abandonar a franquia novamente. Então só o tempo, o espaço, e os resultados da bilheteria, poderão responder essa pergunta.

Vou enfiar um desse tamanho no rabo dos fãs de alien

Vou enfiar um desse tamanho no rabo dos fãs de alien


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. David Carvalho Roldão disse:

    Ótimo e delicioso texto ! Parabéns !!! Pena que a Fox tenha perdido o caminho de renovar mais essa franquia para as novas gerações…

  2. Rub.88 disse:

    Eu considero o primeiro filme da franquia como o melhor, e, além disso, ele entra na minha lista dos top 10 de todos os tempos.
    Mas tem um defeito no filme de 1979, causado pelo famigerado subtítulo que aqui no Brasil se costuma acrescenta no nome dos filmes. O xenomorfo não é o oitavo passageiro, e sim o nono. Jonesy, o gato conta como um tripulante da Nostromo…

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